Grécia, sons do dia e da noite

Zoe entrou hoje na Faculdade de Direito ovacionada. Presidente do Parlamento, advogada, foi um dos membros do Syrisa que ontem votou contra o III Memorando. A conferência académica sobre crise e democracia, planeada para esta data há meses, contava com abertura oficial dela. Não contava porém realizar-se no dia a seguir a ter sido aprovado com o Syrisa no governo um programa que arrasa com os pequenos agricultores, privatiza o resto dos portos e aeroportos, liberaliza o mercado de trabalho mais, corta valor real das pensões. Zoe chegará, com o seu enorme porte, erguida mas visivelmente triste, tarde, no fim da conferência e vem acalmar os ânimos de uma sala no “fio da navalha”. Tariq Ali tinha acabado de falar, sintetizou o simulacro de democracia que é a UE, disse que vai em Inglaterra aderir a “uma frente de esquerda contra a UE, por uma outra Europa”, que ele próprio pensava que isso seria aliar-se com a direita mas que há que acabar com a “eurofilia que se agarra a uma moeda” destrutiva. Mas disse, cito, “não tenho medo das palavras, nunca maquilhei a política real com palavras ocas, Tsirpas capitulou, podem dizer o que quiserem, explicá-lo como quiserem, mas foi uma capitulação, transformou o não que lhe cofiaram num sim, e mulheres como Zoe foram ontem a parte corajosa”.

Íamos debater o significado da crise, a produção e acumulação, o papel dos regimes políticos, a evolução histórica da UE mas o clima de tensão na sala era evidente, com gritos e palmas do auditório. Alguém se levanta para defender Tsirpas, um dos moderadores pede para se concentrarem nas intervenções, a confusão contínua e a mesa, qual parlamento em jeito de comício, fecha as inscrições e o debate é interrompido e entra Zoe. Muitos levantam-se para a aplaudir. Ela diz que “há esperança”, que só as “pessoas poderão” impedir uma tragédia, mas não diz mais nada. É uma mulher límpida, grande, que olha a plateia erguida, mas não tem nada a propor como alternativa. A esquerda social democrata, mesmo a que é corajosa, chegou ao inevitável sem ter construído nenhuma alternativa – estão literalmente a olhar a linha do horizonte, inertes. A direcção do Syrisa capitulou, a resistência dentro do Syrisa está em estado de choque – o panorama é lastimável. Não chega ser decente, é preciso um plano, uma estratégia, se estes aqui não sabem para onde vão, quem é que sabe?
Zoe termina de falar com doçura, é aplaudida e os trabalhos são encerrados repentinamente – não há debate, justamente quando ele era mais necessário.
A esquerda deverá reencontrar caminhos numa Europa unida, a começar pela necessidade imperiosa de valorizar os trabalhadores alemães, que fizeram este ano uma onda de greves inauditas no período recente, os maquinistas alemães que ao fim de 9 greves conseguiram novas contratações contra os longos horários de trabalho, direito a sindicalizar o pessoal de bordo dos comboios no sindicato dos maquinistas, por exemplo, a greve dos correios, que foi derrotada, a greve de 23 professores pré escolares, a greve por tempo indeterminado do metro de superfície de Berlim e a ameaça de greve dos mineiros de Bochum. Não há solução para a Europa ao lado dos bancos alemães, tão pouco há contra os que trabalham e vivem do salário na Alemanha.
Numa inspirada metáfora que arrancou risos e choque à sala Tariq Ali disse que a Europa hoje é mais parecida com uma família: há um pai alemão patriarcal de educação prussiana, uma mãe francesa que já tem um amante na América e vários filhos, alguns deles, como nas piores famílias, a serem abusados. Não houve tempo para debate, certamente ele concordaria que também há filhos alemães e pais gregos e a mãe holandesa também tem um amante na América. A guerra na Europa não é de nações, é dos investidores e seus bancos contra os povos, a resistência terá que vir dos povos contra os bancos, que hoje concentram a única coisa que têm medo de perder: a propriedade, na forma de títulos, acções, bens imóveis e móveis que,se não forem confiscados quem fez esta crise nunca a vai pagar.
Hemingway esteve entre 1921-23 a seguir, como jornalista, o conflito grego-turco que no ocaso do império Otomano expulsou gregos em massa, numa tragédia que ainda hoje marca o país. Ainda há praças com o nome da tragédia, pinturas, músicas. O café forte e amargo com borra aqui é café grego, e do outro lado é café turco – idêntico mas com ódio mútuo. Do seu périplo publicou entre outras um conto “No cais de esmirna”. Começa com o som dos gritos dos perseguidos e expulsos no cais à meia-noite, tinha-se saído dos escombros da I Guerra Mundial. Estamos muito longe de ter esgotado todas as alternativas. Ainda é de dia em Atenas. E vamos a tempo de reconstruir a Europa como uma família da qual apetece fazer parte.

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