Imaginem que eu era Ministra dos Transportes

Imaginem que eu sou Ministra num país imaginário e tenho a responsabilidade – e o poder – sobre empresas de transportes, metropolitano, autocarros e comboios. E decido não pagar os investimentos em infra estruturas, apesar dos contribuintes me terem entregue dinheiro para esse fim, mas digo aos gestores públicos dessas empresas «vão financiar-se na Banca». Claro que tenho também uns amigos na Banca ou, bem, a Banca sou eu também, e quero ganhar dinheiro emprestando-o e recebendo juros, sem fazer nada. Nada, não é bem assim. De algum lado tem que vir o dinheiro para remunerar esses juros. Quando a dívida dessas empresas é impagável começo a dizer que o problema são os trabalhadores ganharem 1300 ou 1600 euros. E aí começo a cortar nos salários, aumentar o preço dos transportes e diminuir a frequência destes, e faço chegar aos media notícias inverosímeis sobre as «regalias» dos trabalhadores e que confundem massa salarial paga em espécie com privilégios. Todas as mercadorias ficam entretanto mais caras para o conjunto da sociedade, incluindo para as empresas porque transportar bens e pessoas fica mais caro, mais lento, mais difícil. Assim já tenho dinheiro para esses investimentos mas também para pagar o extra, o lucro da Banca.

Não há, alegadamente, nenhuma relação entre esta história inventada, num país que não existe, e a situação da Carris, Metro e CP. Até porque em Portugal políticos e sector Bancário não se misturam – a cada um o seu lugar. Em Portugal a história é completamente diferente. Em 2009 o Governo Sócrates diminui o valor que entregava às empresas. O Tribunal de Contas publicou um relatório, público, arrasador, onde dizia que as empresas não podiam continuar com esse valor baixíssimo de capitais públicos e investimento e a ir cada vez mais ao sector financeiro encontrar dinheiro, até porque ia sair mais caro já que na Banca paga-se não só o investimento mas o juro, que por sua vez vai ser dividido em remuneração dos seus accionistas – os mesmos quem em 2008 faliram a nível mundial numa crise que classificaram como de «todos nós». O salário hoje dos trabalhadores CP, por exemplo, não representa mais de 130 milhões de euros mas a dívida desta são 4,1 mil milhões. 93% das receitas da CP são hoje para remunerar a Banca. O Metro passa a cada 6 minutos e não 3, como antes, e a pressão sobre os trabalhadores é permanente. Na Carris conduz-se 15 horas por dia em alguns turnos/casos – é até caírem para o lado em esgotamento. Há ainda o caso dos portos, que eram públicos e foram subconcessionados, e onde os estivadores chegam a fazer 80 a 100 horas semanais para garantir a renda fixa da subconcessão privada de uma área pública. Um país a andar, a passo acelerado, rumo ao abismo.

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6 thoughts on “Imaginem que eu era Ministra dos Transportes

  1. É tão triste que tanta gente não queira ver a verdade,que é grotesca, e se deixe manipular, cultivando apenas a inveja mesquinha. Obrigada, Raquel, por ser incansável na sua luta pela verdade.

  2. Esta classe politica que temos depois do 25 novembro é corrupta utilizam o estado para servir os interesses privados, neglijando totalmente as verdadeiras razões pelo qual foram elegidos e por quem (povo) os elegeu, os interesses destes vigários é expuliárem os contibuintes ao máximo para seu proveito e dos seus amigos que subsidiam aos anos as sedes ostentivas de riqueza, de certeza que não são os filiados nesses mesmos partidos que pagam as cotas, claro que não! são senhores como Ricardo Salgado que pagam essas mordomias senão porque é que o Banco que Ele fazia parte da direcção não deixou simplesmente de existir,porque é que os contribuintes continuam a ter que pagar por uma empresa mais que falida? Muito simples a resposta, se isso tivesse acontecido vinha-se a saber de muitas luvas pagas pelo mesmo grupo para abafarem os podres da vida de alguns dos partidos que fizeram parte do arco governativo estas últimas décadas no nosso Portugal.

  3. Pingback: Imaginem que eu era Ministra dos Transportes | Raquel Varela(contra a intoxicação dos media e a mentira) | AICL Colóquios da Lusofonia

  4. Não percebo este post. Começa por clarificar o leitor de forma bastante convincente de que o Estado accionista é um péssimo gestor, sujeito a procura de renda, à pressão dos interesses pessoais e de grupos de interesse, à corrupção e à burocratização, com pesados custos para o cidadão utilizador e contribuinte. No final, não apresenta qualquer indicio do que faria enquanto ministra para resolver ou minorar o problema, como ainda manda farpas à concessão a privados da exploração de serviços “públicos”.

    Defende a manutenção dos “direitos” de determinados lobbies como o dos estivadores, que querem continuar a poder decidir quem pode ou não mexer sequer uma palha nos portos, ao preço que eles quiserem?

    Se eu como cidadão quiser constituir uma empresa, contratar e/ou formar estivadores para desempenhar trabalhos portuários por que motivo não o poderei fazer, respeitando as normas em vigor e pagando o que muito bem entender desde que alguém aceite trabalhar para mim?

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