Basta Um

A facilidade com que se tiram conclusões dos atentados de ontem, entre os que governam e os que são governados, é sintomático de que não estamos em boas mãos para evitar a repetição destes crimes hediondos. Hollande aliás fez um discurso em que parecia uma criança de 5 anos, entre o choque, a inaptidão total e um olhar vazio sobre o teleponto – já do outro lado do atlântico Obama, seguro de si, cabeça da NATO, veio explicar que os EUA vão fazer o que sempre fizeram – economia de guerra.
 
E aí começa o primeiro problema, metade da produção da Boeing, da GM e da GE são directa e indirectamente economia de guerra; o segundo é a pilhagem de recursos no Médio Oriente que leva a que o ocidente vá criando monstros que se transmutam de acordo com as tácticas dos Estados ocidentais transformando o quotidiano daqueles povos numa Paris bárbara, mas todos os dias – morrem na Síria 180 pessoas por dia e não se pode assumir que um ataque em Paris é um ataque à humanidade e um na Síria é um ataque aos Sírios. A minha pátria, que fique claro nestas horas, é a humanidade. E a minha civilização é a das pessoas sérias, corajosas, que trabalham e não vivem à custa do trabalho dos outros, que escolhem viver sem destruir o vizinho do lado, que se movem por princípios morais – na minha civilização mais depressa bebo um café com um refugiado sírio que vive do trabalho do que com um general norte-americano que foi para o Afeganistão em 2001 «em força». A minha civilização é claro a dos que como eu, tão parecidos a mim, estavam em Paris num concerto e que são, como as crianças sírias, vítimas cruéis de um modo de acumulação em declínio profundo e acelerado.
 
Os refugiados, recordo, a grande maioria, em fuga deste terror, não estão em Paris, estão nas ilhas gregas e por trás do arame farpado nos Balcãs – isso é um ataque à nossa humanidade e civilização, todos os dias, crianças, velhos, homens sobre chuva e frio numa tenda, às centenas de milhares amontoados como animais, em comboios sem ar puro e comida – como é que nós Europeus voltámos a permitir esta imagem, logo nós?. E essa é a outra parte do problema, muitíssimo complexo, que remonta não só a esta guerra infinita que começou no Afeganistão mas na pilhagem total de África a seguir à crise de 82-84 – a saída da crise então implicou a ida do FMI para uma grande parte dos países africanos que ficaram inclusive sem stock de alimentos para não fazer cair os preços das multinacionais de exportação (é a «saída da crise») – é o que diz o relatório da insuspeita Oxfam.
 
A outra parte muito complexa do problema é o desemprego e a forma como se usa mão de obra migrante descartável – no século XXI devíamos estar a reduzir para todos o horário de trabalho partilhando recursos, com amplo domínio público efectivo sobre a propriedade – não temos que receber todos o mesmo mas a desigualdade mundial atingiu níveis obscenos, intoleráveis, e a gestão deste exército industrial de reserva tem sido feito com a permanente pressão sobre os salários que faz das migrações um desterro de exclusão social. A grande maioria dos emigrantes, a esmagadora maioria, aceita viver num gueto e não ter futuro e direitos políticos, e infelizmente não reagem politicamente a isso, mas uma parte, ínfima, já nascida na Europa em muitos casos, a quem é recusado futuro, escola decente (têm programas adaptados), sem emprego, sem vida aceita ser literalmente carne para canhão não de Alá mas de uma fracção religiosa que lhes é o único Estado Social que conhecem. Culpabilizar os emigrantes ou os filhos de emigrantes (não somos todos filhos de emigrantes?) por estes atentados é um acto de loucura, é como prender todos os portugueses porque Ricardo Salgado levou um Banco à falência.
 
Basta um General para lançar bombas sobre um país, basta um banqueiro para destruir um Banco de um país e basta um miúdo sem futuro para se explodir matando centenas. Mas não será com um Hollande que impediremos a perpetuação destes crimes, deste…, vamos dizer o que é, estado de guerra, dirigido pela NATO – vamos ser precisos todos nós, os da civilização, árabes e europeus, islâmicos, cristão e ateus, os que gostam de rock e os de jazz, a dizer que queremos um fim a esta guerra, já – não suportamos mais abrir telejornais e não há vigilância, consentida ou não, em nome do combate ao terrorismo, que ponha fim a isto. Porque guerras, como sabe quem as faz, resolvem-se com política, ou não se resolvem. Ou nestas horas dificeis temos a coragem de denunciar todos os terrorismos, os de Estado também, ou a barbárie de ontem vai continuar.

 

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15 thoughts on “Basta Um

  1. Hollande aquando da sua declaração era a imagem da derrota, parecia não ter nada para dizer, era a imagem do absoluto vazio. Por estranho que pareça as mortes já não alteram o curso de nada e isto devia ser um motivo de preocupação generalizada, a desvalorização da vida é um dos aspectos visíveis deste nosso mundo globalizado, o padrão civilizacional estabelecido é contrário ao ideal de justiça, de solidariedade e de fraternidade entre povos, e enquanto assim for continuaremos a lamentar a vida e a morte de alguns dos nossos companheiros de existência.

  2. Concordo. E digo mais. Depois do que aconteceu ontem é a desculpa ideal para a europa limitar a circulação dentro da união europeia e controlar ainda mais as fronteiras. É verdade que o projeto europeu foi baseado no livre circulação de pessoas e bens dentro da União. Só que eles já estão a conseguir o que queriam.

