Elaine, colorida Elaine

A Elaine chegou a casa às 8 da manhã, quando eu tomava o pequeno almoço na casa acolhedora deles, em Brighton. Está um dia de sol radiante, excepcional aqui, e Elaine chegou do turno da noite – é médica no Serviço Nacional de Saúde britânico. Tem 68 anos e um porte enorme, sorridente. Chego à cozinha e ela está a colocar ao lume uma perna de borrego “só com alho e sal”, explica-me num carregado sotaque. Os molhos vêm à parte. Tem a pele creme, é descendente de Aborígenes da África do Sul,  frisa-o com orgulho. É casada com um indiano, viveram quase toda a vida sob um regime do Apartheid, eram os “ coloured”, um “bocadinho acima dos negros, muito abaixo dos brancos”, ensinavam-lhes. Ela olha-me com atenção: “Rachel, tu também serias coloured lá”. Conto-lhe orgulhosa que a minha mãe, de pele alva, foi à África do Sul com 16 anos e se recusou a mudar de passeio e o tio-pai dela, brigadeiro na guerra colonial, protegeu-a do polícia que a queria forçar a mudar de passeio, achando ele, no topo da hierarquia de uma guerra insuportável contra populações indefesas, que era intolerável um passeio para negros e brancos. E a pergunta é inevitável? Porque foi necessário o Apartheid? Estados racistas, com divisões salariais, injustos, com polícia política, brutais, como o português, havia em toda a África. Porque o Apartheid foi ainda mais brutal? Ela não o explica nem quer, era “odioso”, simplesmente, diz-me. E quer antes saber porque tudo mudou e ficou na mesma. Não evita o sarcasmo quando fala de Mandela e do regime actual – nunca teve ilusões na transição pacífica dos anos 90, diz-me…quem “não se ilude, não se desilude” – ri-se outra vez. Nunca achou que a saída acordada dos anos 90 entre a elite branca e o ANC fosse trazer qualquer coisa de bom: entre o Apartheid e hoje a esperança média de vida de um homem negro caiu de 55 para 49 anos, não há dinheiro para escolas e a saúde é privada, mas os gastos com bancos e armas ultrapassam cifras astronômicas, desde 1996, o que não impede os líderes do ANC de dizer que o problema é o “legado do Apartheid”… Apesar do ouro hoje valer mais de 5 vezes o que valia então. A saída de capitais do país, em dividendos, patentes, etc., é hoje 8 vezes superior. Mandela tinha em 1992, 2 anos depois de ser libertado de uma prisão onde resistiu como poucos, e cuja coragem nenhuma história lhe pode retirar, prisão de onde foi libertado porque o regime estava prestes a explodir desde as greves de 1984, na trilha da crise de 1981-1984, tinha, diz ela, em patrimônio, 37 milhões de dólares, que a mulher pediu para serem repartidos em dois no divórcio, perante o tribunal.

Não pode a história retirar-lhe a coragem com que enfrentou o racismo do Apartheid, foi aliás durante anos considerado, e por muitos que estiveram no seu funeral, um terrorista. Mas a história também não lhe tira a vergonha política de nos anos 90 ter condecorado Suharto com a Ordem da Boa Esperança, depois deste ter dado 5 milhões de dólares para um fundo de auxílio a crianças na África do Sul, fundo gerido de facto pela família Mandela e outros, e cujo dinheiro, até hoje, não se sabe onde pára, explica-me. Eu conheço a história da África do Sul, desconhecia naturalmente os detalhes mais sórdidos que ela conta sem surpresa, para ela, explico-lhe que nunca tive ilusões no ANC, dominado pelo PC, no nacionalismo africano que colocou o racismo como alvo, e bem, mas deixou a economia na mesma, mal. Mas, alerto-a, que para o comum das pessoas cair o ícone Mandela é como descobrir que a mãe o abandonou?! Ela ri-se, eu também – ganhámos tolerância sobre o pensamento mágico das pessoas, já que a “história como ciência não suporta tudo…”, lembro-lhe que Gandi apoiou a I Guerra Mundial, uma carnificina sem par até aí. Bom, ela insiste, o herói da transição pacifica é unânime fora da África do Sul, porque o “número de pessoas lá com ilusões na transição dos anos 90 existe mas é muito menor”. Não lhes chegou pelos livros, como a mim, mas por a África do Sul ser hoje um dos países mais desiguais do mundo…

