Falta-nos a patente da ignorância

Pediram-me um parecer internacional de um projeto. Além de sugerir à Instituição que por favor ceda o meu nome e o correio electrónico aos meus colegas, que acabei de avaliar – tenho problemas morais sérios em avaliar colegas de forma anónima – pedem-me para avaliar a capacidade de um projecto de “estudo das relações laborais decentes” (conceito da OIT), produzir “patentes e transferência de tecnologia”. Aqui fica a resposta que deixei no formulário oficial.

“O desenvolvimento de patentes e condições de proteção da propriedade intelectual não deve ser um critério de análise deste projeto pois estamos a analisar ciência fundamental e não aplicada. A aplicação da investigação neste campo cabe ao poder político – não existe uma máquina que possa ser inventada para introduzir na sociedade relações laborais dignas, trata-se de um processo histórico e social, cuja aplicação depende do poder político e organizativo da sociedade. O seu estudo, realizado neste projeto por uma vasta equipa de investigadores é o requisito mínimo para que estas possam ou não no futuro a vir a ser aplicadas – uma vez que não se pode aplicar o que não existe. Além de que, friso, se há investimento público que suporta a investigação é natural que os seus resultados fiquem disponíveis ao público e não sejam patenteados”.

Um dia destes, quando tiver tempo sobrante, farei um projecto, naturalmente em inglês, competitivo segundo os melhores critérios internacionais, de estudo da ignorância e da mercantilização do saber nas universidades, e assegurarei que o output principal será a construção de uma máquina, brilhante, daquelas que basta olhar, e ela assusta-se, apita e faz o que pensamos, patenteada, porque inovadora, única no mundo – a máquina para desligar a ignorância.

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One thought on “Falta-nos a patente da ignorância

  1. Na minha opinião, a dificuldade reside precisamente na subordinação do poder económico ao poder político. O poder político é uma megera que aprisiona, que reprime o poder económico. Pergunta-se, quem controla o poder económico? Será o consumidor que direcionará a economia. Atualmente, o poder económico corrompe o poder politico que por sua vez condiciona o o cidadão nas suas liberdades. Pode-se equiparar esta relação promiscua com o controlo dos sindicatos pelos partidos políticos.

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