Nos mercados negros da Grécia

Hoje descobri os culpados do estado da Grécia. Estou numa ilha, Syros, onde quase ninguém fala outra coisa que não grego. O meu grego tem melhorado: canela, mel, fruta, horta, todas as palavras que são idênticas em português eu consigo pronunciar, naturalmente, não passa daí. Entrei numa farmácia e disse que me queria pesar, por favor. A senhora, sorridente como aqui são, sem excepção, todos, não me entendeu e eu gesticulei, traduzi em francês, espanhol, até que ela “há! Quilos!”. É isso, disse eu! Quilos! Chamou-me para ir com ela e eu disse-lhe se ela me podia trocar a moeda, “no coin, no coin”. Lá me pesei, tudo sob controlo, mesmo enfeitiçada por uma das melhores culinárias do mundo, pedi-lhe para pagar e ela riu-se, achando mesmo graça, “free, free”. Umas horas antes estava numa praia e recebi de Lisboa uma mensagem de um pdf para assinar, entrei com cuidado no hotel – esperando padrões holandeses, onde tudo se vende, até mulheres em montras (dizem que é um sinal de modernidade), e onde por já várias vezes nos hotéis onde eu fico hospedada me pediram para pagar a impressão do cartão de embarque, e como neste eu não estava hospedada, fui com cuidado dizendo que era urgente, que naturalmente pagava, a senhora em gestos disse-me para entrar por favor (palakalo) e imprimir, agradeci e perguntei quanto era e ela sorriu e dobrou a nuca, um sinal de “não é nada”. Como na semana passada, a Maria, que no bairro onde estou em Atenas, só me viu três vezes na vida e na segunda já me perguntava de Portugalía e me ofereceu o café, enfim, estou em condições de vos dizer que não são os dividendos dos armadores gregos que não pagam impostos, e que vivem todos em Londres, onde trabalham arduamente a pilotar navios e descarregar mercadorias, incluindo um dos maiores do mundo, um respeitável senhor, de sua graça de Latsis, conhecido nos media como “os mercados”, filho de um traficante do mercado negro durante da segunda guerra mundial – já sabem, há sempre quem faça da crise oportunidade – dizia eu, não são os activos dos armadores, armadores que nenhum governo até hoje, incluindo o do Syrisa, com ou sem Varoufakis, colocou a pagar impostos, quanto mais expropria-los dos lucros que já regurgitam – não sei se sabem que as crises não nascem por falta de dinheiro mas por excesso, gerado na produção, e o excesso é colocado em acções, dividendos, etc e os armadores gregos têm os lucros investidos alguns deles nos bancos gregos que se forem à falência levam à falência os bancos dos Balcãs – todos!, diz-se por aqui, estão amarrados aos 4 grandes bancos da Grécia, e quem sabe quanto dinheiro têm eles também investido por exemplo em fundos de pensões holandeses, a Holanda, o paraíso fiscal das empresas alemães….onde é que a história acaba? Não, não, não! São estes tipos, a dona do café de trinta metros quadrados, do hotel de dez quartos à beira mar e a empregada da farmácia que “andam a viver acima das possibilidades”.

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3 thoughts on “Nos mercados negros da Grécia

  1. Tristeza! O Zé povinho, lambe-se com os aperitivos, com a refeição e a sobremesa que lhe é servida por boa parte da comunicação social. Questionar- se não vale a pena, e assim engolem os menús e aguardam pela digestão, para repetir a dose.

  2. Obrigado por partilhar as experiências que tem tido pela Grécia e nos dar a conhecer que uma vez mais os politicos ocidentais, serventuários não dos interesses dos seus Países e Povos mas da alta finança falida e das grandes multinacionais são os responsáveis pela criação de mais um estado falhado na Europa (o 1º foi a Ucrânia).

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