A tradição e a lei

O discurso ontem de Paulo Portas merece uma nota. Não apoio este «governo de esquerda», acho lamentável que sindicatos e a Associação de Combate à Precariedade, pela ligação ao PCP e BE respectivamente venham dizer que o que está no programa protege os trabalhadores – escreverei em breve sobre cada um dos pontos mostrando o óbvio – o vazio legal e a arbitrariedade consequente do programa do PS em matéria de emprego. Sem pressão social não vai ser criado um posto de trabalho protegido, a sangria da emigração vai continuar e a precariedade manter-se, desde logo, entre muitos outros factores sobre os quais escreverei, porque um dos mecanismos fundamentais desta – as baixas indemnizações por despedimento feitas pelo PSD/CDS – mantêm-se exactamente na mesma no programa do PS. Como sempre facadas vêm de quem está perto de nós porque quem está longe nem se aproxima para as conseguir dar. Mas o PS tem legitimidade democrática para governar, porque este regime não é, felizmente, o da tradição. É o da lei – e uma parte dos comentadores dos media esqueceram-no estes dias. Ver um governante – Paulo Portas – invocar a tradição justamente dentro da AR é obscuro mas sobretudo perigoso. A lei é inequívoca sobre a legalidade da construção e negociação de maiorias parlamentares.
Na verdade vivemos num mundo em que a política ainda é dominada por pessoas que acham que se pode encaixar a realidade na estratégia partidária, mesmo que a estratégia («realista», «possível», como gosta de argumentar quem a defende) seja incompatível com a realidade. Isto tanto é assim para quem veio dizer que apoia este governo porque ele dá «garantias de combater a precariedade» – absolutamente falso -, como para quem, em pânico por largar o dinheiro de parte do aparelho de Estado, tanto dinheiro Senhor!, só falta chamar Deus para justificar a sua permanência num governo, a qual a maioria dos votos expressos rejeitou firmemente.

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2 thoughts on “A tradição e a lei

  1. Bom dia Raquel,

    Gosto sempre de a ouvir até ao dia que deixar de acreditar na honestidade das suas palavras. A Raquel faz uma critica a este acordo de esquerda possivelmente realista. Aliás, nenhum dos partidos da esquerda pensa que este acordo irá trazer o cenário que todos nós gostariamos.

    Uma parte no seu discurso que raramente vejo é a solução. Claro você como historiadora pode alegar que as suas funções têm de ser imparciais e devem ser o mais possivel uma interpretação da realidade. Logo, pode defender a tese que não pode apresentar soluções como historiadora pois estaria a envolver-se na história e não é essa a função de um historiador. Tudo muito bem. Se assim for vou tomar atenção só aos números e a alguns fatos históricos que quero aprender. Porque de resto também eu mesmo não sendo um historiador tenho capacidade de fazer uma intrepretação no que possivelmente vai acontecer.

    Agora, o exercicio de tentar encontrar soluções é um campo que penso ser necessário a ajuda de todos.

    Repare no seguinte. Imagine que os dirigentes do Bloco de Esquerda liam o seu comentário, e diziam “bem ela tem razão vamos desistir e deixar que pasos governe”. O que você acha que iria provocar no pais?

    Penso que o presidente da republica até maio não pode dissolver a assembleia nem propor eleições antecipadas, legalmente não é possivel. Obviamente que vai tomar a decisão à direita. Porém, vimos ontem uma grande mudança parlamentar à esquerda. Pela primeira vez a coligação deixou cair a arrogancia da sua maioria absoluta. E pela primeira vez os partidos considerados radicais assumiram um compromisso. Se o PS formará governo e se ele aguenta os 4 anos podemos estar a discutir isso a vários niveis inclusive históricos. O que me preocupa mais é ter quase 30 anos e não haver medidas do estado que apoem o emprego jovem. É ter de encarar trabalho temporário e desumano. É ter de pagar o pão industrializado, as uvas com quimicos, a luz chinesa e a água dos privados e no fim do mês olhar para a conta e ver que só trabalho para sobreviver. Felizmente este impasse terá um fim porque estou também a estudar (com grande sacrificio financeiro), no entanto, para a maior parte dos jovens não há esperança. E este passo da esquerda veiu dar uma luz fraquinha no fim do tunel.

    Portanto, peço-lhe como seu admirador, sempre que critique a realidade tente relaciona-la com soluções nem que sejam soluções históricas.

    Cmp

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