Esquerda, Direita, sem Volver

 

Disse no programa O Último Apaga a Luz que as promessas do BE, do PCP e do PS são inexequíveis. É o que a «direita diz» – responderam-me. Não é bem assim. Há dinheiro mas não dá, lembrando o provérbio francês, «para ficar com a manteiga e o dinheiro da manteiga». Tem que se mexer nos lucros, ou seja, na propriedade das grandes empresas, isto é, na banca e no sistema financeiro. Não há dinheiro para fazer subir lucros e salários em simultâneo. Isso muda todo o panorama histórico que estamos a viver e torna-o qualitativamente diferente da década de 50-70, os chamados anos de ouro da Europa, onde por força da destruição da guerra era possível subir lucros e salários ao mesmo tempo. Porque acham que o programa de Tessalónica do Syrisa levou 5 meses a colapsar? Um programa que foi aplicado no governo pelo PASOK há 30 anos? Os projectos reformadores, de matriz histórica social-democrata ou outra – que reformas há-as de muitos tipos – não são viáveis, seja o do PS, seja o do PCP ou do BE, aliás todos eles no programa aquém daquilo que era defendido pela social-democracia clássica nos anos 70. Veja-se o abandono do pleno emprego pelo sistemático apelo aos subsídios de desemprego, rendimentos mínimos, assistencialismo, que é hoje o coração das políticas «de esquerda» – a substituição da dignidade universal de viver do trabalho pelo assistencialismo discricionário estatal. Hoje ou sobem salários ou lucros, e isso significa de facto a abertura de uma era de conflito social, cujo Parlamento será reflexo. Podem brandir estabilidade que ela acabou.

Esquerda e direita são, aliás, termos superficiais que não explicam o fundamental, que são usados no jornalismo mas praticamente inexistentes nos trabalhos académicos e históricos. Há muitos projectos políticos distintos, vivemos em sociedade complexas, com classes sociais e fracções de classes sociais, que não se distinguem só pelos rendimentos ou pelo património. Talvez o que distinga melhor ambos hoje seja essencialmente isso: o assistencialismo. A direita quer ignorar os pobres com 100 euros e culpabilizá-los da sua situação, a esquerda quer 160 e respeito por eles.

Bem sei que hoje está o país da opinião dividido entre um sector que quer manter-se no aparelho de Estado a todo o custo (PSD-CDS), porque o aparelho de Estado controla os desvios dos fundos públicos para o sector privado, e outro que quer um governo «de esquerda» a todo o custo, mesmo a custo de não conter esses desvios, o maior dos quais feito através do mecanismo da «dívida pública», nenhuma reforma de fundo, e mesmo ao custo de abandonar as políticas centrais, que não são de centro, são de ruptura civilizacional, como a questão inadiável da moratória e da auditoria à dívida. Talvez porque seja o «que o povo quer ouvir» – e é verdade que o resultado das eleições disse isso – o povo português quer um governo de pacto social impossível, que não tem condições de se sustentar e garantir pelo menos a devolução dos salários na sua totalidade – salário social incluído, ou seja, toda a dignidade do SNS e da educação e pensões cortados. Mas os partidos sérios não existem para dizer «o que o povo quer ouvir», mas sim a verdade. E a verdade é que sem mobilização social responsável qualquer governo vai ser inoperante. Diz-nos a história que o que aqui escrevo é pouco útil, uma vez que a grande maioria das pessoas, com ou sem formação superior, tem pensamento mágico e vai ter que ser confrontada na realidade com o falhanço das suas escolhas. Mas fica o registo porque aos intelectuais cabe mexer nas feridas, que doem, para dizer onde elas estão. Para colocar pensos onde não há feridas estão cá outros.

Link de O Último Apaga a Luz

 

http://www.rtp.pt/play/p2046/o-ultimo-apaga-a-luz

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2 thoughts on “Esquerda, Direita, sem Volver

  1. Eis a resposta que poderia lhe dar José Pacheco Pereira: Concordo com ele. Danielle Foucaut Dinis (amiga de Fernando Cardeira). Cf “Estatua de Sal”

    Acabou?

    Não. Há muita coisa que não acabou. Há um rastro de estragos, uns materiais e outros espirituais, que não vão ser fáceis ou sequer possíveis de superar numa geração. Sempre que um jornalista fizer a pergunta pavloviana de “quem paga?” ou “quanto custa?” só sobre salários, pensões e reformas, ou seja aquilo que interessa aos que tem menos e nunca faça a mesma pergunta em primeiro lugar, e muitas vezes único lugar, para tudo o resto, benefícios fiscais, impostos sobre os lucros, “resolução” de bancos, PPPs, swaps, etc. ainda não acabou. Sempre que alguém “explicar”, com um encolher irónico dos ombros e completa e absoluta indiferença, a ineficácia da fiscalidade sobre a riqueza, porque os capitais “deslocam-se” como água para outros sítios, para offshores, e podem sempre fugir, e por isso “não vale a pena” sequer admitir tentar taxá-los, ainda não acabou.

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