Amanhã vai ser outro dia, mas até lá…

Perto de onde vivo há um restaurante onde vou com regularidade porque é acolhedor, quente, tem música jazz baixinha, uma comida deliciosa com raízes de Goa e Moçambique e não é caro. Uma raridade, porque a possibilidade de ser um franchising com música tecno, uma taberna gourmet caríssima para turistas, ou uma tasca popular verdadeira, fria, arruinada com os 23% de IVA, que só serve entrecosto, acompanhada de televisão aos berros, é grande. Hoje, ir a um lugar normal confortável é uma escolha de pinças, quase como procurar a famosa agulha no palheiro. Por isso cultivo este lugar.

Depois da passagem de ano fui lá comer um caril e uma morcela com laranja. Conversa puxa conversa e os donos, dois homens na casa dos 40 anos, nitidamente cheios de dedicação ao espaço, resolveram contar-me que tinham tido como prenda de Natal uma “inspecção preventiva”. Só o nome… Às tantas, o inspector perguntou para que serve o piano, um bonito piano que está ali no canto. Eles, com a honestidade de cidadãos que acham que o Estado, incarnado no inspector, é pessoa de bem, explicam que, às vezes, lá pela sexta ou sábado, passam ali uns músicos que tocam gratuitamente, recebendo em troca só a refeição. Ah! Crime!, diz o inspector. Qual crime? Não ter uma política cultural de protecção dos músicos que não os faça trabalhar só por uma refeição? Os escravos tinham comida e casa. Os 23% de IVA, que fazem pagar a comida como se de um luxo se tratasse, será esse o crime? Baixos salários em todo o país que levam a que as pequenas empresas de restauração mal consigam sobreviver, será esse o crime?

Não, são outros. Cinco, contam-se cinco infracções, detectadas na tal inspecção preventiva. A linguagem parece retirada de um romance de Gogol em plena decadência czarista. Cinco taxas para poder passar música. Cito de cor, esperando que a memória me não falhe: 2 taxas municipais de licença de diversão esporádica; uma à SPA, outra Pass Music e ainda outra ao IGAC. Mais um seguro de insonorização – mas tecno aos berros numa loja de roupa às 4 da tarde, isso já é normal. E ainda um seguro de responsabilidade civil. Tudo isto pago por um restaurante com 18 lugares e preços a rondar os 10 euros.

Ora, os leitores já fizeram as contas. Serviços, entre eles a cultura, parte integrante do Estado Social, não existem. Mas temos 23% de IVA e os restantes impostos a que se juntam as taxas e taxinhas, que hoje são de facto os impostos porque estes, os impostos, já não pagam serviços mas são para remunerar capitais privados falidos (através da chamada dívida pública). A consequência é a falência destes espaços e a concentração do consumo nos centros comerciais, que são em simultâneo um processo de monopolização do consumo e degradação da qualidade do que é consumido. Porque num centro comercial têm que ser pagas 2 rendas fixas – a do franchise e a que é paga aos donos do centro, em Portugal com frequência o Grupo Amorim ou a Sonae. Para que essa renda seja paga, a qualidade dos serviços cai e jamais se come por 10 euros um caril, num lugar acolhedor, a ouvir piano e beber um vinho. Come-se por 8 euros um hambúrguer a ouvir como som de fundo um intenso burburinho, o som ensurdecedor de um país a ser destruído.

Amanhã vai ser outro dia, claro, os limites da estabilidade deste regime em decadência estão aí com as taxas de pobreza, desemprego e emigração a alcançarem níveis históricos. O dique vai rebentar, sobre isso há poucas dúvidas, porque o grau de tolerância à miséria em sociedades complexas, urbanizadas, escolarizadas é muito mais limitado do que nas sociedades agrárias ou pouco industrializadas. A questão que fica, porém, é quanta música deixámos nós de ouvir enquanto tudo isto durou? De outra forma, quantos anos perdemos de vida a assistir a isto?

Crónica publicada no número de Janeiro-Fevereiro da Revista Mais Alentejo

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5 thoughts on “Amanhã vai ser outro dia, mas até lá…

  1. Agora fiquei curioso e com vontade de conhecer esse restaurante. Queres partilhar?
    Concordo com o artigo, mas infelizmente também há quem se aproveite das dificuldades de alguns músicos para os explorar e essas situações devem de ser denunciadas.
    Ainda bem que não é este o caso.

  2. …cuidado, porque a nossa falta do sentido do colectivo e a extrema ignorância em que continuamos a viver em Portugal tem permitido privatizar tudo, até a água,…loucos que não compreendem a selvajaria!…

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