Ich bin Europaer

Não há nenhuma reacção de extrema-direita na Europa aos refugiados, e quem a propaga dá voz a uma tese absurda que vem de há muito sobre o perigo do fascismo na Europa, que é hoje, na actual conjuntura, um absurdo – é o eterno papão, agigantado pela comunicação social como quem diz “europeus isto é mau com estes governos mas fiquem quietos que pode ser pior sem eles”. A reacção esmagadora de milhões de europeus é de indignação generalizada e oferecem-se para ajudar, estão desorganizados, não têm associações, partidos, sindicatos que possam organizar a ajuda que querem dar e ficam na mão dos seus Estados, agoniados por não saber onde se dirigir para oferecer ajuda – na ausência de organizações com um cunho progressista, cultural e humano forte restam as ONGs, indirectamente controladas pelo Estado, e a Igreja, que nunca se desorganizaram e que nas horas chave assumem, com contradições, este processo, isto é, actuando na assistência urgente mas incapazes de propor políticas de fundo sobre os problemas. É dos keynesianos e dos partidos social democratas que parte a tese, que chega às televisões como uma faísca, de que há um perigo real de fascismo na Europa. Essa tese irreal oculta outra bem real – que a social democracia europeia está numa crise profunda porque deixou de ter direitos sociais para distribuir – pacto social – e está temerosa de uma luta “dos de baixo” na Europa. As manifestações até agora na Europa foram pelos refugiados e não contra eles, e os casos de xenofobia são absolutamente pontuais, agigantados – volto a repetir – pela comunicação social. Foi na Alemanha, dos alemães, que até agora vieram as maiores demonstrações de generosidade. A Europa tem Durão Barroso e Blair – que deviam estar a ser julgados no Tribunal de Haia – mas também tem milhões de europeus com as mãos limpas, a cara erguida e o coração destroçado. Por isso, os posts e artigos a dizer que “a culpa é da Europa”, “a Europa é o problema”, “a Europa merece” esquecem uma linha fundamental – que na Europa não estamos todos no mesmo barco e há uma linha que separa os europeus dos governantes europeus.
Eu sou europeia, não me envergonho disso, orgulho-me, e não sou nem nunca fui representada pelos criminosos que têm estado ao leme do continente onde as maiores atrocidades mas também os mais belos actos de resistência foram cometidos. Não se esqueçam nunca que com todos os efeitos e defeitos do pacto social do pós 1945 é aqui que está de longe, muito de longe, a classe trabalhadora, em média, mais consciente e civilizada do mundo – é o único continente do mundo onde é possível chegar a um país e a maioria dos seus cidadãos, incluindo os que votam nos partidos conservadores, são a favor do Estado Social, da saúde para todos, da escola para todos. Se saírem da Europa vão descobrir que ainda vigora o princípio entre os sectores médios dos EUA, da América do Sul, da Ásia, de que os pobres não têm direitos e naturalizou-se a segregação social em partes da sociedade a níveis que permanecem inaceitáveis na Europa – à margem nestes continentes está uma esquerda corajosa que luta mas que enfrenta níveis de consciência médios da população atrasadíssimos, em que a barbárie foi banalizada. Calma a disparar sobre os europeus e, tenho-o escrito vezes sem conta nestes anos, mais cautela ainda a condenar a Alemanha como um todo. Merkel não quer refugiados alguns no país que governa mas a indignação dos trabalhadores alemães está a impor-lhe essa reacção – não vemos na comunicação social a pressão social real que os alemães, os sindicatos, mesmo os afectos ao SPD e ao Die Linke, a própria democracia cristã no seus sectores mais sociais, está a fazer sobre o seu Governo. Os Estados europeus estão paralisados não só pela avalanche de pessoas que chegam, que são perfeitamente enquadráveis economicamente, estão em pânico porque isto está também a provocar nos europeus um salto de consciência sobre os efeitos das politicas que têm governado o continente nas ultimas décadas. O pequeno bebé morto dilacerou-nos a alma e deixou claro a milhões de pessoas que até aqui ignoravam os efeitos da guerra neo-colonial norte-americana e europeia pelo domínio das matérias primas, que a democracia não pode continuar nas mãos destes governos.
A Revolução Russa não pereceu em 1927-28, pereceu antes com a derrota da revolução alemã em 1919-1923 e com ela germinou-se a ascensão do estalinismo e do fascismo. O atraso bárbaro dos povos russos, da economia devastada não permitiu uma revolução social com abundância para todos, mas sim pobreza. E pobreza vem agarrada sempre, a curto prazo, a ditaduras. Estaline foi o produto do atraso, e não a prova irrefutável da impossibilidade de derrube civilizado do capitalismo. Estaline foi a prova irrefutável que se queremos construir uma sociedade livre e igual não podemos abdicar dos trabalhadores mais qualificados, das técnicas, da ciência, do saber, da indústria, da força social de quem-vive-do-trabalho nos países mais ricos. A história tem um elevado grau de previsibilidade, acreditem. Não se repete mas é uma luz que abre clareza sobre o futuro. Sem a maioria da população alemã, não vai haver nenhuma Europa nem nenhum mundo decente.

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