Greve na Linha Amarela

 N’ O Último Apaga a Luz (RTP 3) defendi a importância da greve dos maquinistas do Metro. O tema foi polémico porque, entre outras razões, os maquinistas estavam contra serem obrigados a conduzir em linhas diferentes – de acordo com o Acordo de Empresa os da linha amarela conduzem aí, e os da vermelha na vermelha. Houve debate, animado. Há greves erradas, é um facto. Não é o caso desta. Uma pequena viagem de 10 minutos e deixo os meus argumentos.

Há greves que têm o efeito de desmobilizar os trabalhadores porque são convocadas por direcções burocratizadas, ao sabor de escolhas das direcções políticas, sem ouvir os trabalhadores. Há dirigentes sindicais que não trabalham na profissão há 20 anos, duas décadas! Há até greves que são convocadas (em Portugal!) – estudamos esses casos – por comissões de trabalhadores em acordo com os patrões para, por exemplo, pressionar o Estado para atribuir mais subsídios a essa empresa; são uma espécie de greve e lock-out ao mesmo tempo; há greves gerais convocadas sem qualquer debate de fundo com a base e isso contribui para a desmobilização e crescente crise sindical. Também é um facto que a comunicação dos sindicatos com a população é deficiente: não têm, na sua maioria, gabinetes de comunicação, e não informam, com jornais próprios, quem sabe uma rádio, ninguém das suas decisões. Longe vão os tempos da I República em que chegou a haver mais de 100 jornais operários e em que A Batalha, órgão da Confederação Geral do Trabalho, era o segundo jornal mais lido (apesar das constantes perseguições). Agora são uns comunicados, quando os há, ininteligíveis, escritos em sindicalês, com siglas e decretos-leis. E também é verdade que nunca colocam nas reivindicações as questões da vida das populações – preço dos bilhetes, transportes gratuitos (pagos já com impostos), por exemplo. As suas questões corporativas são legítimas, é absolutamente legítimo lutar por condições de trabalho dignas de um sector, mas se não se faz a ponte com a população fica-se isolado de forma crescente. A população que vira as costas à greve e não compreende o seu alcance acaba por sofrer no longo prazo os efeitos da derrota da greve, muito mais permanentes do que os efeitos de um dia de greve (veja-se os preços do passe social, que em alguns casos chegam aos 130 euros, 25% do salário mínimo!).

No caso, a greve do Metro é convocada num contexto específico. Desde 2009 que o Tribunal de Contas tornou público que a decisão do governo Sócrates de diminuir o pagamento do Estado aos transportes públicos levaria o Metro e a Carris a depender da banca. Para pagar esse empréstimo, injustificado – porque ao Estado foram entregues impostos para pagar os transportes públicos – os preços dos transportes dispararam, as carruagens e autocarros diminuíram, os trabalhadores chegam, na Carris, a fazer 15 horas de trabalho e estão, no Metro e na Carris, permanentemente pressionados, com medidas que incluem mudança de equipas (pessoas que trabalhavam bem há 20 anos foram afastadas umas das outras sem qualquer razão de produtividade), encerramento de zonas de atendimento (não se consegue ver já ninguém nas estações para auxiliar utentes); há mais máquinas de café do que de bilhetes. Por isso parar a subconcessão é vital mas apenas uma gota de água porque hoje, mantendo-se públicos, Metro e Carris estão a prestar um serviço privado (remuneração da banca) com consequências penosas para trabalhadores e utentes. Havia agora a intenção de fazer os maquinistas não terem qualquer controlo sobre a marcação de férias e serem obrigados a conduzir noutra linha, podendo ter de largar o serviço noite dentro e bem longe de casa. A greve tinha portanto múltiplos motivos. Perante a ameaça de greve o PS prometeu esta semana recuar. Erra quem pensa que o movimento sindical é um atrelado de qualquer partido, seja ele de que lado for – o movimento sindical tem que fazer as suas reivindicações, independentemente de quem Governa – isso é elementar e só o desconhecimento da história do sindicalismo podia pressupor que seria ao contrário. Os direitos sociais e laborais, e democráticos, como o direito à greve, devem ser uma exigência permanente, que não pode estar dependente das promessas por cumprir do governo de turno ou do número de apoiantes que o sindicato tem no partido a ou b – essa aliás tem sido a receita para a crise dos sindicatos que os coloca hoje, nalguns sectores, em risco de desaparecer (taxas de sindicalismo reais de menos de 8% no sector privado e não mais de 15% no público, ambas as taxas inflaccionadas).

