Para onde vai Portugal? Por Mário Nuno Neves

“É com muito prazer que procedo, nesta nossa Biblioteca Municipal, à apresentação do livro “Para onde vai Portugal” e que dou, mais uma vez à autora, as boas vindas à Maia, a Professora Doutora Raquel Varela que, aproveito para anunciar, vai liderar e coordenar uma equipa de investigadores que têm como objectivo elaborar uma História Social da Maia, que a Câmara Municipal da Maia decidiu produzir a propósito das comemorações que se avizinham dos 500 Anos da atribuição do Foral da Maia.
Eu, ao contrário do que é usual neste género de lançamentos – mas que é meu costume – não vou fazer qualquer espécie de síntese ou recensão literária, porque os livros não nascem do talento e suor dos seus autores para serem resumidos, retalhados ou abreviados, mas para serem lidos, de fio-a-pavio e, portanto, o que vou aqui fazer é partilhar convosco a minha impressão da obra e não o seu conteúdo específico, já que isso será vossa tarefa, como foi a minha quando a li.
Quando acabei este “Para onde vai Portugal” percebi que tinha acabado de ler o melhor ensaio que me veio parar às mãos nos últimos cinco, seis anos, com a vantagem de ser um documento que fala do nosso País e da nossa condição de seu Povo.
Um ensaio que não pretende ser nem tratado nem manual, mas que é cientificamente rigoroso, no suporte das ideias que partilha.
Um ensaio que não é, em nenhuma das suas afirmações, politicamente correcto, que não visa agradar a “partes” e que só podia ter sido escrito por uma Historiadora.
Só uma Historiadora poderia abarcar tantas facetas que caracterizam os factos e que, normal e erradamente, são tratadas de forma isolada, proporcionando assim uma leitura distorcida ou demasiado escassa dos mesmos.
Raquel Varela “agarra” na política, na economia, na sociologia e na psicologia, casa-as umas com as outras, para nos proporcionar as suas explicações e perspectivas sobre o fluxo da nossa História recente.
O quadro que nos submete do presente é sustentado pelo domínio inequívoco do passado, e é pela análise exaustiva desses dois tempos distintos que nos proporciona a janela que decidiu abrir, uma janela de esperança, para a sua visão de futuro, que a sua honestidade intelectual nos proporciona enquanto mera possibilidade.
Nesse quadro não há inocentes, não há isentos de culpa, mas há vítimas e algozes.
Nesse quadro há um País cuja riqueza colectiva é paulatina e deliberadamente delapidada em favor do lucro de uns poucos.
Nesse quadro há um País em que impunidade e a irresponsabilidade ganham foros de vento que faz girar as velas e funcionar a mó.
Nesse quadro há um País sôfrego incapaz de perceber que a palha com que lhe acenam está envenenada.
Nesse quadro há um País a quem as velhas mentiras são substituídas, sucessivamente, por novas mentiras, tornadas sempre verdades para todas as conveniências dos mais poderosos ou dos mais vendidos.
Nesse quadro há um Povo que tem sido carne para canhão, despersonalizado, tornado mero factor.
No entanto, Raquel Varela, não se limita a partilhar connosco, esse quadro de oportunidades perdidas, de actos falhados, de desperdício de energia e talentos, enfim um quadro que atesta bem a severa patologia política e social que nos acomete enquanto País, enquanto Povo. Uma patologia que não se cura nem por milagres e muito menos por acção de milagreiros.
Na sua análise dos factos, a autora, vai-nos propondo, no contraponto que faz, vias alternativas, que passam pela abordagem das questões de uma forma completamente diferente, que nos altera a percepção das mesmas quanto à sua natureza, causa e efeitos, e que nos obriga a uma tomada de consciência que só nos pode impelir à reflexão e à acção.
O ensaio termina de uma forma admirável com o recurso a uma das obras da minha vida que é “As vinhas da ira”, de John Steinbeck, um dos mais extraordinários autores da chamada “geração perdida”, um título que o autor vai justamente colher no bíblico Apocalipse, e que nos remete para a exploração do homem pelo homem e para os efeitos do acumular da raiva provocada pela pobreza infligida deliberadamente, de forma a escravizar os povos e alegadamente alicerçar os poderosos, que tontos e maus não percebem que as vinhas produzidas assim apenas têm como resultado vindimas iradas, feitas pelos humilhados que se erguem e lutam, numa espécie de Justiça Divina.
Como epílogo desta pequena apresentação, e aproveitando o próprio recurso que a autora usou como fim apropriado do seu ensaio, direi que Raquel Varela nos recorda que estamos em plena travessia da Route 66, a Via Sacra americana da crise de 1929, onde toda a miséria da América foi carregada às costas dos despojados, mas que nos cabe a nós transformar a ira que sentimos na força colectiva necessária para a mudança que se impõe. E essa mudança passa pelo fim deste paradigma louco que faz do lucro de um punhado a justificação para a delapidação das riquezas que a todos pertencem, e nesse processo doentio desfazer todas as plataformas sociais e morais que sustentam a dignidade do Homem, e a construção de um novo em que uma expressão, que para mim tem tanto de marxista como de cristã seja o elemento fundacional “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”.

Maia, 2015.VII.31
Mário Nuno Neves

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