Natureza Humana

Quem escolhe por nós e como, em nome de quê e para quê é uma das chaves da compreensão do nosso lugar no mundo, porque isso – a sobrevivência – é aquilo que determina as escolhas pessoais, afectivas, que estão sempre sujeitas a este drama inicial, que tantos resumiram no passado na metáfora do “pão e da poesia”. Garantir a todos as formas de reprodução social, bem estar, para que todos possam fazer poesia e aí viver, com dramas ou sem, mas em liberdade, os seus afectos e toda a dimensão criativa, que são as partes humanas da nossa natureza animal. Há neste mundo porém, em que o lugar da política está resumido às instituições, gente que todos os dias insiste em ter ideias brilhantes por nós.

Ando de transportes públicos – porque os há bons onde vivo e trabalho – bicicleta e a pé. 5, 6 km por dia a pé, parte do meu trabalho é aí feito, em caminhadas entre o comboio e a minha universidade, é até hoje o lugar onde consegui resolver mais problemas científicos – a andar. Um dia colocar-me-ão um relógio de ponto e uma secretária de metal cinzento, de design, e eu deixarei de conseguir pensar. Tenho uma relação com os carros vaga, que uso sobretudo à noite. Um dia destes fui confrontada com a inevitabilidade de colocar gasolina no meu, tarefa de que fujo, e paralisada perante vários manípulos e cores, liguei a um amigo perguntando-lhe se devia colocar gasolina de 1995 ou 1998. Ele, quando conseguiu parar de rir, perguntou-me se eu achava que a gasolina “era como o vinho, tinha anos de boas e más colheitas?”. Octanas, isso são octanas, há 95 e 98!. No mês passado fiz 20 km em 2ª porque a embraiagem deixou de funcionar. Quando, ansiosa, cheguei ao mecânico, ele explicou condescendente e doce que o tapete estava…a tapar o pedal. Estaria aqui a tarde toda a partilhar convosco o meu contributo para o anedotário “mulheres e carros”, que é a única parte com graça desta triste história.

Conheço bem porém o tema gestão de dinheiros públicos, e escrevi aqui uma curta nota onde ironizava com a medida de proibir o acesso dos carros anteriores a 2000 ao centro da Lisboa, uma Governação, nacional e local, que com taxas e impostos verdes asfixia o país, e com medidas como esta, “salvam” a natureza diminuindo a massa salarial da população ao ponto de colocar em causa até a alimentação desta, a base da reprodução social. Não há poesia neste país, onde pessoas irresponsáveis tomam decisões como esta que tem como consequência a restrição do acesso ao centro da cidade aos mais pobres – quem o disse foi o presidente do ACP. Afinal um carro novo com 3000 de cilindrada polui muito mais do que um velho com 1000. Estas medidas não passam de incentivos à comatosa indústria automóvel alemã, que Merkel já isentou de impostos desde 2008 tentando salvá-la – em vão, a produção de automóveis está morta e, dizem os melhores economistas, vai explodir.

Toda a asfixia fiscal, taxas e taxinhas, podiam ser colocadas em bons transportes públicos que servem para…transportar pessoas? Errado. Quanto menos carruagens e menos comboios existirem mais “eficiente” é o transporte público porque o dinheiro que se poupa a transportar pessoas é investido em títulos da dívida pública, uma renda fixa, ou seja, um negócio sem riscos, ou em SWAPs, um negócio tóxico, com riscos, que tem sido o paraíso destes ministros e secretários de Estado, a começar pelo dos transportes, Sérgio Monteiro – só agora da sua responsabilidade evaporaram-se em SWAPs 150 milhões de euros.

Em breve podem começar a fazer como no Brasil onde há uns tipos cuja profissão é empurrar os passageiros para que caibam dentro das carruagens, na mesma Europa que financia as vacas, ao abrigo da Política Agrícola Comum, com 2 dólares por dia. É o que recebe cada vaca, no continente da civilização. Num mundo onde o comércio mundial depende do transporte da China de gigantes navios poluentes, nós sabemos que o busílis da questão não é a poluição. António Costa podia beber um bom vinho, de 1995 ou 1998, baixar as defesas emocionais, revogar a lei, e pedir-nos humildemente desculpas – em nome da natureza humana.

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