Para Onde vai Portugal?

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Agência Lusa

A historiadora Raquel Varela escreve no livro “Para onde vai Portugal?”, que o país nunca foi tão dominado pelos monopólios e que a crise vai provocar conflitos sociais a breve prazo.

“Este livro é um ensaio sobre o país. O projeto dos principais partidos do governo — PS, PSD, CDS — é fazer do país uma China, com trabalho barato e exportações e isso vai desencadear, na minha opinião, uma onda generalizada de novos conflitos sociais”, disse à Lusa Raquel Varela, autora do livro “Para onde vai Portugal?”.

“Escrevo no livro que o salário mínimo não dá para viver e que o salário médio de Portugal — cerca de 800 euros — é o verdadeiro salário mínimo. Isto significa que há uma parte importante da população, cerca de 40 por cento, que está empregada mas que ganha salários que não lhe permitem pagar as contas básicas para chegar ao final do mês”, refere a autora.

Mesmo assim, para a historiadora, Portugal vai deixar de ser um país com baixa participação cívica e social, nos setores públicos e dos transportes e depois a tendência de conflito vai ampliar-se aos setores industriais, “onde já são dominantes os baixos salários”.

Para Raquel Varela a precariedade vai dar origem a uma nova onda de conflitos para os quais os sindicatos e as organizações de trabalhadores não estão ainda preparados, tendo os partidos políticos muita dificuldade em perceber, como refere, “que se está a viver” uma nova fase do regime democrático.

“Nunca o país foi tão dominado pelos monopólios na economia (…). O mito das pequenas empresas é isso, um mito, grande parte delas são subcontratadas, subsidiárias da casa-mãe” (página 49), escreve Raquel Varela no livro, sublinhando que 90 por cento das “start ups” entram em falência três anos depois de “terem nascido”.

“As pessoas não pensem que, ao fazerem a sua própria empresa, vão encontrar soluções para o problema do desemprego”, afirma a autora.

Por outro lado, a historiadora afirma que há uma economia oficial “completamente ilegítima”, que implica a sistemática transferência dos recursos do Estado, do setor público para o setor privado.

“Nem tudo o que é do Estado é público” e, segundo Raquel Varela, o ensaio explica as sucessivas formas de privatizações em que não muda a propriedade, utilizando como exemplo os hospitais privados, que são financiados a mais de cinquenta por cento pelo Serviço Nacional de Saúde, e a Carris e o Metropolitano, que estão “nas mãos” da banca.

“Há uma transferência por subcontratações e Parcerias Público Privadas que são, para mim, uma autêntica economia paralela – aquilo a que o Estado chama economia paralela é o famoso ‘desenrascanço'”, refere à Lusa.

Segundo Raquel Varela, a maioria dos portugueses desempregados vive do apoio familiar, o que evita que a situação seja “muito mais miserável” e vinca, com exemplos, que o Estado está a ser “usado por uma minoria”.

“Chamar paralela a uma economia de simples ‘desenrascanço’ e que só permite às pessoas sobreviver, e persegui-las para sacar mais impostos é completamente ilegítimo quando temos 20 das maiores empresas portuguesas a pagar impostos na Holanda, que tem um regime fiscal igual ao das Bahamas”, acusa.

Seja como for, “o livro é otimista” porque, diz a autora, “há um novo país”, que não aparece nos meios de comunicação social: um país associativo, dos defensores dos direitos públicos, onde o Estado Social se tornou num valor unânime entre a população portuguesa “que considera escandaloso” não haver direito à saúde, à educação.

“Há 50 anos quem era pobre achava que era natural ter nascido pobre e, por isso, acho que a consciência média avançou imenso. O problema não é a indignação das pessoas, o problema é a falta de organização e é isso que nós ainda não temos”, conclui.

Raquel Varela é historiadora e investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e autora, entre outros, dos livros “Quem paga o Estado Social em Portugal?” e a “História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-75”.

O livro “Para onde vai Portugal?” (Bertrand Editora, 261 páginas), lançado este mês, vai ser apresentado pelo psiquiatra Coimbra de Matos, na Feira do Livro de Lisboa no dia 05 de junho.

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