Festa Grega

Ontem foi um dia cheio aqui, de grandes emoções, feitas de pequenas coisas. Para agradecer o carinho com que nos receberam preparámos uma caldeirada da Zambujeira do Mar, e um vatapá baiano, a Stella e o Iorgos convidaram mais amigos e, na grande varanda – onde crescem oregãos frescos, um jasmim cujas pétalas durante o jantar Iorgos distribui a todas as senhoras, pimentos picantes, bela-Luisa, e mais ervas aromáticas, algumas cujos nomes não sei – foi montada uma comprida mesa, para um jantar grego onde havia gente de Portugal, Grécia, Brasil, Turquia e França. A Stella fez um polvo grego em mel e conhaque, salada de alcaparras, salada de beringelas. Começámos com ouzo, uma aguardente de anis que se bebe com água fria, mudámos depois para um branco da Toscânia, que veio junto à caldeirada e ao vatapá de camarão, e a conversa andou à volta da Grécia, acumulação primitiva e proletarização, portanto as origens da formação histórica do capitalismo grego. A formação do estado moderno grego só está terminada, como todas as revoluções burguesas de forma violenta, na guerra grego-turca de 1918-22, uma tragédia que ainda hoje marca de forma viva o país porque o desenlace terminou com a deportação massiva de populações: 1 milhão de gregos são expulsos de noite, sem nada, da Ásia Menor para a Ática e toda a Grécia, e 400 mil turcos do que é hoje a Grécia para a Turquia. Na nossa mesa está Sungur, um intelectual turco, defensor intransigente dos kurdos, opositor ao regime turco hoje. Está também a Katerina, psiquiatra reformada, pequena, doce e vestida como na década de 40, discreta e elegante, é grega – trouxe-me de prenda um candelabro grego para eu “me lembrar da Grécia em casa”. Katerina, cuja família tem origem nas deportações da Ásia Menor. A avó da Stella, de Tessalonica, só falava turco, por exemplo, e ela, que não é religiosa, guarda em casa um minúsculo altar de madeira meio queimado, que foi a peça que milhares de refugiados trouxeram enquanto fugiam sem nada- Hemingway descreve a história no conto o Cais de Esmirna, e o filme Politika Cousine conta os acontecimento à volta também do amor e do “tempero da vida”.

A formação do capitalismo moderno precisa de várias coisas, algumas delas essenciais. Um estado nacional, conquistado em revoluções burguesas violentas; proletariado, isto é, gente que não tem nada para vender a não ser a sua força de trabalho, isso faz-se expropriando camponeses de terras, privadas ou comunais, com impostos, leis, etc. E, claro, precisa de alguém que acumule “investimento”, capital inicial, que não vem de início da exploração da força de trabalho – não há força de trabalho ainda, estamos no início da formação do modo de produção!, mas do roubo, pirataria, etc. Quando alguém me diz que tem uma linhagem rica penso sempre que tipo de ladrão era o tetravô…nota pessoal, eu também tenho um tetravô latifundiário e um médio camponês, meu bisavô o ” africano” que no final do XIX partiu para África estilo explorador e acumulou capital para comprar algumas pequenas terras, uns pé-rapados ao pé das cinco grandes famílias do Estado Novo que começaram a acumular com o Marquês de Pombal, para não ir mais longe, e terminaram a usar uma ditadura para garantir durante cinco décadas trabalho barato na metrópole, e forçado nas colônias; em Portugal essa acumulação primitiva mais recente começa na venda dos bens nacionais, guerras, usura (esquemas de dívidas), colónias, etc.

Aqui, na Grécia, os proletários têm origem diferente, por causa deste trágico acontecimento, expulsão de um milhão de pessoas, que chegam sem nada, dispostos a vender a força de trabalho por qualquer coisa, e é assim que a Grécia dá um pulo na acumulação, modernização, quando o mundo inteiro em 1929 entra em crise e florescem aqui as empresas têxteis, tabaco, etc, à procura desta mão de obra barata. É aí que Atenas começa a tornar-se numa grande cidade, aí e nos anos 60, hoje a grande Atenas tem 4 milhões dos 10 que vivem na Grécia. A burguesia grega historicamente acumula capital num regime de dependência, como comerciantes e intermediários entre a Europa e a Ásia, como mercadores do mercado negro na Segunda Guerra Mundial, e agora como banqueiros que intermediaram a ligação entre os negociantes europeus (os famosos “mercados”) e os Balcãs – daí o pânico que a Alemanha tem que a Grécia saia do europeu. Apesar do bluff que faz a Alemanha tem mais a perder do que a maioria dos gregos, afundados em dívidas, fome, desemprego, depressão por não verem futuro.

A nossa festa pantangruélica internacionalista terminou com um morgado de figo e um bolo de discos de Arcos de Valdevez, que fiz, como todo amor de retribuir o que fizeram nestes extraordinários dias por mim, fazendo desta casa um lugar onde me sinto feliz. No fim, Iorgos ofereceu a todos um CD de rebetikon, belíssima música popular tocada pelos deportados, sons mediterrâneos, árabes, e brindámos com Mastika e um licor de Aprikot caseiro.

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4 thoughts on “Festa Grega

  1. Obrigado Raquel …parabens pelo excelente trabalho … uma vez perguntei-lhe no seu FB para quando sai a notica da Fatorelli nos media … ou isso é algo q ficará para sempre na historia do youtube ?

      • ok Raquel obrigado pela resposta… penso que no Brasil já se fala disso nos media … aqui pelos vistos estamos na mesma … mas ñ é de admirar o mesmo se passa em Angola com os miudos que foram presos !! 😦

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