Entrevista

Raquel Varela

Raquel Varela é historiadora e professora. Publicou 15 livros em 10 anos, a maioria sobre a revolução portuguesa de 1974-75 e sobre trabalho, Estado Social e Segurança Social. Coordena, entre outros, um projecto mundial de estudo do trabalho na indústria naval, da Argentina à Coreia. Tem 36 anos.

 

“Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, de Jorge de Sena: “Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós”. O que deseja para os seus filhos, para o país, no novo ciclo que se anuncia?

Que eles vivam num mundo em que a igualdade, fraternidade e liberdade não sejam palavras pronunciadas por poderes que as estrangulam. Que eles saibam lutar com compromisso e com coragem por um mundo assim. Porque não há nenhum direito “adquirido”: foram todos conquistados.

 

Acredita deveras que será um novo ciclo? Parecemos exauridos. Como encontrar/alimentar a garra dos dias inaugurais?

A sociedade europeia não olha para o que se passa na economia como palco de um conflito social mas ainda como um acordo, o que nasceu do pós-guerra, que implicava subida de lucros e salários. Hoje isso é impossível: ou sobem uns ou outros. Sem resistência social organizada não vai haver nada a não ser mais declínio da vida das pessoas comuns e do país.

Não é necessário ser revolucionário ou ter um conhecimento complexo da produção da sociedade, basta ter bom senso e honestidade para ver a anarquia da produção em que vivemos. Em 2008 ruiu a ideia do capitalismo regulado, como diz um colega britânico.

 

Foi uma fractura, a seu ver. Marca um antes e um depois, a crise de 2008.

Sim. Descobriram os mais ingénuos que não há um vampiro vegetariano. Caótico, desperdiça recursos – o que significa formar um médico durante 14 anos e depois convidá-lo a que emigre? Estamos com medidas da pobreza semelhantes às da Idade Média, quando a enxada era o meio de produção privilegiado?

A população, de forma unânime, acha indecente não haver um Estado Social. Em toda a Europa, até os conservadores são obrigados a defender em palavras o Estado Social. A maioria da população sente o desemprego, a asfixia fiscal, as “papeletas da ladroeira” como se dizia na revolta da Maria da Fonte. Sente um Estado que suga impostos e não devolve quase nada. Brinco dizendo que quando houver uma revolução, a população não irá para a sede da polícia política, como é comum nas revoluções, mas para as Finanças!

 

Assistimos à erupção de casos de violência no país. Vizinhos desavindos, maridos a matar mulheres, pessoas a perder a paciência. Muita gente pobre. No fio – como se dizia – de um tecido puído.

Não sei se a violência aumentou ou não. As estatísticas e a comunicação social não dão conta da realidade e da complexidade da violência. Mas bateu-se no fundo? Ainda não! Ainda há pais a suportar o desemprego dos filhos, há emigração, que expulsa população e serve parar retirar pressão da panela. Muitos descontentes saem do país e mandam divisas. E há programas assistencialistas que evitam as filas da sopa dos pobres. Mas tudo isto é muito frágil e está atingir os seus limites.

 

Vai rebentar? Que rebentamento? 

As sociedades mudam por reformas ou revoluções. Nas sociedades agrárias, muito atrasadas, a miséria não tem automaticamente uma tradução em processos revolucionários. Isso é, a meu ver, impossível em sociedades urbanas, proletarizadas (no sentido em que as pessoas vivem de vender a sua força de trabalho, seja um professor ou um estivador), escolarizadas, onde as expectativas são mais altas.

 

Pode explicitar o seu ponto de vista?

O comum das pessoas não acha que ser pobre é uma fatalidade, e que a economia é uma entidade sagrada. Compreendem, mesmo que não consigam explicá-lo de forma complexa, que se há taxas de remuneração de parcerias público-privadas de 14%, e 25% de desempregados, não é porque “não há dinheiro” mas porque a massa salarial voa de um lado (trabalho e pequenas empresas) para o outro (algumas empresas protegidas pelo Estado).

O fenómeno da burocratização e da corrupção são formas de um processo geral de declínio, em que é impossível explicar a uma criança de 10 anos porque há pessoas a dormir na rua e 700 mil casas vazias em fundos imobiliários, que nem impostos pagam.

 

Quais deveriam ser, na sua opinião, os grandes temas em discussão nesta campanha?

O pleno emprego e a moratória sobre a dívida pública. A dívida não pode ser alocada a quem vive do salário; ela deve ser suspensa, fazer-se uma auditoria. Não suspender a dívida – na verdade, um negócio, uma renda fixa – é suspender a justiça social. Sem pleno emprego não há produção correcta no país (a produtividade irá cair porque as pessoas estão exaustas e ganham mal), não há sustentabilidade do Estado Social e das pensões. Se era possível em 1975 por que não é hoje, que temos muito maior evolução tecnológica e científica?

 

Como é que Portugal pode ser mais competitivo, crescer mais, acumular mais capital? O mais provável é que não haja resposta para isto. Mas isso é aceitar que somos um país que «não se governa nem se deixa governar», como disse um general romano dos Lusitanos. Que emenda?

Há uma armadilha séria: defender mais investimento público é indiferente, hoje, se não questionarmos o que produzimos, para quem e como. O que é do Estado não é necessariamente público. Defendemos investimento público na saúde pública ou investimento público na transferência do SNS para a saúde privada por via da ADSE? Investimento em abstracto não quer dizer nada.

 

Concretize.

Se eu não invisto em universidades que pagam bem a professores e transformo os investigadores em captadores de divisas/projectos, sem tempo para formar alunos, vou ter maus professores, alunos cada vez mais mal formados… Mas remunero com esses cortes a renda fixa que são os juros da dívida pública.

“Investimento” dizendo que cada um produz melhor e mais barato determinado produto, é o que enche o país de eucaliptos. Se tivéssemos castanheiros éramos mais ricos, mas tínhamos menos lucro e rotatividade do capital.

 

As palavras “empobrecimento”, “pobres” podem ser reconduzidas a uma disputa político-partidária. Mas a questão foi concreta na vida de muitas pessoas. Pessoalmente, aprendeu a viver com menos?

Portugal tem hoje mais 50% de pobres. Aprender é uma qualidade, não devemos aprender a viver com menos, devemos assustar-nos com a resignação – se as pessoas aceitam isso, então temos de preocupar-nos. A resignação não é uma qualidade, é espelho de uma sociedade ideologicamente doente.

 

Peço um curto auto-retrato. 

Sou historiadora, professora, dá-me prazer fugir para um arquivo de papéis velhos em silêncio como me dá prazer fazer paddle com os meus gémeos, por quem sou apaixonada. Sou o resultado das pessoas e dos lugares em que estive, das minhas avós, do meu irmão, dos meus pais, do meu marido e amigos. Tenho saudades de casa quando estou fora, saudades do país, mas a minha pátria é a humanidade.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Outubro de 2015

 

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