Alípio de Freitas

Não somos todos iguais, e também não estamos só divididos entre pobres e ricos, há uma corrente de esquerda que trata os trabalhadores como pobrezinhos sem subjectividade e vontade própria. Até considera, essa corrente ou parte dela, que o trabalho mal feito é um acto de resistência, quando há uma grande distância entre fazer mal um trabalho em condições de exploração e fazer bem esse trabalho enquanto, com muito trabalho, se organiza a resistência às más condições laborais, à exaustão, etc. A desistência não é resistência, Rancière é pequeno ao lado de Marx, embora o primeiro seja mais lido na Universidade do que o segundo. Estamos divididos entre parasitas que vivem de rendas, juros, trabalho dos outros, e outros, a ampla maioria, que trabalha – Portugal neste campo é um triste cenário. Mas estamos também divididos entre quem resiste e actua e quem não faz nada a não ser passar horas com pena de si próprio – infelizmente há milhões de pessoas na condição de inércia social e que vivem na espectativa de que não podem fazer nada – a fronteira entre não saber e não querer é ténue. Quem não constrói uma estrada para os seus sonhos não pode estar outra coisa que não seja deprimido. O mundo está cheio de exemplos porém de pessoas com origens humildes que nos deram muito mais do que nós a eles, são milhares, milhões, de gente que assumiu nas mãos ser dirigente de um sector de resistência, operária, sindical, associativa, assumiu portanto conflitos e escolhas, um deles é o nosso querido Alípio Cristiano de Freitas. Não há medalha de mérito de tamanho suficiente para a sua vida. É uma das figuras mais nobres que habita neste nosso canto à beira mar. Hoje dá um documentário com a vida dele, às 21 e 30 na RTP 2. Chorei quando o vi, muito, e em público. E quando estou com o Alípio, com quem tenho divergências políticas, algumas delas grandes, e dele me despeço saio com a sensação que o mundo é um lugar que vale a pena.

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One thought on “Alípio de Freitas

  1. Deveríamos estar fartos de criar mártires, é vergonhoso o facto de delegarmos em alguém a responsabilidade da decência. O sofrimento heróico desta gente é frequentemente votado ao esquecimento. Eles próprios em alguma altura questionam o sentido das suas vidas e tal como nós não se sentem acompanhados. Admiro todos aqueles que não aceitam o mundo tal como ele nos é apresentado mas a contemplação do sofrimento tem sempre algo de inaceitável.

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