Glória

Quando a Glória chegou a nossa casa, dois meses depois dos meus gémeos nascerem, tinha eu 25 anos, eu era uma espécie de cadáver – tinha perdido 30 quilos em dois meses, 15 deles, 15 meus – e estava há 2 meses sem dormir, porque em alternado os meus filhos mamavam de hora a hora, hora e meia no máximo. Em humor negro costumava dizer aos meus amigos para não nos visitarem porque a minha casa estava pior que Bagdad, recém bombardeada. Um pequeno barulho soava na minha cabeça como um terramoto, as coisas caíam-me das mãos, e eu pensei que não ia conseguir – o sinal médico de colapso veio quando os meus musculos da face começaram a mover-se involuntariamente. A ideia de chamar alguém para cuidar dos meus filhos era então intolerável para mim, como ia confiar em alguém de fora da família? – mas o colapso físico e a estrita recomendação médica obrigaram. A Glória cuidou melhor deles do que eu: cantava-lhes no banho, ria, sorria, embalava-os, sabia de cor o que significava cada choro, conversava com eles, contava-lhes histórias, eles riam, de gargalhada, para ela – e eu fui recuperando com calma o peso e a sensatez. Quando se foi embora para Inglaterra, 6 meses depois, onde foi ser operária numa grande fábrica de frios, e onde ficou doente gravemente pelas temperaturas extremas, foi com os filhos dela, mas com os meus ao colo, abraçada, chorou nesse dia toda a manhã, das saudades que ainda hoje nos separam. Um dia destes veio aqui ao meu mural dizer que era inaceitável não se receber os refugiados porque ela, ela tinha sido refugiada em Portugal da guerra de Moçambique, de onde tinha fugido com a família.
Nem eu me lembro do dia em que ela chegou a Portugal, nem os meus filhos se lembram dela mas é bom que eles saibam que eles são o que são porque a tiveram também como mãe e nós, nós somos o que somos porque temos um passado de milhões de pessoas assim, que um dia com o seu trabalho nas condições mais difíceis construiram tudo o que temos hoje. Espero que ela saiba, como a Guida e a Sandra, que deles cuidaram depois com o mesmo amor, que os meus filhos são também delas e que a alegria e o orgulho que têm neles foi por elas também construído.

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2 thoughts on “Glória

  1. Muito significativo este episódio de vida. Grato por com o seu relato, provocar consciências, alertar sentimentos. Lamentavelmente, a generalidade dos centros de decisão, como muitas estruturas religiosas, político-partidárias, como também grande parte do movimento associativo, permanecem afastados do que deverá ser o seu dever.

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