Bomba Relógio na Escola

O debate sobre a educação divide-nos, há realmente visões muito diferentes do mundo. Tenho os meus filhos na escola pública. Fizeram exames na 4ª classe – não são mais ou menos infelizes por isso. Mas das 7 professoras que tiveram 5 delas davam erros graves de português e desconheciam o ensino elementar da matemática – os meus filhos sabem matemática hoje, com boas notas, porque o avô engenheiro se dedicou a ensinar-lhes. A este fenómeno não se chama escola mas reprodução social, ou seja, filho de sapateiro sapateiro será filho de engenheiro engenheiro será. A escola devia ser para reverter isto e dar acesso ao saber a todos – hoje isso está colocado em causa. Chegámos ao ponto inenarrável das crianças estarem 8 horas na escola e mesmo assim precisam de trabalhos de casa, ajuda dos pais exaustos, aulas de apoio e explicações, academias e ATLs de estudo – não respiram, não brincam e mesmo assim não aprendem mínimos. Os dados internacionais de Portugal são inaceitáveis – mais de 50% de negativas a matemática e português – um absurdo, que obviamente tem múltiplas causas mas o problema «não está em casa» porque em casa ninguém tem que ensinar matemática ou português ou fazer trabalhos de casa. Como é que se está 8 horas na escola e se necessita de mais tempo de estudo é uma pergunta sem resposta razoável. Na verdade a escola portuguesa espelha o método de países onde predomina a mais valia absoluta – não se trabalha pelo saber, racionalização , salários bons mas pela exaustão – não fez em 6 faz em 8, não fez em 8 faz em 10! É a baixa produtividade aplicada ao vivo nos nossos filhos – como não aprendem com quem sabe bem e tem boas condições em 5 horas, ficam em frente dos livros mais 5. Chama-se a isto destruição de riqueza e perda de produtividade, com o custo da infelicidade real das crianças que não brincam as horas que deviam e precisam.

O problema tem muitas causas e duas delas são interdependentes: as condições laborais dos professores e o saber científico. Sem se resolver a questão das condições laborais não se vai resolver nada. Mas o mesmo se passa com o saber – quem ensina tem que saber ou então está a reproduzir uma sociedade classista em que quem frequenta colégios de 1500 euros (não os de 500) tem domínio sobre o saber e quem não os frequenta fica expropriado, empobrecido, entretido com um ensino rebaixado à sua «condição social». A escola é segregada não só por bairros mas pela qualidade científica dos professores. Uma das origens dos problemas destes resultados medíocres está nas Universidades, e a nós académicos ficar-nos-ia bem sermos menos corporativos. As universidades têm cursos que são há muito insuficientes para formar com qualidade os professores – nos corredores todos assumem a questão, em público fala-se da excelência e de rankings, que crescem à medida que aumenta a ignorância dos nossos alunos, pelos quais somos co-responsáveis. Bolonha, ausência de renovação do corpo docente, corte entre via de ensino e via educacional (ideia de Cavaco Silva Ministro que o PS abraçou), transformação dos professores universitários em investigadores a 100% que não centram a sua carreira na formação de alunos (futuros professores) mas na disputa de financiamento de projectos, etc. Nas escolas as turmas gigantes impedem um acompanhamento individual, há professores exaustos, em burn out, esgotados física e moralmente. São mal pagos em todos os níveis, a começar pelos da primária e a acabar na precarização dos professores universitários; a burocracia é asfixiante. O que surpreende é que com tudo isto alguma coisa ainda funcione, ainda que mal. E o que funciona, insuficiente, é graças aos professores porque as políticas ministeriais são um carro desgovernado a descer a montanha sem travões. O relatório do UBS publicou a comparação dos salários no mundo. Nos países ricos a diferença entre o salário de um engenheiro e um professor primário é de 6 para 7 e num país periférico é de 8 para 30.

A direita resolve esta bomba relógio atirando-a para longe: com exames e chumbos e coloca os jovens nos currículos alternativos onde aprendem a ser futuros barman e caixa de supermercado. Uma parte da esquerda, incapaz de uma visão exigente do mundo, resolve ocultando a bomba, anulando as avaliações, os diagnósticos, ou diminuindo a sua importância. Como um médico meu amigo que teve um enfarte depois de análises aos triglicéridos estarem com os valores duplicados – reagiu deixando de fazer análises.

