Raquel Varela: “Os miúdos vêem bonecos brincar por eles”

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«A investigadora e professora Raquel Varela fala sobre a importância das brincadeiras não enquadradas por adultos e sobre o que mudou numa sociedade em que as crianças têm um “horário de trabalho quase tão extenso como o dos pais”. Na sua opinião, é tempo de repensar a escola, mas não com a redução de custos na cabeça.»

Raquel Varela, historiadora, professora, mãe, investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, coloca os eufemismos de lado e avisa que os miúdos não ganham nada em frente à televisão a ver histórias inventadas por outros ou com os olhos colados ao computador a observar bonecos que brincam. Nesta entrevista ao EDUCARE.PT, fala na mercantilização da brincadeira e das suas consequências. “Fomos à Lua e não conseguimos ter um descampado sem carros no meio das nossas casas para os nossos filhos brincarem?”, questiona. Os risos, os choros, as grandes gargalhadas, as caras suadas, quase desapareceram.

Os pais são insubstituíveis e podem fazer muito: tirar os filhos de casa, criar comissões de moradores que exijam espaços livres. O sistema de ensino mudou, mudaram-se as brincadeiras. As turmas têm mais alunos, os horários esticaram, há pouco minutos de intervalos entre aulas. Por isso, é tempo de repensar o sistema de ensino, a escola da cabeça aos pés. Para Raquel Varela, esse debate deve começar por uma consulta aos professores para então promover “uma discussão não condicionada à partida pela ideia de que é preciso fazer cortes e reduzir custos”.

EDUCARE.PT: Brincar é um verbo que deixou de fazer sentido na sociedade dita evoluída? O que se passou? O que se passa?
Raquel Varela (RV): A maioria das pessoas não faz ideia da gravidade do que se passa, nem sabe que a questão tem um impacto devastador em toda a sociedade, não é um problema de pais e filhos. Falamos de custos de saúde altíssimos, custos na educação, relações humanas deformadas, violência, depressão… Brincar entre crianças, não olhar só para um ecrã, é tão importante para a vida como respirar ar puro.

E: Brincadeira livre, não enquadrada por adultos, tornou-se um conceito não tolerado ou a falta de tempo dos pais ajuda a perceber que brincar já não é como antigamente?
RV: O que se passou foi a mercantilização da brincadeira, ou seja, o que era gratuito passou a ser pago. Hoje brincam os filhos de uma minoria que no verão os colocam em campos de férias, escolas de surf, etc. E estão sempre enquadrados por adultos. Nem com a Mocidade Portuguesa (organização ditatorial da juventude no Estado Novo) era assim: iam lá umas horas, cantavam umas chachadas, mas depois o dia das crianças não estava permanentemente enquadrado e controlado por adultos. Havia mais espaço para a brincadeira livre, entre crianças, onde se aprende também a criar laços e a lidar com os outros, mesmo que pelo meio haja brigas.

Agora os miúdos têm um “horário de trabalho” quase tão extenso como o dos pais e quase acabaram os grandes intervalos entre aulas. Gera-se um cansaço intelectual, que promove a desconcentração, e as horas de aulas são seguidas de aulas de estudo e outras atividades – porque os pais trabalham até tarde –, muitas vezes em espaços fechados e sob a batuta de um adulto. É um ambiente totalitário. Isso diminui o impulso para a criatividade e a liberdade, o risco e a inovação, porque a brincadeira está definida por um adulto. E cria crianças, adolescentes e adultos com grande deficiências ao nível das relações. Nós vamos aprendendo a estabelecer relações falhando, testando os limites, aprendendo as consequências de magoar, ou de ceder demais, não ouvir tem riscos, não reagir também, negociar, dar, receber, tudo isso aprendemos com os outros. Se os outros não existem, como vamos aprender?