Depois de um turno de trabalho a transportar milhares de passageiros de um lado para o outro, um trabalhador que mora, por exemplo, na Amadora e aí comprou casa a contar com as regras que existiam na empresa, pode passar a ver-se obrigado a pegar ao serviço às 5 da manhã ou a largá-lo às 2 da manhã noutra ponta da cidade, por exemplo em Chelas. E que se amanhe, porque nem sequer pode apanhar o Metro que andou a conduzir todo o dia para regressar a casa. De um momento para o outro, a sua jornada de trabalho vê-se aumentada em uma hora ou mais, além da despesa, sem nenhuma compensação. E isto serve para quê? Para melhorar o serviço? Ou será só para massacrar o trabalhador?
Porque não pode o maquinista do metro acabar de trabalhar e ir a pé para casa a cantarolar, e beber um bagaço na tasca da esquina? Ou um Vintage no bar mais próximo da estação?

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5 thoughts on “Greve na Linha Amarela

  1. Um assunto que não tem muito a ver com este mas se tocaram no futuro:

    Existem organizações estrangeiras que estão a perparar o que será o nosso futuro. Cranios que dominam a programação andam a desenvolver softwares e ferramentas digitais para substituir motoristas. Num futuro não muito longinquo vamos assistir combios “pilotados” por softwares complexos, autocarros pilotados por softwares complexos e os nossos proprios veiculos pilotados por estes mesmos softwares complexos. Não estou a dar nenhuma novidade e portanto vamos ao ponto que quero tocar:

    Na Assembleia da Republica por mais de 2 tentativas de votar através de um software que os senhores deputados ao clicar no botão daria a sua intenção de voto por duas vezes esse software falhou. Raquel eles mentiram. Não falhou coisa nenhuma. Se falhou devem ter comprado o equipamento pior do mercado. Mentiram e vão continuar a mentir e ainda bem que o fazem. O equipamento pode falhar 1x por nabisse do tecnico mas a segunda não falha. Eles não querem que a tecnologia ocupe 1 milimetro dos seus lugares. Lembro-lhe daquela antiga estória daquele inventor famoso que criou uma máquina de votos para os votos serem contados mais rapidamente e apresentou-a a um politico.

    O politico riu muito e disse uma coisa do genero “A politica vive de contar voto a voto”… Se não disse assim eu perfiro esta versão que sou eu que estou a contar a história, bem… Na assembleia eles fizeram exatamente a mesma coisa e o presidente da assembleia ainda deu uma risada. E é assim que tem de ser. Quando a tecnologia ocupar o nosso lugar a democracia termina. Nunca confie numa máquina para decidir questões politicas.

    Num futuro não muito longinquo vamos ter softwares a desempenhar o trabalho de pessoas. Lutar contra a tecnologia é perder à partida a guerra. Não tem como porque a tecnologia é também uma ferramenta poderosa de democracia. Ela aproxima as pessoas.

    Essas alterações vão ser implementadas aos poucos e com fortes investimentos para presuadir a opinião publica. É natural. Vão haver acidentes, claro. É natural. São formas de organizações recentes que vão precisar sempre de ser melhoradas (eu disse sempre?). Pois disse. Porque vão ser criados novos postos de trabalho. As pessoas que até agora era o senhor zé das máquinas vai ser substituido pelo engenheiro paulo que terá um dominio maior que o senhor josé. O engenheiro paulo além de monitorizar os novos sistemas informatizados ainda trabalha com uma equipa bem maior e também qualificada. E o mais interessante é que o engenheiro paulo será sindicalizado e não será tão amistoso como o senhor josé. Mas para isso é preciso que exista mais raqueles nas universidades de engenharias. É preciso que as ciencias sociais não sejam consideradas coisas de pessoas ligadas ás letras. E é isso que tem de ser feito também na educação. O ensino obrigatório não chega. O mundo não pára, ou como diz o novo acordo “para”.

