“Berlim não paga a traidores”

Parece ter sido dado como secundário que Tsipras aprovou um Memorando contra um referendo 48 horas antes, esmagador, contra esse Memorando.

A desculpa extraordinária que tantos europeus aplaudem é que a Grécia, cujo Memorando vai destruir o pouco que falta do país, ia ser destruída. Não sei o que me preocupa mais: que se apresente a falência dos bancos e accionistas gregos, e certamente as poupanças que sobram a alguns sectores médios (que vão ser engolidas pelo aumento de impostos e outras medidas aprovadas por Tispras para salvar essas poupanças), dizia eu, que se apresente isto como a falência de toda a Grécia, esquecendo-se que a maioria da população não tem literalmente nada a perder com a saída do euro; ou que tanta gente de esquerda venha justificar que, perante situações de chantagem e fragilidade se possa suspender a democracia. Sempre achei que havia muito boa gente de direita e de esquerda, que enchem a boca de democracia em tempo de paz, e que à primeira excepção, ao primeiro sinal da velhinha e afinal viva luta de classes, justificam a ditadura. Tsipras não é só um caso falhado de um governo de esquerda que governa com um programa alemão com votos da direita, purgando as pessoas sérias do seu partido – , ele é o homem que deu o álibi perfeito a uma UE que já não sabe o que é democracia para daqui para a frente em nome da “emergência” suspender a validade do voto popular. Esta consequência da sua absoluta capitulação política – que não decorre só da chantagem da UE mas da falta de vontade do governo para colocar sob controlo público os capitais da banca e do sector financeiro gregos, e respectivas propriedades, pode vir a custar-nos mais caro do que o aumento do IVA, a privatização do porto de Pireus ou os cortes nas pensões. Para não suspender a dívida, e não abrir uma guerra com os seus banqueiros e armadores, Tsipras suspendeu a justiça social, com um Memorando que não deixará pedra sobre pedra no país, ou seja, riqueza alguma, e suspendeu a democracia, infelizmente com a complacência de tantos democratas europeus que nos explicaram com candura e doçura de esquerda que ele “não teve alternativa”.

E se antes a desculpa eterna dos 10% que tem acesso aos media e à produção intelectual é que isto era o ” que o povo queria”, agora que falaram os 90% que estão calados no meio disto tudo, atulhados em dívidas, humilhações, trabalhos torturantes ou desemprego, que não sabem nem vão saber o que é o Euro, sabem que não têm mais como sobreviver, a desculpa passou a ser que o país ia ficar “sem comida nas prateleiras” e um tsunami e dez meteoritos iam cair em Atenas – perguntem aos 12% de população activa no sector agrícola na Grécia que com o novo Memoramdo vão desaparecer em impostos para a Alemanha e França exportarem para aqui os excedentes alimentares, se alguém na Grécia mais se ia juntar aos 40% que hoje no país, o país que foi ” salvo”, passam fome. Dito de outra forma, alguém mesmo acha que hoje os gregos precisam das multinacionais de cereais franco-alemãs financiadas pela PAC para fazer chegar comida às prateleiras? Não, agora não precisam. Mas, se o Memorando for para a frente e os agricultores gregos forem expropriados das terras com impostos e transformados em desempregados a viver na cidade de esmolas sociais dos governos de esquerda vão precisar, aí sim, “não vai haver alternativa”.

Perguntem aos africanos que, na década de 80, sob direcção do FMI e de líderes locais, provaram estes remédios de destruição da produção autónoma para “salvá-los da crise”. Encontram-nos em águas gregas, italianas…ou numa prisão para emigrantes no norte de África. A Grécia tem hoje a oportunidade única de evitar a decadência geral do país, ou o faz com tudo- suspensão da dívida, controlo da banca e capitais, expropriação das grandes empresas estratégias, nacionalização dos lucros e dos activos que podem ser investidos em produção, falência dos acionistas dos títulos falidos desde 2008-, ou vai destruir o que resta da sua população, trabalhadores, pequenos comerciantes, pequenos agricultores. Essas são as alternativas.
Muitos querem ouvir dizer que pode haver uma renegociação da dívida favorável aos trabalhadores gregos que terá que ser paga pelos accionistas alemães, ou seja, que nós europeus não vamos ter que lutar 24 horas por dia, de alma e com coragem, pela democracia social, porque os banqueiros e accionistas destes Europa vão ser sensatos e aos europeus basta votar de 4 em 4 anos num partido honesto, mais deputados para aquele, menos no outro, assim se vai andando, se era mesmo isso que alguns dos meus caros amigos queriam ouvir descansem que vão poder ouvi-lo, sem contraditório, nas próximas eleições. Faltam poucos meses para o espectáculo começar, por agora só se decide quem vão ser os artistas, nas disputadas listas partidárias, o que, justiça seja feita, já tem um cheirinho de prelúdio de show.

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2 thoughts on ““Berlim não paga a traidores”

  1. Tsipras era a ultima hipotese da Grécia (e de muitos europeus) e sucumbiu ao medo, optou por fazer oposição a poderosos adversários sem fazer “batota” e no casino sabemos que a casa da banca ganha sempre.
    Como deve saber existem muitas pessoas em Portugal de direita e centro direita que não se reveêm neste governo de Portugal e muito menos nesta Europa de diferentes culturas e em que muitos são subalternizados em favor de poucos (a Alemanha e seus satélites).
    O movimento syriza dificilmente será replicado noutros países Europeus, mais ninguém acreditará em tal possibilidade na Sua Terra, se a Grécia castigada vai para 6 anos com austeridade que não produziu nada a não ser desemprego, fuga dos melhores quadros, pobreza generalizada, destruição da segurança social, etc, se em face destes resultados não conseguiram ter a coragem e o engenho para mudar, mesmo com os custos inerentes que os havia, apesar de o terem prometido só nos resta assistir aos desenvolvimentos que todos sabem que irão ocorrer, mais austeridade, mais insegurança, mais “competividade” entre as pessoas, destruição de laços de solidariedade entre gerações, destruição da sociedade estruturada enquanto ferramenta de promoção do bem-estar individual e colectivo.
    Aliás este processo já começou mesmo antes da troika só que era mais lento, agora é mais rápido.

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