E: Os videojogos, a televisão, os computadores, os telemóveis tornaram-se objetos diários dos tempos livres de crianças e jovens. Os brinquedos mais tradicionais terão hipótese de sobreviver ou as novas tecnologias não deixarão espaço de manobra?
RV: Deixemos os eufemismos de lado com esta questão seríssima: as crianças pequenas não ganham nada em passar tempos infinitos nestas atividades de ver televisão e jogar no computador. É uma desculpa para vender a pais cansados e levados a abdicar de lutar pelo melhor para os seus filhos. A eterna desculpa dos pais é que “ele quis ficar em casa”. Ora, não lhe foi dado a escolher entre ficar em casa e jogar computador e passar a tarde a brincar na rua com os amigos. Porquê? Porque os pais vão na corrente, estão presos pelos horários de trabalho e também pela própria inércia; porque nós, adultos, não temos o ritmo de uma criança, não conseguimos pular e gritar durante horas, ficamos exaustos e nervosos com o barulho, portanto o normal não era os pais irem para a rua, mas os filhos irem com outras crianças. Mas as ruas estão cheias de carros, cada vez que há um espaço aberto constrói-se um parque de estacionamento, a cidade é da especulação imobiliária, quando devíamos ter não parques de recreio de meia dúzia de metros quadrados mas grandes áreas de descampado seguras para as crianças brincarem.

Nos últimos anos, nos países nórdicos começaram a instalar-se escolas junto de áreas de floresta, com espaço para as crianças se espraiarem, construírem abrigos para se protegerem da chuva (em vez de ficarem dentro de casa), poderem brincar na lama e sujar-se, etc. À frente de um computador ou da televisão os miúdos não interagem, ficam híper-estimulados, hiperativos, nervosos, são colocados numa atitude passiva, não brincam mas veem bonecos brincar por eles, não jogam futebol mas veem outros a jogar, não pulam no jardim, veem um boneco pular num jogo da PlayStation.

Brincar implica, como tudo, aprendizagem. E aprendizes precisam de mestres. Antes, na rua, os mais velhos ensinavam aos mais novos as regras do jogo, não vou mitificar, havia concorrência e competição que por vezes descambava em violência, mas violência descontrolada é e continua a ser a absoluta exceção. As brincadeiras eram coletivas, implicavam jogos de dar e receber, querer ser melhor, insistir para ultrapassar a meta, jogar melhor ao pião, saber esconder-se melhor, há a surpresa, os risos, os choros, as grandes gargalhadas, caras suadas… Se ficarem em casa diante da TV vão ficar caladinhos ou a pintar desenhos, mas as consequências serão a todos os níveis terríveis.

E: Tem chamado a atenção para uma sociedade que não se sabe organizar e que a incapacidade dos adultos não saberem resolver problemas não deve ter repercussões na vida das crianças. É possível dar a volta? O que se pode fazer?
RV: Claro, fomos à Lua e não conseguimos ter um descampado sem carros no meio das nossas casas para os nossos filhos brincarem? Conseguimos operar um pulmão com um robô comunicando por vídeo e não conseguimos organizar-nos com os vizinhos para rotativamente alguém “dar uma olhada nos miúdos”?

E: Escreveu na sua página do Facebook: “Ninguém para estes lunáticos que querem crianças fechadas numa gaiola 10 horas por dia seguidas de mais quatro num apartamento a ver televisão”. A escola é uma gaiola?
RV: É, em certo sentido. Mas calma, eu não defendo uma balda em que os miúdos sejam desrespeitosos. Por mim os meus filhos levantavam-se quando a professora ou o professor entra e diziam-lhe bom dia. A escola pode ser um lugar onde nos tornamos científica e humanamente melhores pessoas.

E: Os ritmos escolares estão a assoberbar os tempos livres dos alunos? Defende que sem tédio não há progresso…
RV: Eu e todos os estudiosos da mente humana, vejam as reflexões do Prof. Coimbra de Matos e de várias psicólogos, precisamos de tempo livre, claro. Para descansar e para pensar. Para não fazer e para voltar a fazer.

E: O Conselho de Escolas sugere uma pausa de dois dias no primeiro período. Há quem defenda que a escola deve ter respostas sociais porque, por norma, as famílias só têm um mês de férias. Férias, pausas, interrupções letivas. É tempo de pensar numa reorganização do ano letivo?
RV: Completamente. Para mim tinha que se repensar a escola toda. Começando por consultar os professores e promovendo uma discussão não condicionada à partida pela ideia de que é preciso fazer cortes e reduzir custos. Primeiro discute-se com liberdade o que é melhor e corresponde às necessidades da sociedade. Depois é que se adapta às capacidades.

