Entrevista JN

A entrevista completa que dei ao Jornal de Negócios a Anabela Mota Ribeiro.
Anabela Mota Ribeiro: “Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, de Jorge de Sena: “Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós”. O que deseja para os seus filhos, para o país, no novo ciclo que se anuncia?
Raquel Varela: Que eles vivam num mundo em que a igualdade, fraternidade e liberdade não sejam palavras pronunciadas por poderes que as estrangulam. Que eles saibam lutar com compromisso – ou seja, fazendo realmente acções, trabalho, assumindo responsabilidades e não apenas lamentando-se – e com coragem por um mundo assim. Porque não há nenhum direito “adquirido”, foram todos conquistados.
AMR: Acredita deveras que será um novo ciclo? Parecemos exauridos. Como encontrar/alimentar a garra dos dias inaugurais? Estamos atados no “a gente vai levando”, de uma canção brasileira?
RV: Ainda vivemos com partidos e sindicatos do pacto social. A sociedade europeia não olha para o que se passa na economia como palco de um conflito social mas ainda como um acordo, o que nasceu do pós-guerra, que implicava subida de lucros e salários. Hoje isso é impossível: ou sobem uns ou outros. Sem resistência social organizada não vai haver nada a não ser mais declínio da vida das pessoas comuns e do país. Lembrei-me de outra música brasileira: “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”.Não é necessário ser revolucionário ou ter um conhecimento complexo da produção da sociedade, basta ter bom senso e honestidade para ver a anarquia da produção em que vivemos. Em 2008 ruiu a ideia do capitalismo regulado, como diz um colega britânico, descobriram os mais ingénuos que não há um vampiro vegetariano. Caótico, desperdiça recursos, queima capitais – o que significa formar um médico durante 14 anos e depois convidá-lo a que emigre? Hoje debate-se se um pobre é alguém que vive com 2 dólares por dia! Pobreza no século XXI não devia ser não comer, mas não ler jornais e livros e não tocar um instrumento musical. Estamos com medidas da pobreza semelhantes às da Idade Média, quando a enxada era o meio de produção privilegiado? A população, de forma unânime, acha indecente não haver um Estado Social. Em toda a Europa, até os conservadores são obrigados a defender em palavras o Estado Social. A maioria da população também sente, com brutalidade, a imobilização da capacidade produtiva propositada (desemprego); sente a asfixia fiscal, as “papeletas da ladroeira” como se dizia na revolta da Maria da Fonte; sente portanto um Estado que suga impostos e não devolve quase nada a não ser formas de controlo, e hoje a maior forma de controlo não é imediatamente a força repressiva mas a máquina fiscal. Brinco dizendo que quando houver uma revolução a população não irá para a sede da polícia política, como é comum nas revoluções, mas para as Finanças! Mas eu sou uma optimista. Como disse Friedrich Hebbel, citado por Antonio Gramsci: «À juventude censura-se amiúde acreditar que o mundo começa apenas com ela. Mas os velhos acreditam ainda mais piamente que o mundo finda com eles. O que é pior?»
AMR: Assistimos à erupção de casos de violência no país. Vizinhos desavindos, maridos a matar mulheres, pessoas a perder a paciência. Muita gente pobre. No fio – como se dizia – de um tecido puído. Vai rebentar? Que rebentamento?
RV: Não sei se a violência aumentou ou não, as estatísticas e a comunicação social não dão conta da realidade e da complexidade da violência. Mas bateu-se no fundo? Ainda não! Ainda há pais a suportar o desemprego dos filhos, há emigração, que expulsa população e serve parar retirar pressão da panela – muitos descontentes saem do país e mandam divisas. E há programas assistencialistas que evitam as filas da sopa dos pobres. Mas tudo isto é muito frágil e está atingir os seus limites: os pais a ficar sem dinheiro, a emigração já não é factor determinante de mobilidade social e a proletarização dos sectores médios; o médico que passa a ser um empregado com o tempo todo controlado numa multinacional (um hospital privado), por exemplo, tudo isto cria condições para os limites económicos e sociais se aproximarem.As sociedades mudam por reformas ou revoluções. Nas sociedades agrárias, dispersas, muito atrasadas, a miséria não tem automaticamente uma tradução em processos revolucionários, mas isso é, a meu ver, impossível em sociedades urbanas, proletarizadas (no sentido em que as pessoas vivem de vender a sua força de trabalho, seja um professor ou um estivador), escolarizadas, onde as expectativas são mais altas, e com razão. Ou seja, o comum das pessoas hoje não acha que ser pobre é uma fatalidade, um destino, e que a economia é uma entidade sagrada, natural, inevitável. Compreendem, mesmo que não consigam explicá-lo de forma complexa, que se há taxas de remuneração de parcerias público-privadas de 14%, e 25% de desempregados, não é porque “não há dinheiro” mas porque a massa salarial voa de um lado (trabalho e pequenas empresas) para o outro (algumas empresas protegidas pelo Estado). O fenómeno da burocratização e da corrupção (corrupção legal e ilegal, vamos chamar-lhe assim, ou seja, usar o Estado para benefício privado, esteja ou não tipificado na lei como corrupção), tudo isso são formas de um processo geral de declínio, em que é impossível explicar a uma criança de 10 anos porque há pessoas a dormir na rua e 700 mil casas vazias em fundos imobiliários, que nem impostos pagam.
AMR: Desemprego, Sócrates, a enorme disparidade na leitura dos números: estes são os grandes temas desta campanha eleitoral? Quais deveriam ser, na sua opinião, os grandes temas em discussão?

