Hungria: 1956-2015

O que hoje se vê na Hungria não começou agora. Quando visitei a Hungria fui convidada para um debate sobre a esquerda europeia da revista Consciência, excelente revista, que reúne o que sobrou dos intelectuais de esquerda do país. Um deles, o historiador e professor Támaz Krautz, marxista, de origem judaica, tem aquela que é neste momento reconhecida entre os pensadores críticos como a melhor biografia histórica de Lénine. É também um dos intelectuais de esquerda com espaço na TV, ainda que raro. A sua voz tem sido escassa e marginal contra aquele que é o país da Europa, de longe, onde a extrema-direita tem mais força. Na Hungria não se mandaram abaixo só as estátuas de Estaline – bem caídas – mas as que homenageavam o soldado russo – 20 milhões pereceram em 1939-45 e a Hungria deve-lhes muitas estátuas. O ambiente era portanto entre os intelectuais que me receberam devastador, depressivo, triste, ansioso – aliás eles quando falavam em húngaro eu só entendia algumas palavras e entre elas com frequência ouvia Kaput, Katastrofe. Nunca pisei um solo onde se sentisse tanto o peso da marginalidade entre os sectores criticos. Ora num encontro inesquecível pedi para ir aos banhos públicos da corrente termal do Danúbio, mas uns que não fossem turísticos. E lá me levaram, mais longe do centro. O circuito demorava 2 hora e meia, começava numa piscina exterior e terminava numa piscina pequena, de cerca de três metros de diâmetro, a 41 graus, onde, de fato de banho, naturalmente, entrávamos e bebíamos água com forte componente de enxofre para a asma -, males de corpo e de cabeça. Sentados, na água quente, conversávamos lentamente, meio adormecidos. Támaz fez questão de me apresentar os homens e mulheres que estavam na piscina. Todos tinham como ele cerca de 70 anos ou mais. Era a ex-directora de uma instituição pública, era o ex-director da Universidade de Budapeste, o ex-director da Faculdade de Economia, ex-embaixador da Hungria na Venezuela e eu, atónita, como quem vê e vive um bom documentário histórico, telefonei para casa dizendo que tinha acabado de tomar banho com o politburo do ex Partido Comunista Húngaro – o que deixou a família preocupada e eu a rir-me sem parar. Conto repetidamente a história em jantares, de tão improvável e hilariante. Fiquei, porém, com uma pergunta presa, que não tive coragem de lhes perguntar, tal era tristeza deles, pela subida vertiginosa da extrema-direita: onde estavam eles em 1956 quando a Hungria foi invadida pelos tanques soviéticos? Hoje não se pode compreender a Hungria sem compreender o apoio de tantos intelectuais de esquerda e pessoas com responsabilidade à política externa desastrosa da URSS. Às vezes levamos 50 anos para colher as opções trágicas que tomámos. Mas elas chegam. E não raras vezes é tarde para voltar atrás.

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