    É como um casamento. O homem machista sempre esconde da mulher que é machista até a ter na mão. E bruxelas tem os paises da zona euro na mão. Os paises do sul precisam de ser obedientes para que os jovens e a enconomia dos seus paises tenham a dádiva de continuar a respirar.

    Eles vão decidir e vão de leve começar a criar politicas nesse sentido. Em relação aos refugiados que a comunicação social está a tentar meter na cabeça das pessoas que são imigrantes económicos os que conseguirem entrar vão ser explorados até ás goelas. E uma vez mais tudo vai se passar e ninguém fará nada. As pessoas a maior parte delas vive para sobreviver e as que têm condições também uma boa parte delas foram educadas a aceitar o sistema implementado. As escolas que deviam ser um local de aprendizagem, critica e envolvimento dos alunos nas comunidades não passam de centros de rebaixamento, injurias e “exames” que nada mais servem para deixar um jovem burro durante 12 anos da sua vida… um jovem sai da escola e não sabe fazer nada. E pior é que nem se defender sabe… Não sabe que tem direito a pedir a segurança social apoio se não encontrar trabalho. Não sabe que tem direito a não ser visto como um mendigo nem ser humilhado… e é desta forma que se vive por cá… a europa vai começar a sobrer transformações que vão limitar ainda mais a nossa liberdade e as nossas opções e ninguém fará nada significativo porque estão todos comprometidos com o sistema e o medo das suas almas de acabar a viver na pobreza.

  3. Olhe … e quem mata 180 sírios por dia? O horror é horror em sirio ou em françês…
    Mas olhe, que dois dos terroristas que se explodiram na sala de concerto e mataram mais de 80 jovens já foram identificados: um é sírio e outro egipcio e esses dois passaram o contrôle de identificação na Grécia… Atenção: não estou a generalizar …

    A sua lucidez é realmente estonteante … porque não vai viver para a Síria?

    • Eugenia a sua provocação no final do seu comentário não traz nada de útil ao debate. Se você se se identificar como a Raquel pode faze-lo. Agora se não se identifica está a ser injusta. Porque não é a Eugenia que coordena equipas de historiadores e investigadores para trazer um pouco de lúcidez aos portugueses. Porque não é a Eugenia que se basea no que estudou e com argumentos válidos e históricos para nobrecer o discurso. A Eugénia limita-se a mandar umas bocas para o ar e a reproduzir o que ouve nos midia. Isso não é argumentar. É somente falar o que ouviu dizer e a seguir ofender o trabalho sério dos outros. Má Eugenia. Se a Eugenia perder um pouco do seu tempo e pesquisar um pouco sobre os sirios e os egipcios verá que eles não são diferentes de nós. E se perder um pouco mais de tempo pode ser que chegue à conclusão que esse povo está a fugir da guerra uma pequena amostra que aconteceu em França, é disso que eles estão a fugir. Os terroristas não se mandam para um barco e navegam em oceanos torbulentos arriscando a própria vida. Por mais estranho que lhe possa parecer só pessoas muito desesperadas o fazem e se levam crianças é porque estão em pânico a fugir da guerra. Os terroristas não se matam sozinhos eles querem sempre levar muita gente e por isso você ouviu na televisão que eles foram de carro não chegaram de barco nem a nado. Antes de comentar tente pensar não precisa apresentar dados históricos basta pensar primeiro e dar a sua opinião não custa nada dar a nossa opinião e evitar reproduzir o que acabamos de ouvir na TV. Há bons livros e muita informação em bons jornais que a podem lucidar. Pesquise. Cmp

  4. Pingback: O que é o Estado Islâmico? Como se combate? Quererá o Ocidente meter-se nisso? | Shifter

  5. Os Governos estão mais interessados é nos orçamentos de Estado , nos Mercados , e bla bla , do que na~segurança , treta muita treta

  6. Os Governos estão mais interessados é nos Orçamentos de Estado , nos Mercados , na Banca bla ,bla , segurança pode passar ao lado portanto chorar não resolve e mais reuniões dos G 30 só treta e mais treta

  7. A primavera árabe bem apoiada pelo ocidente em mais uma das sua cruzadas esbarrou na Síria com tudo o que isso encerra sobejamente do conhecimento de todos. Uma das suas maiores consequências a formação/evolução do auto proclamado estado islâmico que surge de forma tão célere, tão organizado, sustentado e equipado, e até hoje do muito que foi noticiado não constatei qualquer informação convincente como tal foi possível, “êxito” este em minha opinião só ao alcance de poucas nações quiçá cooperações do mundo, mas com a certeza nunca ao alcanço de um bando de ultra-radicais religiosos como nos faz crer muita da comunicação social, porém convicto que a bandeira em defesa do islamismo tem servido de forma perversa para engrossar as fileiras deste estado islâmico.

  8. Tirar conclusões ‘sem facilidade’ e, sem evocar o conflito Israel-Palestina (!?) O tempo e a razão. Muito forte ! Hasbara, Raquel Varela ? Então, hasbara fail.

  9. Olá esclarecida Raquel, que não te conheço, mas é como se tivéssemos crescido juntos. Muito bom! Precisamos todos de vozes sábias que nos expliquem, de forma sucinta, o que parece inexplicável. A intoxicação é cada vez maior. Os sentimentos estão á flor da pele e a demagogia impera, muitas vezes sem nos apercebermos. Obrigado.

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