    Eu sei que a tecnologia vai mudar a forma como estamos organizados e vai numa primeira fase por muitas pessoas de fora como acontece agora. Penso que irá agravar ainda mais. Então vamos pensar no seguinte, claro lutem pelos vossos direitos eu estou do vosso lado porque também sou igual a vós. Mas, a luta de amanhã será mais violenta. Se não começarmos a exigir mais formação a esses profissionais, que a Raquel fala no artigo, eles ficam pelo caminho.

    E os jovens de hoje a mesma coisa. Não se pense que nós saimos das escolas preparados. É falso! As escolas numa forma geral e desconsiderando as ciencias sociais, não preparam o individuo para a sociedade. Dão algumas ferramentas, uma pá e um saco de cama. E isso hoje não chega porque as pessoas não cavam mais, elas usam máquinas e programam-nas.

    Estou cansado de ver nos media falarem sempre a mesma coisa sobre os trabalhadores. Como se eles fossem inferiores. Como se eles tivessem a pedir esmola. Os profissionais de amanhã serão mais fortes mas para isso é preciso começar hoje a trabalhar os jovens nas escolas.

    Quando surgir o novo mundo vai ser um desastre. Só não será total se trabalharmos na prevenção. Como disse muitas pessoas vão ficar de fora, o desemprego vai aumentar muito mais. Não estou a fazer futurologia eu leio alguma coisa e tenho as minhas convicções. Só falta saber se o estado vai investir nesse novo mundo no desemprego prolongado ou se por outro lado termina ele oferecendo aos cidadãos uma formação continua e especializada com a devida remunaração. Isto é, o mercado de trabalho está saturado de engenheiros informáticos, o estado paga para o eng. paulo estudar uma especialização que o mercado necessita e depois o integra no mercado de trabalho. Olha passados 3 anos o paulo está novamente desempregado… não está porque o desemprego deixou de existir, o eng. paulo volta para a universidade e tira outra especialidade. As empresas pagam impostos (a nível europeu) para estas universidades e centros de investigação impulsionarem os seus negócios. Já não pagam impostos por trabalhador mas sim relacionado com a quantidade e a qualidade a nível social que tem os seus produtos ou serviços eu sei lá mais o quê… o que acredito é que este é um caminho. Se não se começar a discutir isto não será. E nessa altura iremos estar a falar novamente de mais greves e de guerra civil.

    Penso que a maior discusão que devemos ter hoje é o que ainda não aconteceu. Parece absurdo mas não é… tem de ser tocado com muita ponderação. Não vai ser minimamente aceite pelos media porque eles vivem no “agora”. Há muito trabalho a fazer e o que me preocupa realmente é isto. O ambiente, a educação e o emprego de amanhã. Vamos ter um toque gigante do novo mundo quando os oculos da google conseguirem chegar ao mercado. Vai ser uma explosão. Nada boa. Esses homens da greve estão a lutar mal. Só estão a pensar no “agora”. Amanhã quando o projeto de autonomia nas linhas através de softwares estiver pronto vocês cairam sem misericórdia…

  2. O texto está muito bom. Tudo verdade. Apenas um reparo.
    Num universo de cerca de 240 maquinistas, creio que a maioria passa anos sem tocar em bagaço.
    Na minha opinião pessoal, achei este comentário infeliz. Dá a ideia errada que os maquinistas são pessoal de taberna. Nada mais errado. Quando saem às duas da manhã, apenas pensam numa coisa. Dormir.

  3. A greve é arma de quem ainda pode lutar, e no actual contexto não é estranho que seja vista como um privilégio, os interesses que motivam a adesão à mesma são vincadamente individuais, quão mais bonito seria imaginarmos uma “greve” num sector capaz de abalar o país em nome exclusivamente de um interesse que não toca a corporação que exerce esse instrumento, penso que o efeito dessa acção seria avassalador, construímos uma sociedade em que ninguém parece confiável e um desígnio maior não se compadece com a pobreza das nossas relações. Esta sociedade não é um produto da nossa intelectualidade, é sim um estranho constrangimento.

    • Não me intimida com os seus julgamentos. Os erros corrigem-se a falta de vergonha na cara não. Obviamente que não é o seu caso, estou a falar das pessoas que usam mil desculpa para intimidar o debate publico. Se leu até ao “eu prefiro” já leu o bastante para entender alguma coisa do meu ponto de vista.

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