Os números que são

O debate do desemprego, como quase todos as polémicas em Portugal, roça o ridículo – fulano disse, mas beltrano diz que não. A autoridade de beltrano advém aparentemente de ser membro do Governo e a de fulano de ser representante da oposição que quer ser Governo. Passaram por minha casa, por razões familiares, dezenas de jornalistas da velha guarda, uma parte já não está entre nós, raros entre eles os que eram da minha família política, marginal ao longo do século XX, mas eram gente séria, que levantava factos, tirava dúvidas, confrontava a opinião sustentada com a propaganda, não eram escribas da opinião dos outros, nem ouvintes acéfalos da voz dos interlocutores – reformaram-se, foram postos na prateleira, desistiram, muitos ficaram mal economicamente para não sujar as mãos ou não ter que lidar com a prepotência de um editor político ou a ignorância de um estagiário mal formado e mal pago, e sempre ameaçado de perder o emprego e portanto com a sobrevivência posta em causa.
O desemprego é uma situação de imobilização da força de trabalho e portanto uma destruição de riqueza. Isto é, pode-se produzir, tem-se saúde e saber para tal, é necessário produzir-se (há pessoas com fome e terras paralisadas para não fazer cair os preços; há operários desempregados e milhares de casas a cair de podre e pessoas a dormir na rua, e por aí fora, os exemplos são quase intermináveis), mas está-se impedido de produzir porque uma alta taxa de desemprego pressiona para baixo os salários de toda uma sociedade. Em Portugal ele é em números reais 23%. Há duas pessoas que estudam estes números de alto a baixo – Eugénio Rosa e Renato Guedes, fizeram já várias apresentações públicas na Universidade explicando como se calcula o desemprego. Não existe “guerra de números”, o único debate a nível científico que existe em Portugal é se se deve incluir ou não a imigração nesses valores (nós achamos que não porque essa força de trabalho está a produzir no estrangeiro), mas ninguém ousa, entre os que estudam o tema, dizer que há uma taxa de desemprego real de 12 ou 13% – o que há é uma guerra eleitoral, de propaganda. Remeto ao meu preâmbulo – não “vale tudo”. Não se trata da opinião de a contra a opinião de b – trata-se do estudo provado de uns contra a manipulação de outros, e o desemprego do INE, que utiliza as variáveis da OIT, tem obviamente explicado e separado pelo próprio INE os métodos que o levam a retirar das taxas 10%. Com tantos trabalhos tornados públicos e explicados com detalhe não se compreende como continua a divulgar-se esta questão como se de “mera opinião” se tratasse.
O debate devia ser feito como o fazemos, não só o dos números, que há anos estudamos, mas outros dados que analisamos e que deviam ser colocados a debate público em acesso a todos: a taxa de rotatividade laboral, quanto tempo estão os desempregados nessa situação, quem retorna ao mercado de trabalho volta para ganhar menos ou mais?, volta para exerecer mais tarefas ou não?, com mais hierarquia e mais pressão?, isso diminui ou não a produtividade?, o impacto do desemprego na natalidade, a questão gravíssima dos desempregados com mais de 45 anos e menos do 6º ano – a maioria -, a perda de força de trabalho para a imigração, a depressão e a culpa; a criminalização do desemprego, o papel dos rendimentos mínimos e estágios na “estabilidade social”, o pleno emprego e o papel dos sindicatos, a legitimidade do Estado em gerir pela TSU os subsídios de desemprego…e mais uma infinidade de questões, que os media, numa democracia, têm obrigação moral de fazer chegar a todos e de guardar-nos, como a velha guarda de homens nos jornais, do poder do Estado – e não ser um braço, um prolongamento, desse poder.

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2 thoughts on “Os números que são

  1. E o chamado emprego a quem é pago um salário de 160€ , por mês, para 8horas de trabalho? Há situações escandalosas! Os nossos jovens são escravos de tudo: empregadores exploradores, das ilusões de que uma formação lhes traria mais bem estar, dos subsídios muito mal distribuídos e que só mascaram a real situação do país. ..e muito mais! Como mãe/ cidadã aguarda, com urgência, a transformação dos desvalores desta sociedade.

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