Factor desconhecido

Fui a uma urgência hospitalar onde me foi entregue uma guia de culpa com o valor real do custo do serviço prestado. Muito agradeço a quem de direito – não sei se o Ministro da Saúde, se a das Finanças, deve ser a das Finanças, que é o quem nos trata da Saúde, uma vez que o da Saúde está a tratar das Finanças dos hospitais privados, que directa e indirectamente recebem mais de 50% de financiamento via Serviço Nacional de Saúde. Haja jogo de anca para tanta dança com a vida humana. Sou uma defensora intransigente da transparência das contas públicas, e acho que um Estado está obrigado moralmente a publicar cada cêntimo que gasta e que deve haver racionalização de meios. Mas também, e aqui começa o meu desconforto com a carta, um Estado está obrigado a dizer cada cêntimo que recebe e onde os gasta, em quê, como, onde, por quem. Nesta factura há um distúrbio de personalidade, só aparece a despesa, tendo o referido ministro esquecido de me apresentar a receita – quanto é que eu pago em impostos para ter aquele serviço. Não resisto a este pedaço de Freud, que aqui se aplica como uma luva: «O carácter de ansiedade que é inerente à sensação de culpa corresponde ao factor desconhecido».

para raquel

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3 thoughts on “Factor desconhecido

  1. Estas mensagens subliminares estão por toda a parte, veja-se o papel da novilíngua na actualidade, eufemismos “inócuos” que em ultima análise se propõem a transmitir o contrário do que se está dizer, a impressão é um aspecto sensível da comunicação. Percebo a indignação perante o distúrbio que refere mas uma interpretação mais alargada das suas palavras pode sugerir a lógica do “utilizador pagador”, não na sua componente individual, claro, apesar da Raquel falar na primeira pessoa. Como sabemos, de uma forma aritmética, há quem receba mais do que o que paga nos sistemas sociais, condição necessária atendendo à desigualdade imposta. Com a diminuição dos recursos rapidamente assistimos à fragilidade ética da nossa sociedade, dialécticas que assentam na responsabilização individual têm como único objectivo a privação.

  2. Concordo, usei um caso individual, é óbvio que os impostos têm que ser vistos como colectivos, cump

  3. Na saúde existia uma ignorância generalizada no setor por parte dos profissionais e dos utentes relativamente aos custos implicados na utilização dos serviços públicos.
    Por acaso acho muito positivo a existência desta informação, tanto para os profissionais como para os utentes.

    O facto de ser dado conhecimento aos utentes dos custos suportados pelo Estado no SNS contribui para a sua valorização pois muitas vezes os serviços que são prestados de forma gratuita tendem a ser desvalorizados pelos próprios utentes, que por pagarem consideram que os serviços no “privado” são superiores.

    Acho que esta informação e transparência, não sendo perfeita. é um passo na direção certa. Na minha perspetiva defende o SNS e valoriza-o aos olhos dos utentes.

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