A abstenção vencida venceu

A abstenção permanece o partido mais elevado, uma das mais elevadas de toda a Europa. Ela mantém-se quase idêntica em termos absolutos, sobe em termos relativos, é a maior de sempre em eleições legislativas, segundo os dados que temos agora. Mas ela é maior por outra razão. Abster-se há 4 anos e hoje não tem o mesmo significado. Ou seja, depois de um Governo que arrasou com os salários e os serviços públicos, e 900 mil perderam o emprego, há 4 milhões de pessoas, sensivelmente, que decidiram não votar. E depois daquela que foi, de forma unânime, a campanha maior que já foi feita contra a abstenção – ao ponto de culpabilizarem, num jogo de espelhos, sobretudo aqui nas redes sociais e nos media, os abstencionistas pelos destinos do país. Este é o significado mais profundo destas eleições: 4 milhões de pessoas não foram votar, sendo que meio milhão emigrou entretanto – uma parte destes deixaram também de votar, cá e onde estão. A maioria da população portuguesa, a larga e absoluta maioria, não vê nenhuma saída nos partidos actuais. A mesma população que votou em massa, ansiosa, orgulhosa, feliz, em 1975 – a taxa de abstenção foi então 8,5%, hoje foi 43% – os portugueses ficaram estúpidos? – como insistem os comentários superficiais – ou perderam a esperança na participação política eleitoral? Os estudos que existem publicados sobre a abstenção expressam uma relação directa não entre a abstenção e o rendimento, não entre a abstenção e a escolaridade mas sim entre a abstenção e, cito, a “desconfiança nas instituições públicas”, bem como a militância política e sindical. Em suma, as pessoas não participam porque deixaram de participar, a política passou a ser actividade de um Parlamento profissional que não as representa, onde não se sentem representadas e do qual desconfiam. A expressão disso não é o silêncio, é a abstenção, um fenómeno de grande significado político-social, quer com ele se concorde ou não. É parte essencial não do colapso mas da profunda crise do regime democrático-representativo. Nos últimos livros que publiquei tenho insistido nesta hipótese – o apoio histórico ao regime político é o apoio não a uma forma específica de regime liberal-parlamentar mas sim o apoio a direitos sociais. Sem eles o regime entra em crise, por mais que se combata com palavras o fenómeno. A realidade tem mostrado que esta hipótese é forte. Todos os partidos hoje com representação parlamentar perderam face à desesperança individual – a grande novidade politica do país será um dia assistir ao partido/movimento e programa político que consiga transformar este desepero individual em esperança colectiva. Aí sim, haverá razões para celebrar.

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17 thoughts on “A abstenção vencida venceu

  1. Quer a Raquel Varela goste ou não goste…quer o povinho partidário goste ou não goste…é verdade aquilo que diz…é a realidade e há que aceitar. A ABSTENÇÃO é a unica forma de no futuro se chegar a uma mudança de sistema e regimes até á data mal instituidos e que criaram desrespeito pelos direitos fundamentais que devem assistir todo o ser humano! Por mim uma revolução ao nivel do 25 deAbril mas sem vitimas mortais podia começar já amanhã! Uma democracia referendária ou participativa é o que se pede no minimo…e não representativa…pois estaremos todos subjugados a caprichos politicos durante mais 4 anos pelo menos! Volto a frisar…. continuem com a abstenção porque os carrascos da nossa sociedade têm medo dela! Parabéns a todos os abstencionistas!!!

    • Bem-Haja Raquel Varela. Disse tudo de uma forma impressionante, certeira. Que sempre assim seja, directa e lúcida. Não posso estar mais de acordo. Sinto o mesmo que a amiga sente, mas não o sei dizer como as suas palavras tão bem o disseram. Um grande beijo de fraterna amizade!

    • Considerem a minha abstenção, a única forma de não estar aliado a todo e qualquer Partido ou Políticos, que nunca demonstraram competência para governar, mas para se governarem. Para mim, é “o grito de revolta”, contra o tipo de “democracia” existente em Portugal.

    • Ainda bem que concorda Ângela…..um abstencionista não é um bicho do buraco….pelo contrário.. é um cidadão que trabalha e um ser pensante como outro qualquer com direito a opinar e não a calar como muita gente pensa! Todo o abstencionista tem o direito de lutar e ter os seus direitos como qualquer partidário tem. Ser livre de expressar o que pensa ou sente apresentando o Seu parecer com ou sem soluções, é um direito que O assiste!

  2. Então e a liberdade de cada um de agir como bem entender? Porque é que a esquerda caviar considera que além serem estúpidos “Raquel dixit” são todos de “esquerda” e por isso estes valores caviar não se conseguem tornar vencedores.. ..
    Minha linda (em tom paternalista) porque não emigra para esses bastiões da esquerda como a Venezuela, Coreia do Sul ou outros que lhe garanta a sua vitória! a liberdade para dizer toda a merda que lhe vem á cabeça é que é capaz de ser um pouco cortada.

    • A abstenção respresentada na assembleia por sorteio de um numero de independentes auto-habilitados. Seria um bom começo de mudança.
      Alguns temas para pesquisa:
      (democracia directa, democracia liquida, democracia deliberativa, democracia participativa, democracia pura)

    • Concordo…..um abstencionista é um cidadão e ser pensante como outro qualquer… também trabalha e contribui para o desenvolvimento do país… e como tal para além de se negar a todas as alternativas partidárias propostas, tem o direito a pronunciar-se e a apresentar na mesa as suas ideias e soluções para uma maior igualdade social em beneficio da pátria!

  3. Ou, se calhar, muitos portugueses já perceberam que a luta faz-se no dia-a-dia, nas prateleiras dos supermercados e nas lojas dos shoppings com a compra de produtos Made In Portugal em vez da habitual chinesada com a qual os tugas se costumam deliciar. Para o nosso futuro como país, mais vale o hábito de comprar o que é nosso do que o de ir religiosamente votar em partidos compostos por gente que ainda não percebeu que, para haver direitos sociais, é preciso criar riqueza. Não é a despejar milhões de euros em carros da Alemanha e em telemóveis da China que vamos lá.

  4. Pingback: A abstenção vencida venceu | HISTÓRIA da POLÍTICA

  5. Julgo que faltou referir que segundo CNE a diferença entre abstenção e votos brancos ou nulos é absolutamente nenhuma uma vez que segundo o CNE “O que acontece se numa eleição os votos brancos e/ou nulos forem superiores aos votos nas candidaturas?
    Os votos em branco, bem como os votos nulos, não sendo votos validamente expressos, não têm influência no apuramento do número de votos obtidos por cada candidatura e na sua conversão em mandatos.
    Ainda que o número de votos em branco ou nulos seja maioritário, a eleição é válida e os mandatos apurados tendo em conta os votos validamente expressos nas candidaturas.” .
    Ou seja a democracia em Portugal não dá voz a quem não concorda com nenhum candidato ou não concorda com sistema… Basicamente a democracia é profundamente limitada. Mais uma razão para continuar a ser abstencionista.

    • Eis uma apresentação real de todo o processo eleitoral que deixa qual ser minimamente inteligente e atento deveras e completamente indignado. Dar voz a todos os abstencionistas é o melhor caminho para a mudança! Gostei do teu elucidativo texto, Afonso!

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