Os Novos Judeus

Compreendo a necessidade de “humanizar” pela imagem os refugiados – são crianças, doces, bem alimentadas, mães, engenheiros, treinadores de futebol – o Iraque e a Síria eram sociedades complexas com elevado grau de formação da força de trabalho – as suas capitais são escolarizadas, com importantes sectores médios formados. Mas eles não precisam de ser doces para nós termos a obrigação de os receber. Não por acaso Primo Levi, que sobreviveu a Auschwitz, escreveu Se isto é um Homem, e chamou ao seu relato “Se isto é”. Ora, pois. É. Se chegarem a Lisboa sirios mal alimentados, afegãos feios, e egípcios a rezar a nossa obrigação é dizer “Isto é um homem”.
Hoje os muçulmanos são tratados por uma parte dos europeus como eram os judeus na primeira metade do século XX – não pode ser, não podemos repetir a tragédia. Ninguém tem que gostar da religião de ninguém, o que nós todos devemos uns aos outros é respeito e civilidade, pelo menos. Eu sou ateia e a maioria dos portugueses é católica – isso não nos afasta, porque eu não ando com soberba a explicar-vos como a vossa crença é bárbara e obscurantista nem vocês atrás de mim ameaçadores a chamarem-me bruxa ou infiel. Porque evoluímos, aprendemos a respeitar-nos nas diferenças, a democracia é isso. Aprendemos que há muitas razões, e muitas sociais e humanas, para as pessoas optarem pelas religiões ou ausência delas – medo da morte, da doença, da insegurança, grupo familiar, relações de proximidade, relações de trabalho, no caso dos muçulmanos e dos pentecostais é em países onde não há o Estado Social que a Igreja surge também como, e quem sabe principlamente, uma teia de relações sociais, onde se partilha ajuda, comida, cuidar das crianças, etc. Há neuróticos – e mercenários – que querem escravas sexuais e degolam pessoas, mas a maioria dos muçulmanos tem em Maomé a sua rede gregária de sobrevivência e não uma bomba na barriga.
Eu odeio terror, de qualquer índolo, físico e verbal, não defendo nem nunca defenderei o mal menor do terrorismo, nem o mal menor da política. O mal menor para mim não é bitola para nada. Não apoio terroristas, de Estado ou esfarrapados, ocidentais ou medievais. Mas estes milhares de pessoas, milhões, estão a fugir à guerra, os Estados desapareceram, estão esmagados entre bombas, sem casas. Vamos acolhê-los, que a esmagadora maioria deles, como aliás no mundo inteiro, vai viver a sua fé, a sua cultura, a sua vida em paz com os outros, ajudar os outros, contribuir para a sociedade. E nós não temos dinheiro é para sustentar a pândega nacional que têm sido os governos do PS e do PSD nas últimas décadas. É óbvio que temos dinheiro para dar a mão a refugiados, até porque, volto a repeti-lo, do ponto de vista económico, pelo consumo, impulsionam a economia.
Estou por estes dias numa pátria que me acolheu há muitos anos – o Brasil, onde há pobres violentissimos mas a esmagadora maioria dos pobres fazem 5 horas de transporte para ganharem o suficiente para chegar ao fim do dia e pagar a casa e alimentação, e fazem-no tratando-nos com doçura, simpatia. O jogo de espelhos da TV diria o contrário, matam-se a toda a hora, a mesma TV que conta a história do bombista mas não o relato dos milhões de muçulmanos que saem de casa todos os dias para levar a vida para a frente, num mundo governado por quem anda para trás. Não poderei estar Sábado na manifestação de boas vindas aos refugiados. Mas se aí estivesse, estaria presente – porque mais um faz a diferença.

Advertisements

3 thoughts on “Os Novos Judeus

  1. Muito bem, aliás como sempre, toda a análise desta situação dos refugiados e do xenofobismo, racismo, de que grande parte das intervenções nas redes sociais, sobretudo, vão surgindo.Falta muitas pessoas como a Dra. Raquel Varela, que dêem a cara e ponham a nú a miséria dos politicos que temos tido e o mal que nos têem feito.

  2. Esqueceu-se de investigar acerca da possibilidade da Arábia Saudita receber os refugiados. Na verdade, este país pode receber cem mil refugiados e tem habitações construídas para cerca de três milhões de refugiados. Não investigou e, como de costume, fez uma análise de acordo com «aquilo que acha ser». Quando é assim, a análise não vale.

  3. Que figurão de estalo sr. Paulo! A questionar ligeiro a idoneidade e honestidade da investigação científica da Doutora Raquel Varela. Resumindo, porque a vida é curta, leu ou alguém lhe falou – em transcrição já da BBC – a imprensa generalista e apressa-se a achincalhar a ilustre editora deste blog. Deveria saber, caso se meta mais vezes a investigador, no futuro, que não se aprende sozinho e que no campo analítico há autoridades e especialistas a referenciar. Sempre.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s