Grécia, abrir caminhos

Ontem a caminho da Grécia, saída de Frankfurt, por cima do assento no avião estava o sinal EXIT e o comandante falava no altifalante: “em Atenas está um dia lindo, e assim vai ficar nos próximos dias”. A comissão internacional da auditoria à dívida grega provou que esta é ilegítima, e não deve ser reconhecida – trata-se de um obscuro negócio de salvação da banca privada e de rebuscados mecanismos financeiros que envolvem paraísos ficais como o Luxemburgo. Não foi a casa de 80 metros quadrados com uma bela varanda que a Stela e o Georgos compraram com 30 anos de trabalho que fez a dívida pública grega. Ontem foram buscar-me ao aeroporto, já passava da meia-noite – tenho um carinho por eles que não cabe nos abraços que trocamos. Chegámos a casa, tive casas onde não me sentia tão em casa como nesta, e a Stela tinha feito uma salada de folhas de videira e beringelas; hoje pela manhã tinha na varanda sumo de frutas, melancia, figos, como ela se lembrava que os figos e as azeitonas gregas são para mim incomparáveis, tomates com manjericão e pão torrado com café grego. Ela agora está lá dentro, cozeu um polvo com manjericão, vinagre e oregãos frescos e está a grelhar beringelas como nós grelhamos pimentos, até a pela ficar preta e sair. Trouxe-lhe conservas de cavala, bacalhau, patê de javali, pasteis de nata…É a nossa União Europeia: javali por oregãos, café por cavala marinada. Tsirpas disse que ia ser um general na guerra e a meio ajoelhou-se – hoje vou abraçar o meu amigo Georgos, dirigente do sindicato dos estivadores do porto de Pireus, a quem Tsirpas jurou que não ia privatizar o porto, e sem honra, assinou a rendição, sem batalha, mesmo depois de um referendo que lhe deu não dez ou vinte por cento, que por poucos que fossem podiam estar certos, mas sessenta!…A Stela nem ouve a palavra Syrisa sem abrir os olhos com algum desprezo, difícil na doçura da sua expressão. Está desempregada, o marido, meu querido amigo Georgos, é médico nefrologista com 35 anos de carreira – ganha 1600 euros e os dois filhos estiverem um ano desempregados: ela oftalmologista, ele engenheiro mecânico. Mas, porque não vão eles para a Alemanha emigrar? Porque a nossa Europa é a das pessoas: mercadorias emigram, filhos criam-se com amor, não é para os ver no skype a mandarem divisas para salvar os activos financeiros dos armadores gregos e da banca alemã.

Vem destes ventos um general, Anibal, cartaginense, em 248 a.c., que um dia lhe disseram “não há caminho para atravessar a montanha”. E ele gritou: “quando não há, abre-se!”. Temos que abrir caminho a outra Europa, mas deixar de carregar na bagagem o peso insuportável dos cobardes, porque com eles cada vez que andamos para a frente caímos ladeira abaixo.
Vou estar estes dias na Grécia, tentarei enviar vídeos com entrevistas, análise social e histórica, um olhar sobre a cultura, porque nem só de política vive o Homem, o que conseguir se os meios técnicos não falharem. Dias 17 a 19 estarei numa conferência internacional de investigadores sobre a crise econômica mundial. Darei conta do que conseguir. Agora vou comer salada de beringelas assadas.

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2 thoughts on “Grécia, abrir caminhos

  1. Estimadíssima Raquel Varela (perdoe-me o atrevimento, já que nem nos conhecemos pessoalmente), sou há muito tempo teu leitor. Exilado em meu próprio país (o Brasil), mato saudades de Portugal, pais que meu afeto escolheu, a ler textos de muita gente boa, inclusive os teus. A abordagem tua é raríssima, é preciosíssima. Por ora, receba um grande abraço de um “brazuca” de nascença e “portuga” exilado que anda entristecido por aqui. São Paulo é uma imensa distopia.

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