RV: O pleno emprego e a moratória sobre a dívida pública – com o que se sabe hoje desta dívida e com o que sabemos da contabilidade do Estado Social (ele é todo auto sustentado) a dívida não pode ser alocada a quem vive do salário; ela deve ser suspensa, fazer-se uma auditoria. Não suspender a dívida – na verdade, um negócio, uma renda fixa – é suspender a justiça social. Sem pleno emprego não há produção correta no país (a produtividade irá cair porque as pessoas estão exaustas e ganham mal), não há sustentabilidade do Estado Social e das pensões. Se era possível em 1975 por que não é hoje, que temos muito maior evolução tecnológica e científica?
AMR: Como é que Portugal pode ser mais competitivo, crescer mais, acumular mais capital? O mais provável é que não haja resposta para isto. Mas isso é aceitar que somos um país que «não se governa nem se deixa governar», como disse um general romano dos Lusitanos. Que emenda?
RV: Há uma armadilha séria: defender mais investimento público é indiferente hoje, se não questionarmos o que produzimos, para quem e como. O que é do Estado não é necessariamente público. Defendemos investimento público na saúde pública ou investimento público na transferência do SNS para a saúde privada por via da ADSE? Investimento em abstracto não quer dizer nada. Se eu não invisto em universidades que pagam bem a professores e transformo os investigadores em captadores de divisas/projectos, sem tempo para formar alunos, vou ter maus professores no ensino secundário e primário, alunos cada vez mais mal formados, que hoje já podem ser adultos e estar a formar outros alunos… Mas remunero com esse cortes a renda fixa que são os juros da dívida pública. Investimento dizendo que cada um produz melhor e mais barato determinado produto é o que enche o país de eucaliptos; se tivéssemos castanheiros éramos mais ricos, mas tínhamos menos lucro e rotatividade do capital. A competitividade a que alude a economia mainstream é a dos baixos salários, com mais ou menos investimento público. E essa “competitividade” não tem nenhum interesse para a maioria da população – empobrece o país, destrói e esvai a força de trabalho. A competitividade da EDP significa a exportação da energia que produzimos, as casa geladas das pessoas que não têm como pagar a electricidade, carregada de taxas, as subcontratações da EDP criaram uma miríade de pequenas empresas que não conseguem sustentar a segurança social e a medida de sucesso é a remuneração de dividendos no final ao CEO, accionistas e administração? Se investirmos num aluno durante 20 anos vamos produzir muito mais riqueza do que pagando uma taxa da EDP.
AMR: Estas palavras (empobrecimento, pobres) podem ser reconduzidas a uma disputa político-partidária, e todos se lembram das palavras do primeiro-ministro quando começou a austeridade (a de que tínhamos que empobrecer). Mas a questão foi concreta na vida de muitas pessoas. Pessoalmente, aprendeu a viver com menos?
RV: As políticas de recuperação dos ativos falidos em 2007-2008 são, da direita à esquerda, designadas como «austeridade», e a «saída da crise» é retórica usada por todos, ocultando que desde 2009 uma parte minoritária suspirava de alívio porque teria saído da crise em que entrara em 2007 e 2008 (a banca e os ativos falidos de grandes empresas) e outra parte da população, maioritária, quem vive do trabalho, e as pequenas e médias empresas, entrou nessa crise. O dinheiro não se evaporou, saiu de um lado para o outro. Portugal tem hoje mais 50% de pobres. Aprender é uma qualidade, não devemos aprender a viver com menos, devemos assustar-nos com a resignação – se as pessoas aceitam isso, então temos de preocupar-nos. A resignação não é uma qualidade, é espelho de uma sociedade ideologicamente doente.
Jornal de Negócios, 2 de Outubro de 2015

fotografia

Advertisements

4 thoughts on “Entrevista JN

  1. Era exactamente o que eu ia dizer. E permito-me acrescentar que a constatação que Raquel Varela faz: ” Sem resistência social organizada não vai haver nada a não ser mais declínio da vida das pessoas comuns e do país” dreve Raquel Varela, mas era necessário passar à etapa seguinte, que é de organizar a resistência.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s