Para onde vai Portugal?

Fora da ficção o meu livro Para onde vai Portugal? foi o mais vendido da feira do livro de Lisboa. Não ficarei rica com as vendas, como sabe quem trabalha com livros, em Portugal lê-se pouco e a quebra do consumo interno coloca de facto em causa a remuneração simples do trabalho dos escritores, que precisam de vender para continuar a escrever, como é óbvio; mas enche-me a alma saber que fiz um ensaio de economia e sociedade que merece atenção, crítica e debate por parte de tantas pessoas – naquele que foi de longe o ano horribilis da minha vida em matéria de trabalho acumulado, com o meu trabalho na universidade, a Barca do Inferno e mais de 70 viagens, escrevi o livro na calada da noite roubando ao sono tempo. Poder discutir o declínio do capitalismo, a queda da taxa de lucro, o papel dos trabalho e sua centralidade na sociedade, a dívida ou as origens históricas do falhanço da oposição política em Portugal, a modernização pelo atraso, com muita gente fora da academia é uma prenda que não tem medida monetária para mim. É uma vitória, grande, uma das mais importantes que tive no meu percurso público e intelectual ao longo da minha curta vida – o conhecimento profundo dos fenómenos pode ser escrito de forma a chegar a todos, que não os especialistas – esse desafio, que leva tanto tempo, leva tanto tempo a saber como a saber divulgar o saber, exige escrever e rescrever, pensar e voltar ao início, apagar de novo, é uma das coisas que sem qualquer falsa modéstia me orgulho porque a expropriação do conhecimento permanece um dos grandes problemas da nossa sociedade. Numa democracia o conhecimento é colocado de formal real ao serviço de todos e as escolhas da sociedade não podem ser feitas com uma catadupa de conceitos obscurantistas a que a maioria da sociedade não tem acesso porque há uns especialistas encerrados na universidade ou nos espaços de decisão que assumem assim as escolhas pelos outros.
As ideias não têm pernas, as melhores ideias precisam de organizações políticas, mas tão pouco nos servem pernas sem ideias sustentadas. A divulgação científica, neste caso das ciências sociais, humanas, não é uma disciplina menor do que a produção cientifica, é isto, em suma, que acho importante dizer de novo. Daí a minha felicidade uma vez que coloquei como desafio a mim prórpia que ia não só arriscar debater a evolução do país do século XIX aos dias de hoje, em diálogo crítico com as teses de José Gil e Eduardo Lourenço, e as da oposição histórica – Cunhal e Soares – e actual (BE e PCP e as teorias do investimento sem questionar a produção de quê, para quem, por quem), mas fazê-lo de forma a que não simplicando a realidade, a escrita chegasse a todos. Jamais teria escrito este livro, quero sublinhá-lo porque não é mera diplomacia, sem a ajuda imensa, o debate intelectual que tive e tenho regulamente com Marcelo Badaró, António Simões Do Paço, Renato Guedes, Valerio Arcary, Betto della Santa, Felipe Abranches Demier e com José Martins da Crítica de Economia. Ao contrário de alguns alunos que me passaram pelas mãos, numa atitude lamentável que virou moda, a bem da verdade dentro e fora da academia, a comunicação social está cheia disso, raramente penso, digo ou escrevo alguma coisa porque me veio à cabeça, raramente escrevo sem me sentar e debater com aqueles com quem tenho mais diálogo intelectual e que me ensinam – não sou nem nunca fui auto-suficiente. António, Renato, Betto e Felipe leram, assinalaram erros, fizeram propostas e correcções do livro, de fio a pavio. É deles também o livro.
“Entre os livros que venderam melhor na feira contam-se os do autor de sagas juvenis Robert Muchamore (Porto Editora), mas também os mais recentes títulos de José Luís Peixoto, Galveias (Quetzal), José Eduardo Agualusa, O Livro dos Camaleões (Quetzal), ou Richard Zimler, A Sentinela (Porto Editora). Aos quais se soma um título que escapa ao predomínio da ficção, Para Onde Vai Portugal? (Bertrand), da historiadora Raquel Varela.”

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2 thoughts on “Para onde vai Portugal?

  1. E a força que esse livro me deu! Fez-me renascer de uma hibernação de que não queria saír.
    Haja alguem, como a Dra. Raquel Varela, que salte os muros e grite bem alto, VIVA O POVO, abaixo a mentira, a politica suja, o favorecimento do capital, quando a maioria dos patrões não sabem como sê-lo, querem apenas e o mais rápido possível encher os cofres e vangloriar-se das suas sujas vitórias.

  2. Boa noite Doutora Helen Gurley Brown disse, a propósito das mulheres emancipadas e das outras, que “as boas raparigas vão para o céu, as más vão para todo o lado”. Portugal é uma mulher que vive à custa de um marido rico que a trata com sobranceria e a obriga a anular-se, impondo-lhe um regime de austeridade, trabalhos domésticos e pouco alimento. É boa? Obedece e aguenta ganhando o céu? Ou é má? Revolta-se e liberta-se e divorciada corre para todo o lado? Para onde irá esta mulher? Um abraço. António

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