Os erros do nosso sucesso

A vida podia ser um pedacinho melhor se tivesse mais gente falhada a ocupar lugares de responsabilidade pública, da culinária à revolução, a medida do sucesso é também o nosso erro.

Faço uns bolos deliciosos que geram comentários instigantes dos meus amigos – quando há piqueniques há a expectativa de saber com que ingredientes eu inventei um bolo, talento que não tenho na culinária regular. Tudo a olho, não tenho balança. Já me perguntei porque algo que é tão fácil para mim gera tanto entusiasmo. Levo escassos minutos a fazer um bolo delicioso, do exótico gengibre ao banal chocolate, da inesperada courgette à velhinha batata doce. A resposta, científica, está no meu passado falhado. Tive o privilégio de ter uma mãe tolerante aos erros. Quando eu era pequena odiava estar em casa, cresci convencendo, com luta, o meu irmão, mais velho, a levar-me para as brincadeiras de rapazes na rua, onde eu era feliz. Quando por alguma razão eu tinha que ficar em casa, a minha mãe, para sobreviver, deixava-me invadir a cozinha e fazer bolos, sujando tudo à volta, assumindo com piadas o prejuízo, que era também o preço do seu sossego. Enqueijados, esturricados, insuportavelmente doces, horrivelmente amargos, foram dezenas do forno diretamente para o lixo. Um dia, Otelo Saraiva de Carvalho, que planeou um dos mais bem sucedidos golpes militares de todo o século XX, o 25 de Abril, que abriu as portas à revolução dos cravos, disse-me que só o consegui fazer porque um mês antes, a 16 de março, tinha havido o golpe das Caldas, que falhou. E ele foi estudar em que é que os outros tinham falhado. Disse-me, cito-o: “sem o golpe das Caldas não teria sido possível o 25 de Abril”. O golpe das Caldas é retratado na historiografia…como uma precipitação, um rotundo falhanço. Qualquer cientista sabe que o caminho do sucesso é uma estrada de erros, nossos e dos nossos colegas – quando um médico descobriu uma cura para a humanidade baseou-se nas tentativas falhadas de centenas de colegas. Não se omita com isto o brilhantismo individual – a coragem, a persistência e o talento individuais costumam ser indispensáveis. Mas não podem ofuscar a construção coletiva, e falhada, que está por trás do sucesso.

Dir-me-ão que o caldo cultural desta sociedade de sucessos assim medidos, pela ausência de erros, é a cultura competitiva, individualista e narcísica que domina este “fim de século”, este fim de tempo….Acho porém que é algo mais forte. Nós vivemos numa sociedade perigosa, em que todos os poros da nossa vida – afectiva, política, social, – foram contaminados por uma chaga que atingiu todos, crianças a adultos, mesmo os que dela não deram conta – a “avaliação de desempenho”. A avaliação de desempenho é o contraponto da empresa enxuta – mantém-se 5% dos trabalhadores com direitos e 95% precarizados, e cria-se uma avaliação que impede os 95% de acederem à quota, de salários mais altos, pré-determinada dos 5%. Todos estão porém na competição. Na universidade o tecto são 20 artigos, quando todos atingem esse tecto, passa a 30 artigos, e assim sucessivamente. Nos médicos é atender 50 doentes por dia, quanto atinge, passa a ser 60. É como a linha do horizonte, vai-se afastando à medida que nos aproximamos.

Na avaliação de desempenho a medida do sucesso é 1) o resultado e não o processo 2) o indivíduo e não o colectivo 3) a rapidez e não o tempo. Logo, o sucesso aparece como uma característica individual e urgente. É assim que o sucesso do jovem mede-se pelo resultado que teve no exame de acesso à universidade e não pela educação familiar, social, cultural e científica que teve ao longo dos 18 anos. Se quiséssemos rir com a desgraça alheia imaginemos o que é isto na vida sexual – um sucesso medido pelo desempenho de um só indivíduo e urgente….A avaliação de desempenho mudou a vida do mundo inteiro, diz Dejours, o mais famoso dos psicólogos sociais desta área, e tem razão. Porque o jovem que falhou no exame, é, todo ele, um falhado; porque o trabalhador que errou é despedido; porque à primeira discussão no partido o militante entrega o cartão; porque o jantar estava mau o cozinheiro é proscrito de imediato; porque a relação correu mal assuma-se a ruptura, de preferência dramática; porque o vizinho estava com má cara, não lhe falo mais e… por aí fora. Não há espaços para bolos queimados nem golpes falhados nesta sociedade de gente bem sucedida, que nunca erra e quando o faz é para assumir erros de que se orgulha- jamais os que se envergonha.

É trágico vivermos assim porque deste “sucesso” nascem cada vez mais erros, e sérios. Quem erra evita assumir para não ser acusado de frágil e portanto oculta os erros. Quem assume o erro é considerado fraco – não cuidou do seu orgulho e é desprezado. Quem persiste no erro é “determinado” e “forte”. Gerou-se uma intolerância aos erros, do local de trabalho às relações humanas. Não há sequer espaço para perceber que uma percentagem ínfima das pessoas é sociopata – erra e continua rumo ao precipício. Mas a maioria, a grande maioria, sairá mais forte, mais capaz, mais interessante, mais instigante, melhor preparada, mais felizl, se tiver tempo de assumir, olhar, pensar e corrigir os seus erros. E, também por isso, fará bolos deliciosos e revoluções de cravos na mão.

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3 thoughts on “Os erros do nosso sucesso

  1. Como já disse publicamente, o que reflecte através da escrita ou da palavra dita, provoca sempre leituras,ou audições muitíssimo estimulantes. Muito obrigado.

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