O Bom e o Mau Povo Português

Dolores, mãe do futebolista Cristiano Ronaldo, veio numa reportagem no Expresso, como tendo passado a noite com, cito “150 euros a mão e a assistir à Casa dos Segredos”. A minha crítica de que essa cultura era deformadora do “povo” e pirosa, um exemplo lamentável de noite de glamour, foi visto por 2 blogues de extrema-direita (um “jornal” Observador e O Insurgente), que os meus caros amigos aqui do facebook tiveram a indelicadeza de me fazer chegar, como um caso clássico de arrogância de quem não compreende o “povo”, a que se teria juntado o comentário que fiz sobre o estilo de vida de Passos Coelho, “suburbano e com fatos de segunda”.

Se é verdade que não é Dolores enquanto indivíduo que está em causa mas a cultura veiculada pelos grandes talk shows de TV, e acarinhada nos media, que despediram quase todos os jornalistas de cultura; se é também verdade que ditos blogues não nos merecem reparo – trata-se de um caso clássico de espaços virtuais onde se caluniam pessoas em vez de debater ideias, não se acrescentam quaisquer factos ou dados, o tema, como um todo, esse merece ser olhado com alguma reflexão.

Deixemos de lado o equívoco sociológico – povo é uma categoria nacional, somos todos nós. Explica muito pouco. A categoria classe social e fracção de classe social é muito mais densa para as ciências sociais. Mas povo tem a força da palavra. O senso comum gosta de atribuir ao povo características especiais – povo versus elites; povo versus políticos; pobres versus ricos. Há assim os que têm horror ao povo – muitos intelectuais -, que lhes aparece como uma massa de ignorantes prontos a linchar à porta de um tribunal um criminoso comum; e os que o olham como um belo, castiço, tradicional espelho da nacionalidade, livre nas suas escolhas, por mais boçais que sejam, ainda assim genuínas. Devo dizer que eu não partilho de nenhuma destas teses: estou entre os que acham que há de tudo no povo, gente decente, corajosa, que chega ao fim do dia e fez o melhor que pode e consegue para, em condições laborais miseráveis, dar o melhor a si e aos seus; e há os que sucumbem à competição, à inconveniência, e mesmo à brutalidade. E ainda creio mais: creio que o mesmo povo cobarde (24 de Abril de 1974) pode dar provas, mediante circunstâncias especiais (golpe de Estado no caso citado) de uma grande coragem (19 meses seguintes ao 25 de Abril). Digamos que acho que os demónios e os deuses convivem dentro das mesmas pessoas. A banda filarmónica e a casa dos segredos podem estar dentro do mesmo ser, e que nos cabe a nós, com responsabilidades públicas e acesso, infelizmente privilegiado, ao conhecimento complexo, dar uma opinião sincera sobre o que vemos e refletimos, deixando que, como em tudo na vida, as pessoas possam escolher, mas possam escolher depois de ouvir o contraditório. Seria paternalismo impor aos outros as nossas escolhas, mas é totalitarismo cultural não os confrontar com outras alternativas.

E a minha opinião sobre isto resume-se em poucas linhas.

Passos Coelho cultiva, como Cavaco Silva, um estilo austero e humilde, na roupa, nos lugares onde moram, o mesmo Passos Coelho que criou, segundo o INE, 1 milhão de pobres, nos mesmos anos, segundo o Credit Suisse, que criou 28% de novos milionários. Como Cavaco Silva, de porte humilde e até meio déclassé, mas que iniciou com as privatizações o processo de destruição das empresas públicas e acabou com todos os seus braços – os direitos, centros e esquerdos -, enterrados no escândalo do BPN que já levou ao povo português que trabalha mais do que todo o Serviço Nacional de Saúde, uma das raras coisas que era para todo o povo, incluindo para Cavaco Silva e Oliveira e Costa. Salazar foi quem começou o estilo, é verdade. Criou os maiores grupos económicos da história do país com condicionamento industrial e disciplinarização da força de trabalho, proibição de partidos e sindicatos, e trabalho forçado nas colónias. Sempre discreto, com um ar de pobre, “pobrezinho mas com fartura de carinho”. Ele sacrificava-se pelo povo, como Passos Coelho e Cavaco Silva.

