No gueto

O país acordou com mais uma cena que envolve violência, negros e polícia. Os relatos do lado de lá são brutais e, a serem verdadeiros, deixam a polícia em muito maus lençóis. Há uns anos dei aulas de alfabetização num bairro social, durante um ano, todos os dias, ao princípio da noite. O Estado chegava ao tal bairro, um gueto a 15 km do centro de Lisboa, na forma de rusgas policiais feitas pelo corpo de intervenção, armado até aos dentes, como se diz. Pouco mais havia de presença estatal por ali. Porque escolas era uma TEIP com curriculus diminuidos e adaptados a uma força de trabalho que se queria ilegal e/ou barata; transportes passavam longe e raramente; jardins não existiam; limpeza de ruas jamais; políticas de emprego não sabem lá no bairro o que isso é, existia sim o Banco Alimentar para deixar massas fora de prazo, literalmente, pois os sacos eram deixados na mesma sala onde eu dava aulas. Passei a levar os meus alunos 1 vez por mês fora dali, a museus e teatros e castelos. Descobri que metade deles, e todos com excepção de 2 entre os 40, tinham nascido em Portugal, nunca tinham ido a Lisboa a não ser à Loja do Cidadão…Não sei se alguns serão meus amigos por aqui mas lembro-me do dia em que metade deles, com 40, 50 anos, choraram ao ver o rio do alto do castelo de São Jorge…E moravam em Oeiras, a 20 minutos do castelo que se ergue no alto da capital do país, num bairro de 5 a 7 mil pessoas, calculo por alto. Vivem sem cidadania, sem acesso à cidade nem ao que de comum a civilização conquistou de bens essenciais. São as bolsas de trabalho barato, porque algumas das minhas alunas limpavam escritórios, a partir das 4 da manhã, por 2 euros e meio à hora. Porque trabalham por esse preço? perguntei-lhes, isso não paga nem o transporte. Mas paga a segurança social, senhora professora…
Eu tenho alunos favoritos, confesso, ali, na universidade e em todo o lado, e o meu favorito dos 40, não digo o nome, tinha 19 anos, cabo-verdiano, as marcas na pele dos maus tratos, doce como conheci poucos na vida, que não sabia ler nem escrever, tinha começado a trabalhar com 6 anos de idade, na ilha, acordava aqui às 5 da manhã para ser servente de pedreiro – uma carrinha esperava-o -, quando regressava ia a casa a correr tomar banho e às 6 da tarde estava nas minhas aulas, impecável, de olhos vermelhos, a lutar contra o cansaço para aprender a escrever. Era negro, e vivia assustado, movia-se com cuidado, apesar do seu 1,90 de altura, porque vivia entre os traficantes de droga lá do bairro que nele viam um potencial vendedor a retalho e a polícia do Estado português que mal o via, sem saber o nome dele, gritava-lhe todos os preconceitos que traziam no bolso contra os negros, e que incluia asneiras, virá-los contra uma parede, ameaçá-los, um desrespeito e uma humilhação qb. Sempre me tratou por Sra Professora, com uma voz tímida, e eu sempre o tratei por senhor, e ele ria-se sempre que eu o tratava por senhor, mas que outra forma podia eu usar?

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2 thoughts on “No gueto

  1. Custa-me acreditar que o nosso pais ainda tenha situações como a que relata. Custa pensar que sejamos tão pequenos, naquilo que nos projetaram para sermos tão grandes, no conhecimento.

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