O debate não termina aqui, vamos precisar de muito estudo sério e mudanças de fundo para reverter a situação, na verdade mobilização social sem a qual não vai haver nada a não ser pensos rápidos. Mas para começar a desarmadilhar a bomba estas duas premissas são inamovíveis: condições laborais protegidas e saber científico. Há mais, muito mais. Mas sem isto não começaremos sequer a discussão.

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7 thoughts on “Bomba Relógio na Escola

  1. Concordo numa forma global com o artigo.

    Já que os portugueses gostam muito de imitar as forças internacionais nas privatizações porquê que esquecem-se de tirar bons exemplos no que se faz de melhor no ensino lá fora. Na Filândia por exemplo…

    Frequento a alguns anos de uma forma pró-activa as bibliotecas municipais. Notei, ao longo dos anos, que estão a fazer um melhor serviço publico que em 2010, por exemplo.

    Oferecem um enorme conteúdo, desde acesso à internet com computadores ou o simples acesso á sua rede sem grandes restrissões e bem rápida. Livros actuais e de referência de muitas máterias, até acho curiosso terem o cuidado de ter livros ligados com o que se produz no concelho, enfim… temos jornais, revistas, filmes, musica, etc. E as bibliotecas (pelo menos aquelas que frequento) fecham ás 20h e estão abertas ao sábado de manhã. É excelente.

    Só que ainda não chega. Insisto sempre neste ponto, as bibliotecas têm de fechar mais tarde. E deviam em termos de espaço acompanhar o volume de visitantes, muitas vezes é impossível encontrar uma cadeira disponivel e nem uma ficha por perto.

    Sou um grande crente do hábito que se deve desenvolver nestes espaços como forma de criar espirito de entre-ajuda, mudança de hábitos, etc…

    O modelo de ensino do nosso País não funciona. Pelo menos o ensino publico que é aquele que fui educado. Tive muita sorte nas escolas que frequentei mas tenho consciencia que hoje pago a fatura (…)

    Aqui a uns dias atrás fui a uma apresentação do IEFP inserido do programa da Garantia Jovem, o “conselheiro profissional” disse para uma plateia de jovens que naquela sala deviam estar 75 e de tarde e amanha de manha vêm pelo menos em cada uma dessas partes mais 75 jovens. Segundo ele, na sua base de dados do excel nem metade dos jovens foram convocados porque entendeu que não se adequavam para aquela proposta de formação modular.

    Vivo no centro de Portugal, não é uma grande cidade e aquele IEFP não abrange muito território. São mais de 300 jovens entre os 18 e os 29 anos que estão sem futuro. Acredito que assim como eu eles devem estar pelo menos à 2 anos sem trabalho duradouro. Talvez eu seja um surtudo porque aqui e ali vou encontrado um trabalho precário, talvez muitos destes jovens nunca tiveram uma oportunidade. Eu sei que este é o futuro, sei que não vamos ficar por aqui no desemprego jovem descontrolado. Sei que para uma grande parte vão incotir-lhes que lhes falta “qualidades profissionais”. Até parece que é necessário ser o melhor para ter direito ao trabalho. Isso adquire-se com a prática e com formação continua.

    O “conselheiro profissional” disse no fim do encontro “agora que ouviram as condições para ingressarem nesta formação vou chamar um a um e só me dissem sim ou não”

    Então as condições são 1,13 euros por hora numa carga horária de 300 h. Subsidio alimentação e pouco mais.

    Uma colega da sala antes de dizer não, como resposta, disse “eu gostava mas com o que vocês oferecem (a nível monetário) não tenho condições para ir porque sou de longe…”

    Ele disse “não quero saber as razões, os porquês” e depois fez uma piadola.

    Coitado, do que percebi ele só cumpre ordens.

    Mesmo estas iniciativas de formações são insuficientes a nível de verbas disponíveis para os alunos. E ao contrário do que o senhor disse “que temos de aceitar as regras” na verdade podemos e devemos protesta-las. Afinal elas excluem-nos. Um valor que no total não pode ultrapassar os 300€ mensais a contar com deslocações com o custo de vida de hoje é inaceitável. Temos de ter em conta que havia jovens com filhos nas cresces e sem apoios sociais.

    Podemos ter o melhor ensino a nível técico, se faltar a parte humana e se faltar a parte critica nada se conquista. Por isso, insisto que as ciências humanas e sociais devem fazer parte de todos os palnos curriculares inclusive as engenharias e indo também para as universidades de contabilidade e de gestão esses deviam de ter carragas de ética e muita história e sociologia afinal eles são muito responsáveis pelo emprego precário.

