A minha bandeira

A vida é complicada, tão complicada como as sociedades em que vivemos. Era bom nesta altura da vida tomarmos todos uma posição unitária sobre a barbárie, era isso que desejávamos. Mas não é possível. Porque para muitos de nós, europeus, os bombardeamentos na Síria e em Beirute já não são longe: quantos de nós têm família hoje em Paris e em Beirute? Um pai no Curdistão e uma mãe em Copenhaga? Amigos da Síria? Colegas palestinianos a trabalhar em Londres? Primeira lição – com a globalização deixou de haver para muitos mortos de primeira e mortos de segunda. Segunda lição que nos separa: sob a bandeira francesa bombardeia-se no quadro da NATO o Médio Oriente há 13 anos. Uma bandeira nacional nesta altura do século não é a roupa que nos fica melhor. Terceira lição, duríssima: o Estado Islâmico é uma teocracia fascista medieval criada pelos aliados da NATO no Médio Oriente mas Assad, apoiado pela Rússia e os partidos comunistas ocidentais, matou mais sírios do que o Estado Islâmico até agora. Não sabemos em número quantos civis morreram sob drones e bombardeamentos da NATO e eles vieram lembrar-nos estes dias que não são untermensch, sub-gente – um «efeito colateral». Não, não apoiamos nem a NATO, nem o EI nem Assad.

Há momentos na vida assim, temos que escolher não ter quem escolher. Para quem sabe história, há muitos mais destes momentos do que possam imaginar – na I Guerra Mundial havia milhões entusiasticamente lutando pelo seu império nacional e um conjunto de tipos, cerca de 20, em Zimmerwald, na Suiça, que se reuniram para dizer «esta guerra não é nossa». 2 anos depois estavam com eles milhões de europeus, mas não os 9 milhões entretanto mortos. Esses 20 estiveram alguns anos a falar sozinhos, porque até a social democracia alemã votou a favor dos créditos de guerra para «defender a sua bandeira nacional». Na Síria havia uma resistência síria de esquerda que foi massacrada, por Assad e pelo Estado Islâmico, e pelos bombardeamentos aéreos, franceses também, como ontem lembrou o corajoso partido francês NPA. Há agora um cheiro de humanidade vindo dos curdos, uma parte comunistas, dos sérios, igualitários, democráticos, raros por isso, e também por isso massacrados pela Turquia, aliada da NATO. Confusos? Quando queremos vestir muitas roupas estas deixam de nos servir, começamos a ficar apertados. Uma bandeira internacional era a única que hoje podíamos envergar. Pode até ser a das cores dessa terra, Zimmerwald, parece que é verde e tem três árvores. Por mim pode ficar no meu perfil, e trazer de volta brilho aos nossos olhos, um vislumbre de esperança num mundo onde nos apeteça viver.

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Ch-be328

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One thought on “A minha bandeira

  1. Raquel era tudo mais fácil resolver os problemas dos paises “não industrializados” como ontem ouvi dizer por um sociologo na RTP3 que a solução é a industrialização. Então podiamos oferecer uma bela descascadora de arroz como fez a ONG Afetos com letras : https://www.facebook.com/afectoscomletrasongd/?fref=nf
    Eles entregaram uma descascadora de arroz e já tiveram uma reportagem de 5 minutos e várias peças a nobrecer esse gesto tão humano. Há se tudo se resolvesse um uma descascadora de arroz… que felicidade.

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