Cuidar do povo é garantir que este tem acesso ao Estado Social que sustenta, aliás, em impostos (saúde, educação, segurança social), alimentação e roupas, e todo o kit de sobrevivência acima do mínimo, porque a produtividade hoje permite isso, permite o decente; e cuidar, claro, que as pessoas vivem em lugares dignos e confortáveis, que os centros históricos não são só para turistas, em vez de uma política baseada no crescimento suburbano concentracionário e no transporte individual (é bom lembrar que o paraíso de acumulação destes patos bravos, dos seus partidos do bloco central e da corrupção foi a política imobiliária que gerou, só em mais valias, 200 mil milhões de euros). Cuidar do povo é garantir também que o conhecimento complexo e a cultura podem ser de todos, para todos.

Sobre a Casa dos Segredos acho que funciona com todos os ingredientes para criar monstruosidades sociais – ela é hoje, como o futebol, uma quimera de mobilidade social (entre os milhares que ficam no caminho, um terá dinheiro para viver) – mobilidade social que por ausência de uma política de pleno emprego não existe na frequência do ensino superior, por exemplo. Por isso oiço, incrédula, que há mais concorrentes a fazerem sexo ao vivo na Casa dos Segredos do que candidatos ao ensino superior português. É a barbárie social. Ela é também um apelo ao que de mais animalesco e deformado há no “povo” – sobre isto não percam por favor o artigo de António Guerreiro, o Povo da Televisão, que aqui linko. E é também espelho, e porventura essa é a característica mais importante, da redução de investimentos nos programas de TV. Na Casa dos Segredos não se paga a escritores, argumentistas, diretores e realizadores e sequer a actores,  e é isso, ausência de custos e trabalho gratuito (concorrentes), que domina hoje na TV todo o horário nobre, e que faz o jackpot e sobrevivência das televisões privadas.

Tenho medo da ignorância, um medo aterrador. Quando a vejo, e nada posso fazer, olho para o lado, constrangida, sinto-me ameaçada pelos ignorantes, não pelos canudos ou ausência deles, mas por quem sucumbe à tropa de choque das massas galvanizadas atrás dos instintos mais animais, entre eles o de sobrevivência. Não tenho medo do povo, muito menos do “meu” – dediquei-lhes o trabalho mais denso e detalhado que fiz, A História do Povo na Revolução Portuguesa -, que é uma história só de uma parte do povo, dos resistentes, dos que construíram o que de melhor este país teve na segunda metade do século XX – a sua grandiosidade naqueles dias, quando ocuparam, gente pobre e analfabeta, casas para fazer teatros (no livro cito vários exemplos), toca-me e dá-me esperança.

Em Taveiro, perto de Coimbra, há um teatro amador e uma banda filarmónica, de que um dos professores, voluntário por mais de 40 anos, e ainda hoje lá professor, foi um operário da EDP, filho de um outro professor, fundador da banda, ferroviário. São raras as pessoas de Taveiro, as crianças e hoje adultos, que não tocam música e muitas seguiram para o Conservatório. Escolhi este, como podia escolher entre os meus amigos de origem operária e humilde, dezenas de outros exemplos. É com este “povo”, mas, é preciso dizê-lo, contra uma outra parte do povo, que vamos voltar a fazer deste país um país. E ver a banda tocar e passar outra vez.

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17 thoughts on “O Bom e o Mau Povo Português

  1. Pingback: Primeiro destroem a cultura; e depois criticam a cultura destruída | perspectivas

  2. Cara Raquel. Tenho-a neste momento como uma das pensadoras mais geniais e lúcidas no nosso panorama intelectual. O seu único problema é apenas estar à frente do nosso tempo intelectual, ainda tão mecanicista.

