A greve e o caos. Por Raquel Varela para Revista Mais Alentejo

Nas suas Memórias de um Operário o sapateiro José Silva conta como, durante a República, os sapateiros organizaram uma greve. Era ele trabalhador ao domicílio. Um dirigente vai ter com ele e convence-o da greve; preparam um número de homens para fazer piquetes e ameaçar os fura-greves; preparam um fundo de greve para que operários com mais filhos pudessem aguentar. E partem para a greve. No fim vencem, com aumentos de salários para todos, incluindo para os que desejariam ter furado a greve.

O sindicalismo em Portugal tem de voltar a refletir sobre a forma como se organizam os trabalhadores, quem são os trabalhadores (metade são precários e desempregados), qual a relação com os movimentos sociais, até onde é possível a gestão do pacto social. As organizações sindicais não podem ser estruturas antidemocráticas, porque perdem a legitimidade para negociar seja o que for. As organizações de trabalhadores têm de regressar ao seu papel no que diz respeito à luta por emprego e aumentos salariais, em vez de lutar pelo subsídio de desemprego e reformas antecipadas ou indemnizações.

Aceitar os despedimentos — sob a capa das reformas antecipadas, subsídios de desemprego ou rendimento mínimo — não é um destino fatal. É verdade que os trabalhadores sofrem em geral uma sensação de desânimo, porque acham a tarefa de pôr fim a este gigantesco saco azul em que se transformou o Estado quase impossível. Mas é uma falsa sensação.

Vivemos numa economia just in time. É possível parar um setor-chave — por exemplo, os maquinistas do Metro ou de outro setor — se os outros trabalhadores do País constituírem um fundo de greve coletivo que reverta para quem entra em greve e enfrenta, em nome de todos, o poder patronal. Cada um iria contribuir muito pouco para um fundo de greve colectivo. Por exemplo, os enfermeiros podem parar somente num setor hospitalar — o que recebe os doentes no setor informático — e, ao mesmo tempo, fazer um fundo de greve para pagar aos trabalhadores desse setor.

Há uma pergunta que se pode colocar: se o País ficar parado, o Governo cede ou vai ser o caos? Quem faz andar as carruagens do Metro são os maquinistas, não o Governo. É preciso também lembrar que um hospital funciona sem ministros e gestores, mas não funciona sem médicos; um porto não funciona sem estivadores e funciona sem gestores portuários. Uma cadeia produtiva complexa precisa de vários tipos de trabalhadores, incluindo daqueles que organizam o trabalho, e de uma organização racional e produtiva correta, mas não precisa de uma hierarquia vertical — aliás, em Portugal nunca nada funcionou tão mal, de uma empresa-monopólio a um simples hospital, como desde que foram introduzidos os gestores profissionais — especializados normalmente em despedir pessoas (as mais velhas, que ganhavam mais) num espaço de 18 ou 24 meses, aumentar assim a rentabilidade da empresa (“sanear as contas”), e descobrir pouco depois que mandaram embora os melhores trabalhadores, os que ficaram ganham mal e produzem mal, e logo a seguir a empresa — algumas delas gigantes — vão à falência ou são desmanteladas. Surpreendente? Não, absolutamente previsível. É espectável que os trabalhadores que hoje assumissem a gestão direta das empresas — das que fazem despedimentos ou encerram, por exemplo — levassem algum tempo a saber o que fazer, a conseguir capitais por via do Estado, como em 1975. Estado que teria de reduzir o pagamento de rendas fixas ou, como em 1975, mobilizar capitais para a produção por via das nacionalizações. Há um óbvio grau de especialização da gestão da produção, mas ele pode ser democraticamente exercido por um conselho ou comissão eleitos depois de ouvidos os trabalhadores em plenários, comissão essa revogável caso tome decisões contrárias à vontade da maioria. É certo que pior do que tem sido feito é praticamente impossível. Absurdo não é pensar que os trabalhadores podem ter uma palavra no seu lugar de trabalho, absurdo é achar que um hospital pode ser gerido sem ouvir e dar capacidade de decisão a médicos e enfermeiros!

Publicada na Revista Mais Alentejo, Novembro-Dezembro de 2015

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