Brasil Menor

Aos 2 anos não se tem o direito a uma alimentação saudável, aos 6 anos não se tem direito a uma educação humanizante e ampla, aos 10 não se tem direito a uma saúde rápida e decente, aos 20 anos não se tem direito a um emprego mas aos 16 está-se em plena capacidade e condição de ir preso. A expressão da barbárie, vinda dos sectores que mais lucram com a miséria no Brasil, um país onde tenho alguns dos meus melhores amigos, das pessoas mais sérias, fraternas e humanas que conheci até hoje, mas que tem uma classe média de mentalidade escravocrata e tão ignorante que até é confrangedor.
As vezes que me cruzei com estes seres tive que inventar desculpas de ir ao “banheiro” ou fazer um telefonema para não verem na minha face o meu espanto perante tanta ausência de saber. Um camponês com o 6º ano na Europa é em média mais culto e interessante do que um representante desta classe média que viaja para Paris com regularidade. Entre a superficialidade absoluta, um modus de vida que inclui como super fashion ir de férias a Miami, esta gente, que tem um elevador à parte para não se cruzar com a “empregada” negra mas de quem dizem sempre que “é da família”, defende coisas que sectores fascistas na Europa ainda têm vergonha de fazer publicamente. No Brasil conheci e fiz mais de metade da minha formação intelectual, com pessoas de uma cultura e saber extraordinários, melhores em média, na minha área, do que os daqui, onde a minha “área” na verdade tinha desaparecido no calor da contra revolução intelectual, mas também foi no Brasil que me cruzei com as pessoas mais estúpidas, tão estúpidas que a primeira informação que nos dão é a sua origem europeia – nasceram no Brasil mas informam na primeira conversa que são descendentes de alemães, italianos e portugueses, para que não haja dúvida que as misturas são só para animar a MPB.
A única coisa que me descansa neste mundo é que a barbárie faz ricochete – tenho descoberto que estes bárbaros que passam férias em Miami ou num resort qualquer andam todos a anti depressivos, porque a incapacidade de construir relações sociais saudáveis atinge todos, independentemente da classe social de origem. É este vazio humano que Coimbra de Mattos tem estudado aqui entre nós. O dinheiro é fundamental para nesta sociedade ter acesso ao que é mínimo de bem estar, como é óbvio. Mas há centenas de coisas no mundo que não se compram, com dinheiro algum: amor, paixão, felicidade, bondade, respeito, doçura, carinho, honestidade. Vende-se tudo neste mundo, a “alma” e o corpo, mas os sentimentos não. Por isso há que continuar a consumir qualquer coisa que controle essa sensação de infelicidade que vem do isolamento social, e essa tristeza do isolamento social pode estar em alguém preso com 16 anos mas não deixa de estar em alguém que renuncia à sociedade, mesmo que esteja numa festa rodeado de gente a sorrir, a comentar a última viagem.

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8 thoughts on “Brasil Menor

  1. Se estiver por Helsínquia a 24 de Abril seja bem aparecida:

    “A University of Helsinki Social Forum Dialogue. The future of Brazil by three Brazilians: a philosopher, peasant activist and art curator. What can people in Finland learn from the Brazilian experience?

    Friday 24 April 2015, at 3pm.

    Think Corner (Tiedekulma), Street Level of Porthania Building, Yliopistokatu 3, University of Helsinki.”

  2. Perfeito. E triste. Mas, a gente vai lutar desde as bases. Temos uma herança escravocrata e caótica por culpa – sim – dos próprios europeus que colocaram essa mentalidade suja e escravocrata em nós nos séculos anteriores, e como nós bem sabemos que os processos de construção estrutural social e de mentalidade são de longa duração (concordando com Norbert Elias), a luta é longa e árdua, mantemos estruturas coloniais em nossas mentalidades, mas, há gente aqui – como você muito bem citou, que vai lutar até a última gota de sangue para mudar o conservadorismo (e escrotismo de modo geral) brasileiro desde as bases.

  3. Pingback: A Raquel Varela e a maioridade | Bordoadas

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  5. Praticamente de acordo. No entanto verifico uma contradição quando afirma: “Brasil, um país onde tenho alguns dos meus melhores amigos, das pessoas mais sérias, fraternas e humanas que conheci até hoje”. Esses seus amigos não são da classe média que considera de “mentalidade escravocrata e tão ignorante que até é confrangedor.”? Tendo vivido alguns anos no Brasil encontrei pessoas de classe média e média baixa com os melhores dos atributos que o seu texto refere: pessoas sérias, fraternas e humanas. Óbvio que há muita gente estúpida e ignorante. Na recente manifestação que houve no Brasil haver gente a pedir o regresso da ditadura militar é reveladora dessa estupidez!

  6. Abraço, é o que me resta para louvar a sua coragem.Obrigada!Pense em Timor.Conheço bem, mas não tenho o seu estatuto para denunciar.Já o fiz nas instância “institucionais”, “formais” e outras tantas que “ais”.O nosso pais está cheio de ” ais” e de “ismos”.Raquel, para quem não tem meio de subsistência, para além de trabalhar todos os dias, horas infinitas, ou estatuto intelectual, brilhante( na minha opinião), como é o seu caso,para denunciar, acaba por desistir. Sinto horror da minha desistência.Mas preciso do ordenado para pagar a renda e satisfazer as necessidades básicas. As minhas e da minha filha.
    Estudo e trabalho muito, tudo com as minhas economias. Ter um doutoramento…não serve de nada.Seria mais útil ter um cartão de um partido.Não me vendo.Tenho 52 anos.
    Abraço e coragem.Com admiração pela coragem, verdade e desassombro com que confronta tudo e todos.Obrigada!

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