Camões anda de Metro

Em mais um dia de greve contra a privatização do Metro, em forma de parceria público-privada, escreveu-me um cidadão de Trás-os-Montes lamentando “pagar o Metro de Lisboa com os seus impostos”. Por azar o exemplo não podia ser pior. Trás-os-Montes, terra que eu adoro – da comida nem falo porque sou capaz, se posso, de desviar caminho 100 km para comer uma posta barrosã -, fica, como o nome diz, para trás dos montes, ou do sol posto…onde judas perdeu as botas. Cada estrada que lá chega, cada electricidade cintilante, cada fio de comunicação, tem um custo gigante de impostos para todos os cidadãos deste país, e estes custos permitem por exemplo aos agricultores locais exportarem as suas castanhas, azeite, etc.. Esse custo recai sobretudo para os que estão nas cidades e no litoral, que são os que mais pagam, dado que o número de habitantes e pagadores de impostos nessa região é muito reduzido. Atenção, transmontanos, que eu sou a favor que os paguemos! Não só pela defesa incondicional da alheira de Mirandela mas porque tem que haver uma gestão correcta e harmoniosa do território, que implica pagar para não ter o interior isolado, implica pagar para ter uma relação cuidada cidade-campo. Implica por exemplo, ter maternidades deficitárias e, em troco disso, pagar uns euritos para o Metro de Lisboa ser público e a cidade de Lisboa funcionar bem, permitindo por exemplo, escoar produtos agrícolas de Trás-os-Montes. Pagamos e devemos pagar mais do que os Transmontanos para Trás-os-Montes. O que não aceito, nem sob tortura de nunca mais na vida comer uma sopa de castanhas com presunto em Bragança, e depois ir passear letárgico à volta do Castelo enquanto conversamos mais uma hora sobre a sopa que acabámos de comer (os portugueses têm como tema de conversa depois do jantar o conteúdo do próprio jantar, já se sabe), é que depois se venham lamentar que pagam o Metro ou a Carris em Lisboa. Porque o território e o bem estar é de todos nós. Como Camões é nosso, do Algarve ao Minho: “Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada”(Lusíadas). Longa vida a Trás-os-Montes e aos transportes públicos de Lisboa!

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