  3. Como gosto de a ouvir e ler! Diz tudo o que deve ser dito sempre mantendo uma postura impecável. Que raiva deve fazer sentir aos seus opositores. Precisamos de muitas Raquel Varela e de muitos Paulo Morais…..Será que aparecem. …começo a perder a esperança. …

  4. Cara Raquel, concordo consigo em muitos dos aspectos e factos citados, no entanto, não posso deixar de afirmar isto: o “Povo” é só um. Poderíamos passar dias a dissecar os tais aspectos, factos, dissonâncias. Não altera nada. Não deixa de ser uma imensa massa social, longe de ser totalmente homogénea mas com alguns traços transversais que a define enquanto “Portugueses”.

    Esses Portugueses que, enquanto povo, criaram, ao longo dos séculos, um Estado. Que, hoje, é democrático. Com todos os seus defeitos e virtudes.
    E em Democracia, não há direitos. Há princípios. Garantias. E responsabilidades. Por isso, independentemente do que cada um julga que faz, ou fez, em prole do desenvolvimento social, será sempre responsável pelo estado de desenvolvimento do mesmo. Não significa que se sinta culpado. A culpa implica dolo mais ou menos consciente. Mas somos, sempre, todos responsáveis.

    Sim, a Cultura tem ficado dolosamente preterida, fruto de mentalidades governativas (e não só) cada vez mais tecnocratas. Mas também é verdade que toda a questão tem dois lados. Não tão raramente assim, a Cultura (pelo menos, a mais “erudita”) assume tiques de arrogância e sectarismo. Se é verdade que não é um produto fácil de cativar as massas, também se pode dizer que, durante muito tempo, os seus interlocutores se acantonaram no seu cantinho exclusivista.

    Num outro lado, um dos pilares fundamentais de um Estado de Direito Democrático, com um papel preponderante no tal desenvolvimento social, a Comunicação Social, enveredou, há muitos anos atrás, por um caminho que conduziu à sua lenta degradação. O narcisismo de muitos dos profissionais, que se deixaram encantar (e arrogar) pelo poder que conquistaram com a proximidade ao poder político, na época dourada da “liberdade de imprensa” pós-25 de Abril, e que permitiu, entre outras coisas, para além de uma mobilidade “social” específica dos seus interlocutores, a construção de muitos negócios envolvendo os órgãos de comunicação e as empresas de “assessoria de imagem”, que foram surgindo como ervas daninhas.
    Muitos dos profissionais que clamavam isenção e assertividade, liberdade de informação e cidadania, foram os que inquinaram os princípios de base. Como George Orwell concluiria, o nosso jornalismo atingiu o estado de Relações Públicas…

    Estes serão apenas dois aspectos de uma problemática mais profunda. Servem como exemplo do intenso nível de cinzento que tinge estas discussões.

    Em relação a quem vê a Casa dos Segredos ou futebol, devo dizer-lhe que não vejo o primeiro mas gosto de, de vêz em quando e quando calha, ver um bom jogo de futebol. E gosto de brincar com os meus amigos simpatizantes de outros clubes que não o meu sobre os infortúnios dos seus clubes de afeição. Mesmo assim, eu, que nunca fui a um estádio ver um jogo, mais depressa irei ver uma Ópera nas Termas de Caracalla. Isso faz de mim o quê ? Não faço idéia. Porque também iria gostar de ver um Real Madrid-Barcelona.
    Não obstante isso, não sou capaz de criticar quem vai a um estádio ou quem vê a Casa. O segundo é um espectáculo degradante e abjecto, sem sombra de dúvida, mas será que assistir a um “comentador político”, cujo bom senso e rumores nos dizem não passar de um hipócrita, não se afigurará como um espectáculo degradante, abjecto e, ainda por cima, hipócrita, aos olhos de uma grande parte do povo ? Pelo menos, e no que toca à Casa, eu sei (porque foi o que me responderam quando questionei quem vê) que eles têm noção de que aquilo é uma palhaçada inócua. Entretenimento de baixo nível, sem dúvida. Mas inócuo, até certo ponto. Não é, certamente, responsável pelos problemas do Ensino Superior e empregabilidade. Essa é uma outra questão, que dava pano para mangas.

