Atenas: Acabou ou começou?

Eram umas 8 e meia da noite, estávamos em conversa na praça Sintagma em Atenas, no meio da manifestação contra o acordo assinado por Tsirpas. Estava a conversar com Georgos Gogos, dirigente dos estivadores do porto de Pireus, que tem lutado como poucos contra a privatização do Porto, é membro do Syrisa, mas está ali contra o acordo. Estão 30 graus, vendem-se frutos secos em carrinhos ambulantes e milho assado. Não lhe escondo que nunca tive ilusões em Tsirpas e acho que é impossível agradar a gregos e troikanos, a social democracia europeia ficou sem programa político e hoje é parte do problema. Ele recusa-se a retirar apoio ao Governo. Diz-me que o acordo é um “terceiro memorando”, vai destruir ainda mais a Grécia, que deve ser totalmente recusado, mas que ele se recusa a abandonar o Syrisa. Disse-me, cito, “Tsirpas escolheu a morte lenta quando a UE lhe deixou como alternativa a morte rápida”. Sorrio agradecendo a sinceridade, temos visões diferentes, mas estamos a caminhar ao lado um do outro, acredito. Acrescentou e frisou mesmo que não pode não apoiar o Governo porque há meses “não se vê a polícia anti motim e este governo quer o bem das pessoas”.

5 minutos depois o ar começa a ficar irrespirável, ouvem-se estrondos, fugimos, dispersamos, entre crianças e pelo menos uma pessoa em cadeira de rodas, pelas ruas em direcção à parte baixa de Sintagma. Georgos tinha razão, em seis meses nunca a polícia anti motim tinha estado nas manifestações – hoje porém esse sonho morreu também, com um outro, o de que vai ser possível sair da crise sem um confronto directo com uma parte dos bancos e grandes armadores gregos. A Grécia caminha para uma revolução social, sobre isso não tenho quaisquer dúvidas, 40% da população está abaixo da linha de pobreza e há 1 milhão e meio de pessoas sem acesso a cuidados de saúde, as pequenas empresas foram arrasadas, a colecta de impostos é para remunerar juros da dívida, declarada ilegal e odiosa pela auditoria feita pelo parlamento. É por isso que caminha para uma revolução? Não, é porque a possibilidade de ter como base social uma parte da população, a quem se protege com direitos laborais, ruiu – o que as “pessoas que votaram no Syrisa queriam não era ficar ou sair do euro, a maioria nem percebe o real significado de uma moeda ou outra, as pessoas votaram no Syrisa porque querem sair deste inferno que é a austeridade e o referendo foi feito com toda a comunicação social sem excepção – também ela endividada com os bancos gregos – a apelar ao sim e mesmo assim ganhou o não” diz-me Michael Savas, médico, filósofo.
Varoufakis confessou esta semana numa entrevista que quando domingo à noite se soube o resultado foi ter com o gabinete de Tsirpas e os viu ” brancos”. A direção do Syrisa, que funciona personalisticamente em Tsyrpas, com raras reuniões do seu comitê central de 220 membros, que votaram hoje na maioria contra o acordo, apostava que o sim iria ganhar para justificar que o acordo seria feito “porque o povo queria”. Varoufakis, um marxista na análise econômica mas que politicamente não acredita em revoluções, mas em medidas keynesianas, entrou no gabinete e disse “eu fico se for para irmos com a política do não, se não saio”. Saiu. Mas não foi só ele.

Fugida do gás lacrimogéneo, regresso à manifestação e estão escassas pessoas na Praça. Ao meu lado um homem com 30 anos e câmara na mão olha desolado com lágrimas para o parlamento. Discretamente pergunto-lhe se ele sabe onde foi parar a manifestação. Ele triste deixa cair os braços, aponta o edifício e diz, “acabou, acabou a manifestação, acabou a esquerda, acabou tudo…”. Chama-se Nikos. Toquei-lhe num braço, aflita por ele, e disse-lhe em tom de brincadeira que a história é mais dinâmica, nem a esquerda nem a vida acaba aqui, desilusões são assim, eu ando por ali mais leve não porque sou portuguesa, isto vai tudo acontecer em Portugal, mas porque não tenho ilusões nas pessoas erradas, digamos assim, se o Georgos e os estivadores do Porto de Pireus fossem lá defender a privatização eu também estava como ele, devastada, assim estou a ver a banda passar músicas que conheço. Pergunto-lhe de onde veio o gás e aquilo tudo, confesso que não costumo frequentar manifestações com este nível de repressão, venho de um país que fez uma revolução, Portugalia, chamam-lhe aqui na Grécia, como às laranjas, que vieram da China trazidas por nós e ganharam nome de país, país onde a polícia contém-se mais, e ele respondeu irado “pergunte ao Tsirpas!”…acalmou-se logo de seguida: “eu sou do Syrisa, hoje, amanhã…não sei, sou da plataforma de esquerda, dizem-nos que somos uns traidores se não apoiamos o partido agora, mas eu tenho mais um ano de emprego, o que querem que eu apoie? Ficar desempregado? Cortar a pensão da minha mãe?”.

Não é o fim, não acabou tudo, é o início de escolhas, que foram sendo adiadas. E escolher é das coisas mais difíceis da vida. Talvez esta inevitável decisão, agarrar a vida nas mãos, fazer da política a arte de todos, não confiar no eleito de turno, não venha pela mão dos trabalhadores gregos mas do FMI, dos EUA que estão a braços com o início de uma nova crise econômica e disseram à Alemanha ontem que a Grécia deve pagar ao FMI (EUA) mas não pagar à Alemanha. Cameron já veio dizer que a pátria-mãe tem razão. A Alemanha que pague para os EUA receberem a parte deles.
O que temos pela frente é um cheirinho do grande conflito da história do século XX, o conflito entre as duas grandes potências mundiais, e, como em 1945, terão que ser os Georgos da vida, os Nikis, nós, a tirarem-nos deste pesadelo.

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