Bancos acima das nossas possibilidades

A boa nova que antecedeu a crise na forma de um incentivo desmesurado ao consumo de casa própria, elevando os seus preços para patamares irrealistas (ainda nos lembramos do tempo, como referiu Pedro Bingre do Amaral, em que uma casa custava o mesmo de um carro — nos sorteios de TV ganhava-se um ou outro), fora promovida diariamente nas televisões por políticos, comentadores e afins. Os incentivos fiscais ao abate para a compra de carros novos. Os estrangulamentos salariais substituídos por crédito fácil e barato. Todos eram afinal culpados pelo estado das contas públicas. As privatizações que delapidaram o património público, os benefícios fiscais às empresas, as PPP com as suas rendas fixas que garantiam uma correia de transmissão privilegiada do património público para alguns privados, a abstenção do Estado em taxar as mais-valias dos promotores imobiliários que, num passe de mágica e com uma ajudinha do poder local, ao conceder alvarás de urbanização a terrenos agrícolas, criavam um estrondoso ganho vindo do vento — 200 mil milhões (que circularam todos, com juros, pelos bancos, que inchavam à sombra deste modelo). Nada disso importa. Era a compra de casa própria — um bem de primeira necessidade — e não as mais-valias imobiliárias que tinha a culpa. Afinal, viver do trabalho (ganharás a vida com o suor do teu rosto) nunca foi um bom negócio.

Podia ter-se, por exemplo, financiado uma política habitacional através da Segurança Social, para proporcionar casa a todos a custos mais baixos? Financiado transportes públicos, uma rede ferroviária, em vez do carro individual e mais autoestradas? Financiado a agricultura em vez de distribuir subsídios para parar de produzir? Podia, mas não era a mesma coisa. As taxas de lucro seriam inferiores, embora o consumo interno e a qualidade de vida fossem superiores.

«Não havia alternativa», dizem os subscritores do «Memorando de entendimento», PS, PSD e CDS. Não havia alternativa para quem?»

Enquanto em 2008 o diretor de uma grande empresa alemã aconselhava os seus quadros a lerem O Capital de Karl Marx, as televisões de todo o mundo procuravam encontrar as causas da doença na febre. Insistindo que a maior crise do capitalismo do pós-guerra era um problema de homens maus ao leme de um sistema bom.

Primeiro a exploração colonial, depois a exploração neocolonial, depois a transformação da China na fábrica do mundo a produzir por 70 dólares por mês. De crise em crise, de miséria em barbárie, o capitalismo na sua fase descendente de modo de produção histórico, o capitalismo monopolista (2/3 dos trabalhadores do mundo que trabalham em PME trabalham de facto, como já referimos, em subsidiárias de grandes corporações) era agora salvo pelo Estado, ou seja, pelos cortes salariais, pelo aumento do desemprego e pela erosão do salário social. Começava a pauperização massiva dos setores médios na Europa desenvolvida e nos EUA, algo que na periferia do mundo já se conhecia há muito.

Sem os Bushs, Madoffs, Oliveiras e Costas e Salgados deste mundo, a economia mundial estaria a progredir? Não. Mas é evidente que o aumento exponencial da corrupção — uma lama que todos os dias abre novos buracos perante a estupefação dos milhões de pessoas honestas que vivem do seu trabalho — não é um lapso. Quanto mais a valorização dos capitais privados está dependente do Estado, maior é a corrupção. E mais se afastam do topo das empresas as pessoas honestas, restando um lamaçal de amoralidade e gestão quando as falências vêm à tona.

Excerto do meu livro Para Onde Vai Portugal? (Bertrand, 2015)

 

Advertisements

One thought on “Bancos acima das nossas possibilidades

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s