E: Afirma que a “estupidez atingiu os horários das crianças”. Como seria o sistema mais adequado: cinco ou seis horas por dia na escola, professores bem formados e altamente qualificados, turmas pequenas? Haverá uma fórmula ideal?
RV: Há bastante gente a refletir sobre a escola e sobre a aprendizagem em geral, também sobre a brincadeira. Professores bem formados e qualificados, turmas pequenas, são certamente necessários. Horários menos extensos que os dos adultos também. Naturalmente, quando os pais não podem ir buscar os filhos cedo à escola porque ambos trabalham longas horas, a sociedade tem de dar resposta. Mas essa resposta não pode ser transformar as escolas em depósitos de crianças. Hoje a produtividade do trabalho permite ter horários de trabalho menos longos (em vez de gerar desempregados). Por aí passa uma das soluções: pais com horários de trabalho menores podem dedicar mais tempo às crianças.

E: Qual é o papel de educadores e professores nas brincadeiras das crianças?
RV: A minha experiência com os meus filhos é terrível, as festas da escola são lamentáveis, não fazem nada com as mãos, colocam umas cartolinas no corpo a fingir um vestido qualquer e dançam música tecno para alguns pais babados filmarem. É tão mau que deixei de ir. É isto que se apresenta ao final de um ano num ATL com um grupo de crianças? Mas coloco-os em locais privados e estão uma semana num campo de férias, escrevem eles a peça de teatro, no campo, montam um palco de marionetas e fazem os fantoches. Uma semana. Agora isto devia ser público, de todos, pagamos impostos para ter educadores formados, ao nível cultural e científico, não para ter gente que ganha mal, com turmas imensas e que está a olhar para o relógio a ver a hora de sair.

E: E os pais? O que devem fazer para que o tempo de brincar seja verdadeiramente tempo livre?
RV: Tirá-los de casa, reconstruir comissões de moradores que exijam da câmara municipal espaços livres, e a mesma comissão organizar o cuidado das crianças rotativamente, por exemplo. Na minha pequena rua há oito miúdos todos da mesma idade. Nunca brincam juntos! Estão em casa a ver televisão ou na natação, no inglês, sei lá.

E: Como vê a escola dos nossos dias? O sistema está formatado para cumprir programas e metas definidos por um ministério? Há questões importantes que têm sido esquecidas?
RV: É uma questão muito vasta. Parte do que penso já está presente noutras respostas que dei. Penso que necessitamos de um grande debate nacional, com conhecimento do que se passa noutros países, envolvendo em primeiro lugar os professores, pedagogos, especialistas das várias áreas do conhecimento, pais… E não condicionado à partida por decisões políticas que exigem ano após ano cada vez mais cortes na despesa.

E: Os professores têm perdido autoridade dentro da escola?
RV: Têm, por uma série de factores. Eis alguns: turmas grandes, cortes nos salários, impreparação científica e/ou pedagógica de alguns. Outros factores não têm a ver só com a escola, mas com a sociedade em geral: o feroz individualismo; a noção da inutilidade relativa da dedicação ao estudo quando a perspetiva é ficar desempregado; permissividade da sociedade perante a grosseria, o palavrão, a cobardia da violência dos mais fortes contra os mais fracos.

A grosseria é indicativa de atraso, não de ‘liberdade de expressão’. Ao longo dos anos os professores têm sido achincalhados pelo ministério que devia defendê-los e promovê-los. Mas acho que o que funciona ainda é graças a muitos deles, porque a política do ministério, se não fossem os professores, fazia com que estivéssemos pior. Os professores são colocados perante turmas de 30 alunos, durante uns quantos meses e depois parte deles são despedidos ou enviados para a outra ponta do país; em vez de cinco anos de preparação científica universitária tiveram três anos… Enfim, se alguma coisa ainda funciona é sinal da nossa capacidade para evitar o pior.

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One thought on “Raquel Varela: “Os miúdos vêem bonecos brincar por eles”

  1. A escola é sobretudo uma fábrica de inúteis e excedentários, porquanto a proletarizaçāo dos professores e a submissão a critérios mercantis abriu portas ao Império do “cliente”.
    E neste caso, Maria de Lurdes Rodrigues teve um papel relevante ao cindir a classe docente (titulares) e em permitir introduzir os “pais” enquanto elemento de controlo e intimidação no seio do espaço escolar.
    Com o pretexto da qualidade e da avaliação a burocracia do Estado criou uma gigantesca máquina de dominação e opressão da comunidade educativa, onde já não há espaço para a liberdade e para a crítica.

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