A Elaine é um acaso histórico. De origens humildes, ganhou uma bolsa para estudar de um fundo mineiro, e tornou-se médica, numa sociedade desigual em tudo, na economia, na pele, patriarcal, porque, explica-me um “homem não entrava nesta cozinha, mesmo se fosse um militante de esquerda clandestino!”. É portanto uma guerreira, mas doce, que abre, com a mesma vaidade com que eu com 7 anos mostrava a minha casa de madeira de bonecas, o armário das…imaginem, sementes de especiarias com que faz os molhos que vão acompanhar o borrego. São sementes, mais de uma dezena de frascos coloridos, que ela mói e mistura consoante gosta, depois de um turno nocturno de 8 horas a tratar ao domicílio pessoas com AVC e outras doenças, muitas terminais. Há tanta resistência no sofrimento, penso, a olhá-la. O que surpreende no mundo não é a quantidade de cínicos, brutos, deprimidos. São os que resistem. Quando se formou como médica na África do Sul trabalhava no hospital e ganhava 1/3 dos seus colegas médicos brancos, pelo mesmo trabalho. Lembro-lhe que isso agora é comum nas empresas, não são brancos e negros, mas as diferenças contratuais para o mesmo trabalho podem chegar a esse valor. Fundou nos bairros negros clínicas clandestinas para tratar os militantes do ANC e outros resistentes. Algumas foram, cito-a, bulldorzeadas.

Porque vieste para o Reino Unido agora? A resposta brilha nos meus olhos – “eu queira ser médica num país onde as pessoas não tivessem que pagar para ser tratadas!”. Está hoje desiludida com o NHS, os cortes, “não pelo salário, mas pela quantidade absurda de relatórios que tenho que preencher e por falta de tempo em estar com os meus doentes”.

Ao almoço continuamos a conversa, de volta do borrego, macio, que agora tem um molho caseiro de mangas, beringelas e sementes, várias, frescas, trituradas numas misturas irrepetíveis. Ticktin, sul-africano também, historiador, autor de A Economia Política do Apartheid, explica-me, e deixo aqui uma ínfima parte da conversa de várias horas: uma greve dos trabalhadores brancos na década de 20 e outra dos negros na década de 40 nas minas, ambas derrotadas, saldaram a saída num país com uma indústria mineira pujante, com uma classe trabalhadora que tinha trazido a experiência de luta inglesa e a África do sul não era já uma simples sociedade camponesa, dispersa e agrária, como as colonias portuguesas: ou havia unidade entre trabalhadores brancos e negros na África do Sul, que se formaria independente, esse país das minas, ou se separavam para garantir concorrência salarial entre eles. O controlo dos salários deu-se não pela gestão do desemprego mas por barrar, à porta das cidades, os trabalhadores, negros. Era assim que se controlavam os salários e o processo de acumulação. Numa palavra, o Apartheid foi mais brutal porque a resistência era maior do que noutros países de África.

Mas o que realmente irrita a Elaine, hoje? O Apartheid, o ANC, a privatização do SNS? Não, é que em Inglaterra a “maldita cozinha” é comprida e estreita, desenhada para só lá caber uma pessoa e ela tem saudades de estar na cozinha a conversar com todos, enquanto cria os seus aromas. Mas nem isso, que insiste em repetir, a abate, visivelmente. Estou cansada, penso, enquanto a oiço, do que ela me faz lembrar por contraste, as pessoas que acreditaram no pacto social e agora entraram em depressão porque ele ruiu – o cinismo histórico dos derrotados. Não a conheci com 30 anos a tratar resistentes ilegalmente no meio das barracas mas não podia acho ter mais esperança no olhar e vida na voz do que tem hoje.

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