O Amor

O amor é histórico – as ideias de Fourier foram classificadas de loucas por Napoleão e eram maioritárias nos cartazes do maio de 68.

É histórico porque a forma do que gostamos, do que desejamos, do que vemos e sentimos são menos determinadas pela “liberdade” e mais pelas formas sociais.
O amor entre desiguais é bloqueado: relação entre diferentes poderes, entre diferentes meios financeiros, origens sociais, culturais são relações dolorosas, experiências abortadas pela realidade social de cada um. Os sentimentos são alterados pela nossa posição de dependência ou de poder. A estrutura dos sentimentos – malgrado quem pensa que os domina – é determinada de fora para dentro e de baixo para cima.
A relação é hoje para uma parte da humanidade uma necessidade e não uma experiência amorosa, um espaço de liberdade, é o Estado Social, o cuidar do outro, a relação é uma experiência de refúgio e sobrevivência de uma sociedade marcada pela competição e o conflito. A monogamia é um tema fulcral neste debate da necessidade. Outro tema fundamental é a infantilização dos jovens, com o prolongamento da dependência, financeira e emocional dos pais, e o envelhecimento precoce dos idosos – porque não podemos amar de novo intensamente com 50, 60 anos? Porque a forma de relação dominante na sociedade da acumulação é a da relação de confiança num mundo em guerra, e a alternativa é o consumo precário, frustrante de relações superficiais. Tão precária como as vidas precárias, tão incerto como as vidas incertas, tão insuficiente como as vidas insuficientes.
Num outro mundo, pode haver uma experiência total de amor, um equilíbrio, intensamente feliz. “Amar é a experiência da totalidade, ameaçada pela sociedade contemporânea” (Badiou).

Numa sociedade competitiva a experiência narcísica é dominante, e o narcisismo é o anti-amor. A sensação do “safe-se quem puder”, do mostrar que somos melhores não pelos outros mas para os derrotar é real, porque a sociedade está assim desenhada nas suas relações de produção. O resultado disso é que a maioria das pessoas não chega a viver a experiência mais intensa da vida, as sensações que não sabiam existir – uma relação amorosa, que foi além da paixão, do contigente, e também além da estabilidade da família como espaço de segurança social.

Dominam na forma actual de sociedade relações que não são determinadas pelo amor, mas ou pela manutenção da propriedade, do cuidar dos filhos, dos idosos, da confiança, de um lado, ou pelo consumo do outro – experiências relacionais superficiais em que se pede, como num chat, uma “cara metade”, uma ideia infantil de um outro perfeito que vem fatiado em qualidades pedidas – há um processo generalizado de mercantilização da relação que como não se pode comprar coloca uma parte imensa da população só ou à procura de um outro que não existe. “Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com minha dor”, o poeta Nelson Cavaquinho, escreveu assim sobre os quem sabe milhões de pessoas para os quais a relação é uma experiência dolorosa consigo próprios e o outro é funcional a esse drama interior que é uma fuga de si também (Freud, outra vez).

O amor é das raras coisas que “não se compra”, lembra Badiou e propõe “reinventar o risco”. O amor é a experiência mais intensa e feliz, por isso “deve reafirmar-se como uma experiência de ruptura com as leis do mundo contemporâneo”: as que nos dizem que uma relação é uma experiência eterna em que morremos todos os dias um pouco, e as que vendem as relações em pedaços de encontros casuais, conversas de chats, noites divertidas…o amor burguês, da propriedade, o amor precário, do desemprego ou do emprego errante, tão errante que nos permite não nos encontrarmos com os nossos erros e medos, mantendo “fantasmas tão educados que adormecemos no seu ombro” (Natália Correia), reinventando sempre – Freud – máscaras convincentes para a falta de coragem. Estranho esta prisão construída porque a ideia fundamental do amor é a ideia da felicidade.

O tema daria para muito mais e para o seu contrário, mas os amantes, acreditem ou não que são na totalidade donos dos seus sentimentos, devem sempre ter sempre por perto uma versão de bolso de “A Arte de Amar”, de Ovídio – capacidade de inventar um mundo novo, utópico, exagerado, irreal, um amor começa pelo exagero, o risco das impossibilidades, não pela assinatura de um contrato firme sobre o que vai ser e também sobre o que não vai ser o futuro – Ovídio foi o grande poeta do amor. Escreveu ele que o amor é o lugar onde chegamos quando “depomos as armas”.
Todas, acrescento eu, as que estão dentro e fora de nós.

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