A ideologia do empreendedorismo esconde uma multidão de trabalhadores convencidos ou coagidos a tornarem-se «empresários» ou «donos dos seus próprios negócios» (…) uma start-up criada em 2006 tinha uma probabilidade de cerca de 3% de sobreviver ao quinto aniversário. (A esmagadora maioria termina a sua aventura empresarial cheio de dívidas, tendo gasto as suas poupanças ou da família e sem emprego; muitos com dívidas à Banca que entretanto comeu os juros do empréstimo da “ideia inovadora”; na TV passam os bem sucedidos 3%…). Talvez fosse mais fácil ao camelo da Bíblia passar no buraco da agulha…
A recuperação do espírito de pleno emprego é uma emergência histórica, uma das certezas inabaláveis do nosso destino comum civilizado. O pleno emprego é a única forma de evitar o rebaixamento salarial aplicado a toda a sociedade e a única garantia de sustentabilidade do Estado social e da Segurança Social. É uma exigência civilizacional mínima, é a proteção de filhos e pais, que estava nos programas e nas campanhas públicas dos partidos social-democratas na década de 70 e hoje, com cinco vezes mais desempregados, foi abandonada. Sindicatos e partidos da esquerda metem-no num cantinho dos seus programas, com letras pequenas.
Excerto do meu livro Para Onde vai Portugal? (Bertrand, 2015)
Eu não conheço ninguém que tenha enriquecido a trabalhar. Ainda no início do mês o insuspeito WSJ perguntava aos leitores qual a ideia que tinham do segredo para a riqueza de Donald Trump, e, generosamente respondia. Não é mais esperto, não é mais trabalhador, não recebeu mais heranças, não é mais empreendedor que vocês. O segredo da fortuna de Donald Trump é apenas e tão só porque o Donald vive à custa do nosso dinheiro. Isto inclui, entre outros esquemas, o mais recorrente na sua bonita carreira de capitalista desenfreado: declarações múltiplas de falência. Cuja consequência é sempre imputar as perdas aos credores e lesá-los. O jornalista, para terminar, ainda dava uma dica aos estudantes universitários. Esqueçam ter de trabalhar nas férias para pagar o curso. Arranjem um cartão de crédito e gastem à força toda. Depois, façam como o Donald, declarem-se insolventes. Nos States estas dívidas do cartão são automaticamente anuladas com a falência. Um abraço Doutora António
Em miúdo ouvia os mais velhos contarem o “conto do vigário” que geralmente consistia no golpe do malandro tentar vender um elétrico da Carris ou a estátua do D.José a desprevenidos e ingénuos provincianos chegados à capital.
No século XXI a coisa é mais sofisticada. Depois dos esquemas em pirâmide e das promessas do reino dos céus, já aqui na terra, ei-lo que chega: O EMPREENDEDORISMO! A receita “sagrada” para os desempregados vencerem a crise. Quem ganha? Os super-patrões, demagogos, políticos mentirosos, a banca privada (a emprestar dinheiro com juros pornográficos). Para a maioria das cobaias a falência e a miséria.
http://www.researchgate.net/publication/262184651_impacto_do_micro-negcios_na_economia
fiquei interessada em ler, logo que tenha tempo.
Uma visão realista (rara) do “empreendedorismo” em Portugal. Excelente artigo.
Raquel Varela, até para se ser empreendedor é necessário…ter cabeça. Os empreendedores que refere, pouco sabiam do negócio que iniciavam (pensavam que sim) e a grande maioria ao ver-se com dinheiro da UE a fundo perdido ( porque será que a Raquel não refere as coisas como elas são? humm…), pois a grande maioria em vez de perceber que tinha de procurar os negócios em vez de estar à espera que os negócios os encontrassem…foi gastando o dinheiro nuns carritos (alguns para a empresa…e já agora que sou patrão, um para mim dos bons) e já agora um créditozinho (baseado na expectativa de lucro ainda não realizado, mas esperado com fé mais do que com trabalho) para comprar..a casita (o sonho de qualquer portugues que chega a patrão). este tipo de “empreendedores” que proliferaram logo que os fundos comunitários começaram a entrar no nosso país, criavam emprego de recibo verde (claro! A Raquel nunca ouviu dizer que “nunca sirvas a quem serviu”?), assim aumentaram sobre uma base empresarial inflacionada, o mau emprego e distorção das estatísticas da contribuição fiscal (com recibos verdes, a ganhar 500 euros com alguma sorte, sem receber quando estava doente e sem subsidio de desemprego se a coisa desse para o torto… como raio podia o trabalhador pagar a segurança social a começar em 150 euros de base?). Pois Raquel Varela:) maus empreendedores são tão lesivos como maus políticos (creio que ainda são piores). Reveja a matéria, please (mas não só a do “bloco” que lhe interessa) 😉 a menos que se esteja a referir ao pleno emprego que se negoceia convidando uma grande multinacional a instalar-se no país…porque essas só vêm se a mão de obra for mais barata ou se lhes dermos beneficios fiscais, não é? A resposta mais adequada está nas pequenas e médias empresas…mas com gente de juízo e empreendedora a sério (sem ser dos que estão sempre à espera de subsidios, esses deram o resultado que refere) ;).
Penso que a análise neste comentário foge ao cerne da questão exposta pela autora. O empreendedorismo descrito retrata o modelo dos anos 80 e 90, da época das “vacas gordas”, mais do que o modelo atual em que o empreendedorismo diz sobretudo respeito a micro-negócios, extremamente vulneráveis ao corporativismo e em que cujos empreendedores raras vezes vivem só daquilo em que empreendem. É errado que as pessoas sejam “empurradas” (o verdadeiro termo para “incentivadas”) a tornarem-se empreendedores a bem da redução da taxa de desemprego e desresponsabilização de um estado que se diz social. Concordo que nem todos foram feitos para serem o seu próprio patrão, criarem negócios ou postos de trabalho, mas esta oportunidade não pode ser oferecida a qualquer um sem que quem a oferece seja responsabilizado, no mínimo, por fazer devidamente essa mesma avaliação.
Magnifico! Sempre a ”bater na ferida”,…nunca mais se cura.
Subscrevo tudo que está falado nesse post. Ótimo esse
post, congratulações para vocês.
Raquel, é suposto que a maioria dos negócios falhe; portanto o seu título «O Falhanço do “Empreendedorismo”» é apenas a descrição de como o universo funciona.
A maioria falha? Sim, é suposto. Então, qual é a novidade?… O contrário é que seria novidade!
É por causa da possibilidade de falhar, que há risco!
Se não existisse tal possibilidade, o risco empresarial não existiria!
E não é preciso ser-se pequeno para falhar: Richard Branson lançou negócios que falharam.
Mas, curiosamente, ele começou com um micronegócio ainda adolescente!
Logo, é possível!
Desde que seja o negócio certo, na hora certa, no local certo, com as pessoas certas.
A inferência, das suas objecões, é curiosíssima:
só o peixe graúdo deve poder investir;
quanto aos pelintras, devem resignar-se a trabalhar para aquele, pois não têm hipótese!
«E esta hein?!»