Bananas! Eram só bananas

Antes íamos a uma mercearia de esquina, perto de casa, pedíamos o que queríamos, sabíamos da vida «vai-se andando» de cada um, casamentos e divórcios e regressávamos, animados – com sorte tínhamos comido um bolo caseiro da avó que vivia por cima. Asae o nosso que já não é assim. Agora vamos a um supermercado e deparamo-nos com uma empregada exausta que com esforço – não vamos nós clicar no botão «não gostei do serviço» – nos pergunta:
– Tem cartão cliente? – Não, obrigada.
– Quer saco? – Tenho, obrigada.
– Precisa de factura? Com o número de contribuinte? – E eu já a precisar de mais esforço para o sorriso, sou também humana, quero descansar, vim comprar pão, não ter um debate sobre brindes e fiscalidade. Não, obrigada, são menos de 10 euros, deixe lá.
E contínua, está no contrato, ensinaram-lhe na acção de formação do inferno que é ser caixa de supermercado, o tipo da acção era um gestor de recursos humanos neurótico e histérico que sorria e fazia sons agudos: «quer entregar uma parte para uma instituição que ajuda crianças?». – E eu respiro fundo, sorrio, «amanhã vai ser outro dia», optimismo histórico,…- Bem, sabe, já ajudamos, as duas, com impostos (penso, mas vim só comprar pão e bananas!).
Quando ambas, eu e ela, achamos que estamos livres de tudo, no fundo do empreendedor que inventou esta sucessão de inutilidades vem o «Ganhou uma raspadinha!» e ainda, ela já com o talão na mão e eu a agarrá-lo já em fuga total: «Tem aqui um vale de desconto da gasolina».
Eu não sei meter gasolina e só vim comprar bananas! – penso. Jamais diria, muito menos a ela, que repete isto ad nauseum. Fico sempre impressionada por um país que tem como dois dos homens mais ricos dois donos de supermercados e em que cada emprego criado destes, desta tortura, é considerado como um avanço…

Advertisements

4 thoughts on “Bananas! Eram só bananas

  1. Adoro a sua forma bem humorada de olhar o mundo!!! Acaba por ser um fenómeno nesta terra de “cinzentice arrepiante”: é bonita, usa pérolas (esta eu acho genial!!!), é mulher e tem quilos de coragem e de massa cinzenta(não, não estou a falar do outro cinzento!!!) É um prazer lê-la!!!

  2. O facto das empresas se servirem das pessoas como se fossem sua propriedade é um conceito que não nos é muito distante, veja-se a classe operária, a novidade é essa violência ser também extensível ao sagrado sujeito do capitalismo. Não deixa de ser irónico o facto de ser esta ultima concepção o derradeiro elo de separação entre a “democracia” e a ditadura, o que diz muito da subversão em que estamos mergulhados.

  3. E para mim, que bom, começar assim a manhã! Delicioso, certeiro! Fazem falta crónicas assim, como no tempo da famosa “Guidinha” do Stauu Monteiro.
    Obrigada, Raquel Varela. A História também se faz com estas histórias.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s