Sem (estas) alternativas

Imaginem que num grande jantar com muitos convivas nos colocam dois pratos a escolher, um bitoque, com salada de alface, e um hambúrguer, no pão, e nós debatemos longamente qual o melhor. Um de nós, na ponta da mesa diz peixe grelhado com grelos salteados. Todos naturalmente vão olhar para ele com espanto e comentar: “Olha a lata, a viver acima das possibilidades… – pagas a conta à parte!”. Estou fora do país e no meu mural as referências que aparecem aos debates são de um pugilato, quem “ganhou” e quem “perdeu” o debate do fulano a e do beltrano b. Tive muita dificuldade em ver a claque defender a posição do seu candidato, apenas a vejo defender o candidato, e neste estilo “derrotou”, “venceu”, “arrasou”. Vi duas ideias que aparecem como de esquerda, um conceito demasiado amplo para explicar seja o que for hoje em dia, ideias que aparecem sempre interligadas na campanha – a candidata do BE, que defendeu que o problema da segurança social era o desemprego e a imigração e recentemente António Costa que diz que os refugiados são importantes para colmatar o problema demográfico.

Partilho convosco a minha opção por salmonetes grelhados com azeite caseiro, porque já os paguei em trabalho e em impostos, esperando que não comecem a gritar que só há dinheiro para bitoques e hambúrgueres, que gritarias a definir o futuro de toda uma sociedade não é um bom método: há um problema grave de desemprego em Portugal porque destrói a vida das pessoas, e isso é o que deve contar em primeiro lugar na política, das que estão a vegetar desempregadas, das que viram o seu trabalho duplicar porque fazem o trabalho das que estão desempregadas. O pleno emprego, a única forma de salvar a economia, está fora de qualquer campanha dos partidos. Pode estar em linhas pequenas de rodapé mas não é tema de campanha – naturalmente não voto em nenhum deles, porque esse, o tema do pleno emprego, e a moratória sobre a dívida que o assegura, é hoje o tema central da sociedade e do qual depende qualquer melhoria da vida das pessoas – quem diz que vai melhorar o país sem uma moratória sobre a dívida pública está a mentir, e com o que se sabe hoje sobre o Estado Social e a origem da dívida está conscientemente a mentir. A sustentabilidade da segurança social hoje seria possível mesmo com os activos empregados e os desempregados que temos porque a produtividade do trabalho subiu 430%. Esse é o dado que conta – multiplicámos por 5 a riqueza produzida por cada trabalhador desde 1961. Onde foi parar o dinheiro? Tão pouco se pode taxar as empresas de alta acumulação – a famosa taxação do valor acrescentado, referida por Catarina Martins –, se estas não forem nacionalizadas porque a fuga de capitais é inevitável. Mas falar da expropriação das grandes empresas não dá votos, mesmo que essa seja a única forma de salvar os desempregados e as pequenas empresas, atoladas em pagamentos, nomeadamente à segurança social.

Do outro lado o eterno “problema demográfico”. Ora, nós não temos nenhum problema demográfico, nem na segurança social, nem no equilíbrio populacional, nem na composição social da sociedade, em lado nenhum da humanidade está escrito que ter uma sociedade mais envelhecida é um problema e que no ocidente está em risco a espécie humana. Vejamos, é grave as pessoas desejarem ter filhos, por exemplo, e não podem porque estão desempregadas; mas não é grave ter uma sociedade em que muitas pessoas envelhecem. Porque precisamos nós hoje e nas próximas décadas de mais pessoas com 20 anos? Para garantir o quê que não está garantido hoje com os meios que temos? Na Holanda contam-se aos milhares de pessoas com 70 anos que têm uma vida física, mental e social mais activa do que muitas pessoas com 30 anos em Portugal – na Holanda namoram, passeiam, fazem férias de bicicleta, canoagem e ao Domingo bebem uma cerveja numa matiné de jazz cantarolando. Em Portugal quantos milhares de pessoas com 30 anos, nem falo com 70, estão obesas, fechadas em casa, sem dinheiro para consumir, sem acesso a espaços verdes, a boa alimentação, a cultura etc.? Numa frase o problema não é ser velho, é ser pobre. O problema das nossas sociedades chama-se salários – não se chama nem sustentabilidade da segurança social nem demografia. É salários. E esses não são “adquiridos”. São “conquistados”. Às vezes são também “perdidos”, sobretudo quando se fica em frente da TV a decidir se vamos ser pobres ou muito pobres.

https://youtu.be/sHiD5JDIPCU

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3 thoughts on “Sem (estas) alternativas

  1. A maldição esquerda/direita persegue-nos e não nos deixa atinar com o caminho . Os trabalhadores não são esquerda nem direita ! São trabalhadores ! Reduzindo a luta política a um combate entre esquerda e direita ( coisas relativas com conceitos flutuantes) não deixa espaço para os trabalhadores lutarem pela sua ( e de outros) emancipação . Nestas eleições , como em todas as outras , o combate é entre fracções da burguesia ! A demagogia campeia ! O vencedor destas eleições ( e de todas as outras) , sentindo-se UNGIDO , vai fazer o que lhe aprouver porque arrotará reclamando ter conquistado legitimidade pelo voto . Vociferá que só pode ser julgado nas urnas . Quem promete e não cumpre é um VIGARISTA ! Mas eles fizeram as leis que os inocentam
    É possível encontrar o caminho porque . . .ele existe !
    É necessário desmascarar aqueles que perverteram o marxismo para manietar politicamente os trabalhadores .

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