    Falta tudo isso que a Raquel disse só que também falta um estado interessado. E se for ver os governos não estão muito interessados na educação. Ela não tem efeitos imediatos. Se eu disser em plena campanhã eleitoral “aumentei o ordenádo minimo em 30€ e construi pontes, estradas e edificios” tem mais impacto. Posso dizer que estou a estimilar a ecónomia. Se eu disser que investi 100000 milhões a mais no ensino (em professores, alunos e pais). Os jornais e a tvi noticiam “governo de X gastou xxx para pagar ordenados”. O ensino é um investimento que não se vê agora nem amanhã, só daqui a 15 anos ou mais. Então, a Raquel não vai conseguir convencer nenhum politico a investir no ensino por essas e outras razões. Mas pode consciencializa-los e a longo prazo isto pode mudar.

    Uma autarquia no Brasil escreveu num outdoor “Curitiba não tem dinheiro sobrando mas vai investir 30% do seu orçamento em educação mesmo assim. Uma cidade humana tem prioridades humanas”.

    Será que um dia vamos ter uma educação séria e que gere oportunidades e individuos criticos?

    Não se trata só nas escolas. Os apoios sociais e os espaços de estudo são muito importantes. Quando era jovem era impossível estudar em casa. Se nessa altura a biblioteca da minha cidade fosse conhecida e se tivesse aberta até ás 19h e se tivesse transportes para casa eu hoje podia estar a escrever o próximo livro com a raquel quem sabe…

    É verdade que a escola leva os alunos à exaustão. Só que não podemos ficar só por ai. Não chega. Tem de ser criadas mais condições e algumas delas externas ás escolas como as bibliotecas que são de enorme importância.

  2. A escola não pode ser o motivo para ascensão social, alias, só numa sociedade desigual e desnecessária é que se deve falar em “ascensão social”, acreditar que o conhecimento eleva, é um erro. É desejável uma sociedade cada vez mais produtiva mas para sermos sérios temos que tomar a palavra “produtividade” em toda a sua extensão, o que não é o que normalmente acontece.
    Precisamos de uma sociedade subversiva capaz de responder aos nossos anseios e não de grupos sociais com profecias que se auto realizam.

    • Profetas? Profetas são as empresas como a endesa que contratam micro-empresas para formar jovens a custo zero e os levar a ser produtivos porta a porta sem nenhumas condições e direitos de trabalho. Produtividade é o marketing macabro que eles e muitas outras empresas utilizam (importado da america) para criar a ilução de sucesso e dinheiro fácil.

      Ninguém saberá se defender se não tiver consciencia dos perigos e isso só os “profetas” como chamou bem aos professores, são capazes. E digo-lhe mais, muitos destes jovens, um dia homens, serão levados em erro, fora da ética e da moral porque lhes falta entender o que você defende que eles não entendam em vez disso produzam.

      Quem se auto realiza são homens solitários no seu monopolio com vidas superficiais que nenhuma mulher inteligente tem interesse. Os profetas são felizes porque têm ferramentas que os ajudam a entender o sentido da vida em sociedade.

      • Eu não defendo que as pessoas sejam instrumentalizadas, o que me estava a referir era à concepção de que a escolarização por si só resolve os problemas, olhe para a nossa sociedade, nunca em tempo algum houve tanta gente escolarizada neste país e veja o que está à frente dos seus olhos, um país cada vez mais desigual, um mundo cada vez mais injusto. Pense nos melhores alunos deste país ou nas pessoas que ocupam os lugares de topo, dificilmente irá ver arautos da ética e do comprometimento com o outro.

  3. Sinceramente não concordo com muita coisa do que aqui é dito sem provas, de forma muito pouco clara. Se compararmos vários domínios, estamos acima de países como a França, a Inglaterra ou a Alemanha (leitura, literacia, por exemplo). Muito pouco provado estas opiniões. Os colégios caros/elitistas atingem melhores resultados, porque os alunos são oriundos de classes mais cultas, ricas, dispondo de um conjunto ilimitado de informações, que a maior parte dos alunos não tem. Os colégios privados são aqueles que mais inflacionam as notas. São opiniões. Tb concordo que fazer ou não fazer exames em nada contribui para a felicidade.

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