Negócios Chineses e Alemãs

Sobre a vaga xenófoba, que todos os dias se vê na TV, de “lutar contra chineses e alemães”, que aqui me perguntaram, e de uma frente do mediterrâneo, queria dizer o seguinte. A ideia de fazer uma frente do sul da Europa contra o norte é um pesadelo, na minha opinião, e pressupõe algum desconhecimento da história. Questionar os negócios de determinados países é diferente de questionar populações. A grande frente que temos que fazer, desde logo, é com os trabalhadores alemães que têm os seus salários congelados há mais de 10 anos. A maior tragédia do século XX, a degeneração da revolução russa e a II Guerra mundial, deve-se à ausência dessa frente, porque a revolução alemã de 1919 e 1923 foi derrotada e levou à degeneração burocrática e ditatorial do estalinismo. Era evidente que a Rússia atrasada e a escassez que daí advinha não iria dar outra coisa se não uma ditadura, porque as mudanças sociais não podem abdicar de ser feitas com os países onde há mais investimento, populações formadas, excedentes criados etc. para evitar escassez. Quando Leon Trotsky foi para o exílio perguntaram-lhe porque ele, líder do exército vermelho, que tinha vencido a guerra civil, não dirigia uma revolta armada contra o seu arqui-inimigo, Estaline, e ele respondeu “então em vez de uma ditadura burocrática, tínhamos uma ditadura burocrático-militar…” Onde há atraso não há abundância. E nenhum projecto anti capitalista pode ser feito sem abundância, e sem os meios técnicos, científicos, riqueza que permitem construir essa abundância, se não é outra forma de miséria, que foi o que perdurou na URSS. Onde há escassez, na vida e nos países, não há liberdade. Há 17% da população de Berlim que recebe Hartz IV, o rendimento mínimo alemão, na Alemanha há o modelo da empresa enxuta, em que 5% ou até 30% dos trabalhadores têm direitos e os restantes, na mesma empresa, estão à mercê da precariedade, baixos salários e assistência social. A Alemanha e os EUA também têm grandes divisões internas – vejam Ferguson. Tem que se distinguir as nações e os Estados das populações. A população chinesa tem pago o preço da miséria mundial como ninguém, anseio aliás pelo dia em que os EUA retiram os seus capitais da China, que creio que será dentro de pouco tempo, e a população chinesa se revolta em massa contra aquela mistura bárbara de capitalismo sob a botas de uma ditadura do PC Chinês. Não é a Europa de nações desunidas que nos vai salvar, é a Europa que derruba fronteiras.

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