Os loucos encontram-se com a história

Publicado hoje, 12-1-2015, na revista Sábado

“Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só e as coisas que há e estão para haver são demais de muitas (…) e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.”

Apesar do esforço dos governos europeus para cavalgar a repulsa geral da população pelo bárbaro assassinato de cartunistas e jornalistas do Charlie Hebdo e fazer dele um caso de polícia, bombas, fronteiras, a cabeça da gente é como a de Riobaldo, em Grande Sertão Veredas – a gente tem necessidade de a aumentar.

Rambo III terminava, antes de ser mudado uns anos depois, com uma dedicatória final a “todos os combatentes pela liberdade, mujahedins do Afeganistão”, armados pela monarquia absoluta teocrática da Arábia Saudita e pelos EUA, contra a URSS na guerra civil que se seguiu à invasão soviética de 1979. É esta a origem mais remota dos grupos terroristas que hoje enchem as páginas dos jornais. Em rigor ninguém sabe hoje qual é a dimensão destes grupos, quantos são, de onde vêm, quem os financia. O processo histórico é o resultado de uma combinação complexa entre factores subjectivos e objectivos, mas um barril de gasolina raramente tem dificuldades para encontrar um fósforo. A história encontra os seus loucos se for feita para tal.

O grande salto da urbanização nas sociedades periféricas dá-se na segunda metade do século XX na Índia, na África, no Médio Oriente. O fim das sociedades camponesas, em pleno auge do falhado nacionalismo árabe, e sua evolução posterior para políticas liberais encheu as cidades destes países de mega bairros de lata e milhões de desempregados a viver em condições sub-humanas. Na Mauritânia, por exemplo, há 10 anos o desemprego atingia 80% da população… Estado Social não existe nestes lugares, expressão que quiçá nem se pronuncie por ali, existem velhas solidariedades familiares e os lugares de culto passaram a ser espaços de educação, saúde, serviços de reprodução social da força de trabalho.

As universidades ocidentais mudaram o nome às disciplinas de estudo dos países periféricos, de coloniais para pós-coloniais. Optimismo ou falta de rigor, porque são todas, sem exceção, sociedades neocoloniais. Falamos de países devastados por uma política neocolonial que assenta 1) na exploração maciça dos seus recursos naturais; 2) na destruição da sua soberania alimentar, pelo domínio da monocultura do chá, café, cacau, etc. e apoio na Europa aos excedentes alimentares que financiam as rendas agrícolas dos grandes proprietários, ao abrigo da PAC, excedentes que para evitar que entrem no mercado baixando o preço dos alimentos, são comprados pelos Estados europeus, doados às agencias humanitárias, que os despejam em África, arrasando os agricultores locais; 3) na última década estes países são alvos perfeitos para o complexo industrial-militar norte-americano. A lista de produtos a serem consumidos – aviões, aço, drones, electrónica, tecnologia diversa, informática – é proporcional ao número de países que são bombardeados, lista que aumenta todo os anos: Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Mali, Palestina ano sim, ano não. A maior indústria do mundo é esta, o seu coração está nos EUA e é a partir da sua evolução (composição da capacidade instalada e custo do trabalho) que hoje os mais sérios economistas avaliam o desencadear da próxima crise cíclica. Nestas guerras, os governos europeus têm sido mais do que cúmplices, companheiros de armas, malgrado a maior manifestação da história da humanidade, em 2003, ter mostrado a rejeição a estas políticas por parte dos povos da Europa. Que querem paz. Paz.

