A Bolachinha do Sr. Doutor

No Bloco operatório do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho não há batas XXL para os médicos operarem. Já tinham cortado o leite, as bolachinhas e a água, vamos repetir – a água – entre cirurgias de 2, 3 horas. O desejo sentimental do gestor em causa – que colocou uma central de compras a encomendar batas de tamanho mediano – deixou de fora todos aqueles que comeram alheiras, vinho tinto e pudim de abade de priscos. Uns abades estes doutores. O ideal era que se pudesse fazer com os doentes e com os médicos o que se fez com a alimentação, com a roupa, com os automóveis, os frigoríficos, padronizar tudo, garantindo uma divisão do trabalho que eleve os lucros “custe o que custar”. Como parece ter dito Ford sobre a sua produtiva linha de montagem “façam os carros que quiserem, desde que sejam pretos e iguais”. Na versão lusitana “tenham as doenças que quiserem desde que entrem no protocolo”, “comam o que quiserem desde que caibam na bata”. Não vou fazer, porque ia roubar-me algumas horas improdutivas, as contas para saber o diferencial produtivo entre comprar uma bata XXL e ter um cirurgião que levou 14 anos a formar a operar e a operar confortável. É o mesmo que comprar um Volvo e deixá-lo parado por falta de gasolina e andar de carroça. Sobre o leitinho e as bolachas (seriam Maria?) enfim…, compreendo, e a água, oh! a água!, nitidamente um cirurgião do serviço nacional de saúde ter direito a água é, eu…bem, eu nem sei como pensaram nisso….!?, anos de desperdício a dar água aos cirurgiões. Quem foram os irresponsáveis que andaram a gerir este país e que tinham na central de compras uma rubrica para dar água a cirurgiões?

Agora a pergunta menos relevante, porque séria, e este país habitou-se a perguntas sem sentido estilo “um doente morre ou fica vivo?”, “as crianças comem ou passam fome?”, “o professor tem 1 mês de contrato ou 2?”. E a pergunta séria é: quantos anos vamos levar a conseguir trazer de volta os médicos que emigraram, os que saíram para o sector privado, os que estão desmoralizados a aguentar esta gestão ruinosa de um Serviço Nacional de Saúde que nos levou décadas a erguer em investimento em educação, formação, universidades, hospitais, tecnologia, infra estruturas? Como vamos mudar o país e impedir esta regressão de prosseguir caminho, mas também como vamos recuperar o que já foi destruído e que não pode ser reconstruído de um dia para o outro? Um cirurgião leva 14 anos a ser formado, 14! Vivemos claramente abaixo das possibilidades da compreensão da central de compras que é este Governo.

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13 thoughts on “A Bolachinha do Sr. Doutor

  1. Bem, ainda se o método (ridículo nestes casos, e muito injusto noutros) fosse aplicado, com o mesmo rigor, e detalhe, em todas, mas todas as vertentes do relacionamento do Estado com os seus profissionais, e com a sociedade em geral, até seria coerente, compreensível e útil…mas acontecem estes “excessos de zelo” e paradoxalmente, em vertentes com detalhes de muitos milhões (PPPs, bancos, administrações de EPs, serviços de apoio e logisticos do/ao Estado, Venda de empresas públicas, empréstimos externos, etc., ) aquelas preocupações não se verificam, antes pelo contrário….o que prejudica enormemente os portugueses e mata a confiança dos portugueses nos seus políticos.

  2. Pois é…e ainda há gente que defenda estes criminosos do PSD/CDS-PP e afirmam que eles estão a colocar o país na linha. Sim…no fim da linha. Sociopatas, cínicos e debochados. Só tem mais 6 meses no poleiro.

