Os transportes colectivos hoje jantam connosco

Há uns anos o País ficou chocado porque uma parte das crianças achava que o frango vinha dos supermercados. Muitos na altura apressaram-se a explicar que vinha da quinta, pelas mãos do agricultor – na verdade de um aviário superlotado, ainda assim longe da prateleira. Esqueceram-se, porém, de lembrar que não vem só do agricultor. Nós hoje vivemos em cidades e é no campo que se produzem os alimentos. O que fazem os transportes? Dominam por nós o tempo.
Encurtam a distância entre Lisboa e a aldeia, entre Portugal e o Brasil, a China, a Alemanha ou a Inglaterra. Tudo, quase tudo, nos chega pela mão dos estivadores, camionistas, maquinistas do Metro da capital e da CP, motoristas da Carris, funcionários que organizam as estações, os horários etc. Há milhares de trabalhadores no país que todo os dias fazem que as pessoas e as coisas cheguem até nós. A globalização é a criação de um mercado de trabalho à escala global e isso implica a circulação de mercadorias à escala global, uma grande parte delas de consumo essencial à vida. Se aumenta o custo de transportar os que todos os dias saem de casa para ir para o trabalho, estes chegarão lá de forma mais cara ou mais lenta, ou as duas coisas. E quanto mais barreiras houver à circulação de mercadorias, mais caras estas serão no destino, na prateleira, na nossa mesa de jantar. Quase toda a sociedade paga esse preço. Quase toda… Porque há uma parcela da sociedade que enriquece com esse aumento de custo. Como?
O modelo económico que vigora hoje em Portugal e que domina o Estado – pela intermediação dos governos – assenta na acumulação por expropriação, isto é, não há investimento mas aumenta o lucro por avanço sobre os salários. Através essencialmente de quatro mecanismos, todos centralizados pelo poder coercivo do Estado: o aumento dos impostos sobre o trabalho, as privatizações de bens públicos rentáveis, os cortes de salários e a erosão do Estado social.
A dívida pública actuou como o mecanismo de salvação da banca privada; taxas a fazer de impostos a pagar serviços e impostos a fazer de remuneração dos capitais da banca; cortes avassaladores sobre os salários, pela promoção do desemprego. Mesmo assim não chega, é preciso vender os dedos: os transportes colectivos.
Os impostos podiam e deviam ser usados em bons transportes colectivos que servem para transportar pessoas? Errado. Quanto menos carruagens e menos comboios existirem, mais «eficiente» é o transporte público para um sector muito minoritário da população, porque o dinheiro que se poupa a transportar pessoas é para remunerar os accionistas que são proprietários de títulos da dívida pública, beneficiários de SWAPs, banca, etc. Sérgio Monteiro, o secretário de Estado dos Transportes, tem sido a imagem destes rostos que se ocultam: «os mercados nervosos». Só por sua responsabilidade evaporaram-se, segundo os jornais, 150 milhões de euros do erário público em SWAPs, e é na sua mão que estão a venda da TAP, da Carris, do Metro.
Não há um único exemplo em Portugal de uma empresa pública privatizada onde a população tenha ficado com melhores serviços ou menores custos. A Carris e o Metro de Lisboa estão desde 2009 a financiar única e exclusivamente a banca, porque o Estado diminui as transferências de indemnizações compensatórias para lá, obrigando as empresas a dependerem da banca para se financiar.
A medida de eficiência de uma sociedade deve ser a riqueza. Pode-se pagar a um bom professor para dar boas aulas e isso produz riqueza (alunos bons que vão ser mais produtivos) ou pode-se cortar no orçamento da educação e usar esse corte para investir em dívida pública, e isso aumenta o lucro ou a renda de quem detém esses títulos, mas destrói riqueza (força de trabalho). Uma empresa de transportes tem custos altíssimos de manutenção, infra-estruturas, formação da força de trabalho. Ela serve para transportar pessoas e quanto mais rápida e seguramente o fizer, mais riqueza teremos. Se for privatizada, pode até aumentar o PIB, mas a consequência é que haverá menos comboios, menos carruagens do metro, menos segurança, mais custos para quem paga os bilhetes, mais atrasos, etc. E mais lucro.

Publicado orginalmente aqui

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