Greve do Metro

Uma greve não é um chá dançante ou uma petição ao rei. Tão pouco é uma forma de protesto, é mais do que isso – é um confronto. Entre quem trabalha e quem manda e controla o processo produtivo. Não é um simples direito democrático, é a essência da democracia porque até o direito ao voto foi historicamente conquistado com o recurso a greves. Se passar a proposta do governo será um dos grandes escândalos de gestão do orçamento público deste país, suportado por todos nós, e agora ninguém poderá dizer que «não sabia». A privatização do Metro ou da Carris não são, como se pensa, uma privatização mas algo muito pior, são de facto uma parceria público-privada, que mantém todos os lucros na empresa privada e todos os custos e riscos suportados por nós. Não sei sequer como este caderno de encargos pode ter uma moldura legal. Como está desenhado abre a porta aberta ao aumento das tarifas, diminuição das carruagens, corrupção e descapitalização da segurança social, e tudo isto com mais custos para o orçamento público. Os trabalhadores do Metro não estão só a defender os seus salários ou empregos – e se fosse, contariam com o meu apoio porque eu não acho que ter emprego com direitos seja uma regalia, é um direito elementar de uma sociedade justa. Mas eles estão a fazer mais, estão a defender o transporte de qualidade e seguro, e sobretudo estão a colocar uma parede entre o governo e a utilização do orçamento de Estado como se isto fosse a camorra com todos os riscos protegidos por um Estado, o mesmo Estado que esmaga todos os dias com impostos milhares de empresas e cidadãos.
O problema do sindicalismo, de parte dele, não é a greve, essa é aliás, dizem os manuais ementares de história, a sua força e razão de existência. O problema tem sido, esperemos que aqui não, que as greves são dispersas, não são unificadas com outros sectores, estão à mercê de lógicas eleitorais ou partidárias, às vezes são feitas sem plenários democráticos, sem fundos de greve que protejam os mais frágeis, etc. Os trabalhadores do Metro e dos transportes têm naturalmente o meu apoio, e muito lhes agradeço que façam greve por mim, porque hoje é disso que se trata – estão em greve por mim e quer as pessoas gostem ou não, estão em greve por todos nós, porque este caderno de encargos, a ser aprovado, vai descapitalizar ainda mais o orçamento para depois quem governa vir dizer que é preciso cortar nos hospitais e na educação. Eles lutam, pagam para isso perdendo o salário, enfrentando calúnias públicas indecorosas, e fazem-no por todos nós, em nome de uma gestão correcta e decente do orçamento público.

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2 thoughts on “Greve do Metro

  1. É mais do que óbvia a ilegitimidade do negócio que se pretende fazer com os transportes, os responsáveis por estas negociações tem de ser acusados por agirem contra o interesse publico.
    O poder na sociedade não se deve cingir ao enquadramento legal, é demasiado redutor pensar em relações saudáveis baseadas na forma, a relativização do conteúdo tem contribuído em muito para o modelo disfuncional que temos. Será o amor o algo intangível onde deve assentar toda a lógica relacional? Não sei, mas essa sua referência parece-me cada vez mais acertada.

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