Direitos Conquistados

Quando estou com gripe vejo o fim do mundo – é um lugar onde eu não me seguro em pé, tremo, vejo em duplicado e os pequenos sons tornam-se em estalidos de bombas nucleares. Um médico, que viu 10 mil engripados ao longo da vida, vê uma gripe e uma paciente assustada. A minha ansiedade é tão forte quanto o desprezo benévolo dele. Sou historiadora. Acreditem em mim, como acreditam num médico quando estão com gripe – dêem-lhe o beneficio da dúvida. Hoje, aconteça o que acontecer, não é o fim do mundo. As sociedades mudam, muito, mudam muito em muito pouco tempo e os processos eleitorais, na grande cronologia da história, do tempo longo da contemporaneidade, são um dos factores, entre dezenas, que condicionam o poder. O poder político não está todo concentrado nas mãos do Governo nem o poder da população está só no voto – as eleições são um espelho de uma parte da sociedade, importantes, mas a terra move-se, mesmo quando a nós, que cá andamos, parece parada ou a gripe parece o derradeiro meteorito. Qualquer que seja o resultado das eleições, e nenhum resultado é indiferente, com os partidos que existem e estão a concorrer, a vida das pessoas não vai mudar se elas nos lugares de trabalho, habitação, nos hospitais que usam e pagam, nas escolas onde deixam os filhos, nos jardins públicos mal tratados, nas estradas esvaziadas pelas portagens, nos transportes abarrotados pelas privatizações não se organizarem politicamente. Foi aliás assim, com organização política de base, que nasceram…também as eleições. Na década de 30 do século XIX em Inglaterra os cartistas foram os pais do movimento operário e do sufrágio universal. Entre os primeiros estão os de Tolpuddle, uma sociedade secreta de operários que lutavam pelo direito à organização sindical e ao sufrágio universal – foram enviados para o degredo para uma colónia penal na Áustrália – há menos de 200 anos. Posso assegurar que não foi o direito ao voto que deu o direito ao voto, foi a luta social por direitos que então inexistiam que os asseguraram. Direitos não são “adquiridos” – são conquistados ou perdidos.
Agora a metáfora acaba aqui. A gripe passa com o tempo – o declínio do país avança com o tempo, se não houver comprometimento político da população em geral a mudar a vida, para além da rotina eleitoral de 4 em 4 anos. As sociedades não mudam, nem nunca mudaram, qualitativamente, porque alguém depositou noutro a sua tarefa. Assistimos a uma comissão parlamentar no BES que serviu para recuperar o prestígio do Parlamento junto da população (e certamente elevar o número de votantes no BE e no PCP) – a comissão parlamentar não tem poderes jurídicos para nada, os activos foram vendidos enquanto na TV passavam os deputados a fazer corajosas perguntas, o passivo, nesse entretanto, foi passado para a população toda, ou seja, os assalariados que são a maioria de quem paga impostos (75%) em Portugal. Se em vez de 100 lesados do BES que arriscaram lá o seu dinheiro 10 milhões tivessem actuado, hoje havia mais dinheiro para a saúde e educação, Portugal estava mais à frente. Se a ideia é votar e ficar no sofá os próximos 4 anos à espera que outros façam o que não assumimos nas mãos fazer devem começar já a lamentar-se do “povo que temos”. O mais belo conjunto de ideias e desejos, a mais perfeita teoria sem acção organizada, responsável, democrática e diária das pessoas é uma inutilidade histórica – o povo, “ignorante, distraído, individualista” é uma extraordinária entidade colectiva que não existe – o povo somos nós. E quando somos ignorantes, distraídos e individualistas e assitimos à politica como um jogo, que passa num écran, alheio a nós, ficamos com uma conta para pagar de 5 mil milhões.

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