  3. Vi a sua intervenção na barca do inferno no mês passado e tenho vindo a conhecer as suas opiniões sobre o estado actual do SNS. Sou médica. Entrei para a profissão sabendo exactamente no que entrava (visto ser, como tantos outros que seguem as pisadas dos pais, filha de médicos). Sempre achei que era uma profissão igual às outras, talvez mais apaixonante por ter a sorte de ter dois exemplos de paixão absoluta pelo seu trabalho. Foi só quando me encontrava a meio do internato que comecei a perceber o peso que vem com o que faço. As noites sem dormir, o coração apertado por ter errado e saber que podia ter feito de outra forma, as consequências directas dos meus actos. É engraçado que também foi nessa altura que deixei de me queixar tanto do meu salário baixo comparativo com o meu investimento e de pensar que as preocupações de amigos meus com profissões distintas que me pareciam sempre demasiado pesadas para o seu tamanho. Vivo mesmo o que faço. E deixa-me triste quando vejo o noticiário e leio comentários de jornais online. Cada vez mais pelo contacto com os outros me apercebo que o ser humano é mesmo do mesmo barro. E não compreendo a vilanização que há contra os médicos (aliás, compreendo, mas não percebo como é que a maioria portuguesa digere isso de bom grado). O pedestral que nos colocam quando a maioria dos meus colegas são, no fundo, das pessoas mais vulneráveis que conheço – e pior, como somos perseguidos por isso. Como se transformou uma luta de classes quando devia ser uma luta pelo SNS. E o pior, é ver a degradação por dentro… E amigos intimos meus que consideram-me privilegiada, mesmo quando me conhecem, porque os médicos têm tantas regalias – horário flexível, congressos e grandes ordenados (ainda que com as minhas notas eu pudesse estar a ganhar 5x mais que os 1190 euros mensais que tenho sem um quinto das minhas preocupações).
    Somos um país desenvolvido. Nunca tivemos tanto acesso à educação e à formação, mas por outro lado, nunca esteve a desinformação tão evoluida e tão agressiva.
    É notório o processo de desmantelamento do SNS. É notório que a perseguição que se observa contra a “classe” médica, é o aproveitamento de um povo empobrecido, desesperado e sem fé que precisa de um bode expiatório de aparente segurança e estabilidade profissional (em extremo quase como vimos em situações europeias há não tanto tempo atrás – a história repete-se, lá está, é o mesmo barro).
    Odeiem-nos, maltratem-nos. Mas não fiquem cegos ao ponto de entregar de bandeja a saúde ao privado. As pessoas valem a pena. E no fundo, é disto que se trata… de pessoas. E no fim, com este processo, sem o SNS, vão ser só números.

  4. Rubrica, sem acento. De resto, concordo com a análise, que devia ser óbvia para qualquer pessoa com dois dedos de testa.
    Uma médica interna

  5. Bom dia,
    Penso que foi a si que ouvi uma vez a propósito de uma carta de uma médica que ia emigrar. Disse coisas acertadas. Ou pelo menos entre algum dramatismo a tal médica terá escrito as coisas acertadas a que você deu voz.

    Sou médico, sou interno (básica e infelizmente a classe que permite que ainda exista um SNS) e desta vez descordo consigo absoluto.

    Eu levo a minha água de litro e meio para o trabalho todos os dias. Compro-a num hipermercado a 27 cêntimos/litro para evitar ter de comprar a 1€ e 10 num dos bares do hospital. Da mesma forma que tomo o pequeno almoço em casa, que levo o lanche da manhã, da tarde e a ceia se for caso disso.
    Primeiro porque entendo que não seja obrigação dos demais (estado) financiar a minha alimentação ainda que no local de trabalho e em segundo porque me ajuda a não chegar ao ponto de me lamuriar porque o hospital não tem batas XXL!

    Agora a sério? O argumento que serve de cereja no topo do seu bolo são batas XXL? E ao mesmo tempo queixas de que não há bolachas Maria? Vá lá não reclama também uma Coca-Cola, um Ice Tea ou um Compal, lá reclamou por água, imagine, água que existe nas torneiras em perfeitas condições de se beber..

    Percebo o seu argumento contra os gestores hospitalares e os cortes cegos que fazem no modelo de gestão actual. Contudo permita-me criticar o seu argumento. Mais que um cirurgião gordo incomodado que a bata aperta, fazem-me falta enfermeiros e médicos motivados, com energia e capacidade de concentração. Faz-me mais falta um sistema informático que funcione, um servidor e computadores cujo funcionamento seja compatível com a importância que têm no meu trabalho e naturalmente nos cuidados prestados ao doente, tal como existe em alguns privados.