    Quanto aos que lhe criticaram a frontalidade, o problema deles não reside num desagrado face ao seu “elitismo”. Reside, isso sim, na hipocrisia de quem teima em atribuir uma conotação política (a esquerda elitista) a uma opinião crítica social, apenas porque gosta de se fazer passar por “gente do Povo” (a direita social), aproveitando as foto-ops ao lado dos Cristianos Ronaldos e afins. Terem que “levar” publicamente com a mãe, de sorrisos amarelos para, logo depois, tecerem comentários trocistas quando o jovem e sua família já não se encontram presentes. Ou, mais subversivamente, fazendo realçar, à laia de notícia, o pormenor do programa que a senhora quis ver.

    Esse é o cinismo hipócrita e cobarde de quem tem que engolir com um jovem e sua família, de origens humildes, que transmite, internacionalmente, uma imagem portuguesa de trabalho, seriedade, profissionalismo, dedicação, superação. Goste-se, ou não, da personalidade em si. Não duvido de que haveria quem desejasse que, a ser um “exemplo”, ele fosse um mais amplo, quase imaculado. Não o é. É um futebolista fantástico. E eu, enquanto Português, gosto mais de ver uma partida em que ele joga de forma determinante. Sempre contrasta com o prémio atribuído pela BBC a Ricardo Salgado. Ou outras notícias do género, que vão correndo por esse mundo fora.

    Isto para chegar à sua última afirmação:

    “Escolhi este, como podia escolher entre os meus amigos de origem operária e humilde, dezenas de outros exemplos. É com este “povo”, mas, é preciso dizê-lo, contra uma outra parte do povo, que vamos voltar a fazer deste país um país. E ver a banda tocar e passar outra vez.”

    Em Democracia, você, como qualquer outra pessoa, é livre de tomar decisões, lutar e defender o que bem entender e da forma que bem entender. Mas, e tudo isto é apenas a minha opinião, um dos erros fatais de quem luta por uma sociedade melhor, é entender que o tem que fazer contra uma parte dessa mesma sociedade…

    Votos de um Bom Ano e de bom trabalho.

    Hugo Rego

  5. Raquel, que paciencia santa que tem no programa da Barca com as suas “colegas de mesa”. Parabéns por manter o respeito pela sua profissão. Não é nada fácil. Tenho assistido a uma tentativa sumária de ridicularizarem assuntos tão sérios e a Raquel tem apontado sempre um caminho muito nobre sem se deixar levar nos sorrisos e nas ideias sem base ciêntifica.

    É um orgulho acompanhar o seu trabalho académico. Parabéns.

  6. Pingback: O Inferno da Barca | Cibervadiagens

  7. No essencial concordo com a sua análise. Talvez não partilhe inteiramente do estilo, mas para alguns reaccionários neste país, às vezes é importante estas coisas serem ditas com a coragem com que as diz. A única pessoa sensata naquele programa, deixe-me dizer, muito fraquinho. Se tivesse a Manuela Moura Guedes ao meu lado a interromper-me constantemente com aleivosias, já teria perdido a calma.

  8. Depois de ler quase 1/3 do longo texto pensei: tom ponderado, sóbrio e muito bem articulado, nem parece a Raquel Varela!!! (o meu ponto de referência são as suas intervenções no espaço público). Depois voltou ao registo habitual. Quanto ao povo mau/bom, parece que já na Batalha de Aljubarrota de um lado estavam portugueses e do outro castelhanos e portugueses!!! Não é que tenha importância, mas houve uma parte do texto em que ia caindo da cadeira: “Por isso oiço, incrédula, que há mais concorrentes a fazerem sexo ao vivo na Casa dos Segredos do que candidatos ao ensino superior português.”. Era mesmo isto que pretendia dizer / escrever?
    PS: A Barca do Inferno é melhor programa da televisão portuguesa!! 🙂

  9. Pingback: O Inferno da Barca - Cibervadiagens

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