Os imigrantes têm sido historicamente usados como pressão sobre os salários na Europa. O papel que hoje jogam os desempregados – pressionar para baixo os salários dos que estão empregados – foi durante décadas o calvário dos imigrantes destas regiões. A direita reage a isto promovendo de facto a imigração, mas nas palavras condenando-a para manter uma parte desta força de trabalho clandestino – porque se um imigrante é um trabalhador barato, um imigrante ilegal é um trabalhador ainda mais barato. Os imigrantes são expulsos do mercado de trabalho com mais facilidade – na Holanda em 2012 havia 7% de desemprego entre os Holandeses e 30% entre os imigrantes. A esquerda reagiu a isto exigindo livre circulação de pessoas e direitos humanos – é justo, porque são dois princípios dos quais não se pode abdicar. Mas há outros dois factores fulcrais. Se a imigração actua como uma pressão sobre salários é uma mecha de pólvora para o racismo – não se pode aceitar diferenças salariais entre trabalhadores, porque a melhor ideia do mundo – igualdade entre povos – esbarrará na realidade – a desigualdade salarial. Por outro lado, há muito que os Europeus deviam ter questionado se estes povos não têm direito a ser felizes onde nasceram, ou seja, o princípio da autodeterminação, de os povos disporem de si e dos seus recursos. Porque uma coisa é a livre circulação – que defendo –, outra é o exílio imposto pela miséria. Se hoje os Portugueses se angustiam com a obrigação de emigrar para sobreviver, fruto de políticas recessivas, o que pensará um africano que atravessa o Sara, entra num barco-esquife no Mediterrâneo e, se chegar ao fim vivo, terá um trabalho miserável, viverá num gueto, de onde sai para limpar escritórios, e quando for à escola vai ter um currículo adaptado a uma mão de obra pouco qualificada? O problema da emigração na Europa não está só na forma como a Europa trata os seus imigrantes, mas como a Europa trata os outros países.

Duas últimas notas, num debate que não se esgota aqui
Não se pode confundir a liberdade de expressão com o fuzilamento de cartoonistas num acto terrorista. A bitola da liberdade de imprensa não pode ser daqui para a frente colocada em Charlie Hebdo. Assistimos não a um atentado contra a liberdade de expressão – esses são feitos todos os dias pelos Governos e meios de comunicação na Europa – mas a um atentado terrorista que, como todos os terrorismos, assenta num acto cobarde que vitima inocentes, em geral e por norma porque esses mesmos terroristas não dispõem de meios para atingir os alvos que almejavam. Com capuzes e metralhadoras chega-se aos inocentes do Charlie Hebdo, ao café da esquina, à estação de comboios, com aviões bombardeiros chegar-se-ia a outros lugares e estaríamos aqui a discutir um acto de guerra, que é, recordo, o que se passa na Líbia, na Síria, no Iraque, no Afeganistão, no Mali… O homem-bomba patrocinado pelas teocracias árabes que se faz explodir é uma metáfora da barbárie que se instalou no mundo. Não deixa de ser quase humorístico que a extrema direita peça a reintrodução da pena de morte para … suicidas, mostrando o desnorte das políticas repressivas e securitárias, que jamais nos devolverão segurança e paz. Volto ao meu argumento inicial – não se pode confundir isto, a barbárie, com o questionamento da liberdade de imprensa, porque essa é questionada todos os dias quando os governos controlam as televisões, os grupos económicos, os jornais, quando os jornalistas não têm condições laborais protegidas, quando a informação passou a ser um condensado de um lobby que pagou mais a uma agência de comunicação. Charlie é sobre a barbárie, porque ausência de liberdade de expressão na imprensa já estava há muito instalada na Europa.

Finalmente uma nota sobre o humor. Muitos têm lembrado durante estes dias, condenando de forma inequívoca o atentado, que o Charlie Hebdo fazia piadas sobre uma minoria segregada em França e que isso alimenta a islamofobia, o eurocentrismo e a acumulação feita com base em salários baixos. O argumento é forte, porque verdadeiro. Discordo, porém. Quando o seu companheiro e grande amigo Graham Chapman morreu, os Monty Python no ofício fúnebre, contaram piadas, riram, reclamaram terem sido os primeiros a pronunciar a palavra fuck num funeral (tal como Chapman dizia ter sido o primeiro a dizer shit na televisão) e cantaram “Always look on the bright side of life” (que era cantado pelos crucificados no final de A Vida de Bryan). E por isso o funeral foi menos doloroso, foi até divertido. O humor é isto. Como o amor, é libertador. É a nossa resistência ao sofrimento, ambos nos elevam, nos ajudam a sermos mais livres, menos estúpidos, e por isso mais humanos. Não se podem usar todos os meios para atingir os fins, e o fim essencial de acabar com o racismo, a homofobia, o machismo, e a desigualdade social que os alimenta não autoriza a pôr fim à liberdade de rir, de tudo e de todos. O humor é um pouco como diz a certa altura o Riobaldo de Guimarães Rosa sobre o amor, um “descanso da loucura”. E nós precisamos como nunca de descansar da loucura.

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