    Pelo que e em resumo, o seu alvo foi bem escolhido (os, no geral, gestores e administradores quadrados que temos) mas os seus argumentos foram um tudo nada ao lado!

    Continuação de um bom trabalho,

    João Coucelo

    • Realmente a realidade dos Médicos mais jovens deve ter-se alertado muito desde que sai de Portugal.
      Devo dizer que não se deverá ler Bata, como Bata Branca de Médico, mas “scrub” de Cirurgião.
      Ou seja a única roupa permitida a qualquer profissional de Saúde dentro de um Bloco Operatório. Sendo assim tanto um Enfermeiro, México ou Auxiliar de tamanho XXL está impedido de fazer as suas funções confortavelmente ou terá que as fazer comprometendo o barreira imposta pelo controlo de infecções.
      Da mesma forma sempre que alguém sai ou entra de uma área Isolada, como um Bloco Operatório ou áreas anexas, compromete esse isoladamente só para ir beber um como de água ou comer uma bolacha Maria.
      Não devo mencionar quais são os gastos só no facto de muda de roupa e todo o processo de entrar e sair dessas áreas mas menciono apenas uma premissa básica da Saúde – É sempre mais barato prevenir que Curar…
      É realmente interessante ver um Sistema que tinha muitas falhas estar a ser completamente destruído com a desculpa de resolver essas mesmas falhas.

      Até quando?

      Com mentalidades fechadas e moldadas não será tão cedo com toda a certeza…

      Não só os Médicos mas todos os Profissionais de Saúde em Portugal não deviam lutar entre si mas juntos!

      • É realmente interessante ver um Sistema que tinha muitas falhas estar a ser completamente destruído com a desculpa de resolver essas mesmas falhas. – penso que esta frase resume bem a situação péssima, obrigada pelo seu comentário. Raquel

      • Sou um ávido opositor tanto da guerra de classes como a de gerações que tanto gostam de instigar nos media.

        Dito isto e pondo de parte a discussão bata vs scrubs (porque no fundo, em Portugal não vai ouvir nenhum cirurgião pedir um “scrub”) no meu comentário não digo que não seja importante o cirurgião XXL operar confortável, digo isso sim que é um argumento coxo dada a quantidade de bons e mais relevantes argumentos alternativos para trazer à baila e ainda assim, fosse esse o argumento, preocupar-me-ia antes (tal como na semana passada falei à nutricionista do nosso serviço) como é possível um estado que investe em tanta educação do cirurgião não investir em políticas e protocolos internos para evitar que um “bem” tão valioso se deixe estragar e reduza a sua capacidade de trabalho, aumente a sua vulnerabilidade a um conjunto de doenças (redução de produtividade) e em última análise reduza a sua esperança média de vida útil (entenda-se profissional) e no geral com qualidade.

        Mentalidades fechadas não existem, o que existe é uma equação onde se junta uma população crescentemente centrada exclusivamente no seu “ganha pão” dado este ser cada vez mais curto e árduo de ganhar (se calhar você saiu de Portugal quando se deixou de ter aumento salarial anualmente e não experimentou essa frustração) sem tempo nem energia para se opor a um sistema profundamente corrupto e cheio de conflitos de interesse.

  6. Pingback: A Bolachinha do Sr. Doutor | Raquel Varela | AICL

  7. João Coucelo, como Enfermeiro e parte integrante de uma equipa multidisciplinar, tenho de louvar a excelente e assertiva análise que fez dos “reais” problemas de um hospital.

  8. A realidade é só uma: Esses Médicos nunca voltaram a ser os mesmos.
    Ou nunca voltarão para Portugal ou nunca voltarão para o sector Público ou nunca voltarão a ser Médicos da mesma forma…
    Ou seja nunca o SNS voltará a ser como foi para o Bem e para o Mal…

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