Prendam o morto

 

 

 

 

 

 

 

Há uma tendência geral na sociedade para colocar o Estado – na sua versão persecutória, jurídica, em suma, a força bruta, a resolver os problemas. É óbvio que tem que haver repressão, em algumas matérias, como é o caso da violência doméstica, mas a repressão por si, tema a que parece reduzido o feminismo nesse campo, é uma gota de água no oceano de sofrimento humano. Em grande parte das vezes – cujo número certo desconheço – a repressão chega a tempo de registar o óbito. E pior, não há quem reprimir. Soubemos esta semana que mais de metade dos homens que matam as mulheres a seguir suicidam-se. O que isto quer dizer? Que antes de lhes enviar a polícia, ao primeiro estalo, deviam ter enviado o psicanalista – a eles, às mães deles, ao patrão deles. Reduzir um tema desta complexidade a uma suposta sociedade machista e à necessária contrapartida legal é não fazer qualquer esforço para compreender a complexidade das relações humanas, a solidão, a incapacidade de negociar, o amor, como escreveu um dos meus filhos então com 7 anos, numa redacção, «é uma coisa que dá muita felicidade», a paixão e os seus impulsos narcísicos (escrevo eu, «é uma coisa que dá muita infelicidade»), os nossos limites e insuficiências, a moral geral que vigora individualista (doença pior que o machismo hoje), a perda de laços sociais em sociedades urbanizadas, a perda de laços associativos e a consequente crença que o Estado resolve tudo, a transição histórica das novas relações homem-mulher, nem elas nem eles sabem ainda como viver naquele que foi um dos aspectos que mais mudou na história da humanidade – o lugar da mulher no pós-guerra; a superficialidade das relações que unem grande parte das pessoas que jamais pensam quem são, como estão, com quem estão, porque não querem enfrentar o dificil olhar sobre nós próprios. Nunca a humanidade teve tanta gente e nunca as pessoas estiveram tão longe umas das outras. Isto não se resolve, lamento dizer-vos, prendendo o morto.

Para quem queira ler algo de leitura fácil sobre a complexidade das relações deixo esta sugestão. Relação de Qualidade – Penso em Ti · António Coimbra de Matos Editora: Climepsi Editores | Ano: 2011.

9789727963195

Relação de Qualidade – Penso em Ti · António Coimbra de Matos Editora: Climepsi Editores | Ano: 2011.

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3 thoughts on “Prendam o morto

  1. Não deixa de ser irónico apelar à necessidade de compreensão do assassino precisamente quando não é possível aplicar a justiça dos homens. Não é admissível continuarmos a definir padrões de comportamento e esperar que as pessoas se adaptem a estes, penso que esta realidade é o princípio de todos os problemas.

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