Da Justiça e do Regime

O assunto do momento são os fortes indícios de uma teia alegadamente criminosa que envolve o ex primeiro-ministro, num período em que o maior banco privado do país foi à falência antes do banqueiro-mor colocar em paraísos fiscais o seu pedaço; em que a maior empresa de telecomunicações perdeu 10 vezes o valor “os activos têm pernas e vão dormir a casa”, disse um dia o seu CEO, Zeinal Bava, e em que um ministro se demite depois do escândalo de corrupção dos vistos gold, um mecanismo de transferência de propriedade para salvar um sector imobiliário que em duas décadas gerou 200 milhões de euros de mais valias, dinheiro que ninguém sabe onde está. A conclusão óbvia para quem como eu tem o privilégio de estudar história, é que a crise económica diminui o tamanho do bolo estatal a dividir entre as fracções que governam o Estado  e essa luta interna levou a uma sucessão de denúncias que fazem cair os pilares do regime como um castelo de cartas. Weber dizia que os tecnocratas do Estado perdem a imaginação em tempos de crise, Marx dizia que a destruição de capital para repor as taxas de lucro levava a lutas  “entre as fracções da burguesia” deixando a nu a forma instrumental e totalitária com que usam o Estado. Não sei se há algum teórico central das ciências sociais – dos marxistas aos liberais – que tenha ignorado este efeito corrosivo do Estado que são as crises, e que o povo celebrou no popular “zangam-se as comadres, contam-se as verdades”. Ou seja, dito de outra forma, a justiça não actua só porque está de um lado ou de outro mas porque agora lhe chegam dados evidentes para actuar e antes esses dados e muitos meios de acesso e trabalho estavam bloqueados por um pacto de regime que a curta divisão do bolo fez abalar. Esta é a essência da questão em curso, na minha opinião.

As questões que pululam superficialmente na comunicação social são outras. São a espuma dos dias, a que estamos habituados. Sobre elas tenho pouco a dizer, mas há uma coisa que me parece central e que tem a ver com a comunicação social e o funcionamento da justiça. Deter alguém com uma câmara em cima é, vamos usar a palavra certa, um nojo. Um nojo a que estamos habituados e para tristeza de muitos não é no Correio da Manhã. Há muito que os media puseram em causa um dos pilares basilares do direito, o direito à imagem e ao bom nome. E fazem-no todos os dias. Mas é preciso que se diga que esse estatuto dos media – dos editores inquestionáveis que publicam tudo porque “lhes chegou às mãos” lavando daí, mal, as suas- começou na política espetáculo, nas milionárias campanhas eleitorais, nos congressos que em vez de debate entre militantes são de transmissão, com música, em directo na TV, e dos cidadãos como consumidores dessa política ou, como alguém disse uma vez, accionistas minoritários.

Mas as liberdades democráticas devem ser defendidas para todos, para os amigos e os inimigos. José Sócrates foi detido seguindo princípios claros de um processo com garantias – indícios, inquéritos, advogados, juízes. Já os Magistrados do Ministério Público, com menos acesso aos media do que os apoiantes do PS, estão a ser sumariamente julgados por cronistas da praça na comunicação social, como autores de um cabala para pôr em causa António Costa e claro, no meio disto tudo Sócrates é o único que de acordo com estes cronistas tem presunção de inocência.  Isto é, os Magistrados e o Juiz – vejam lá que até publicam as procissões religiosas, pode haver algo mais privado, onde o Juiz vai! – não só têm direito à Câmara de TV em cima deles, como ainda por cima não são alvo de nenhum processo mas já foram julgados. Estamos mal em matéria de direitos, porque quem os apregoa usa-os só para os amigos.

Advertisements

3 thoughts on “Da Justiça e do Regime

  1. Verdade:

    “Ou seja, dito de outra forma, a justiça não actua só porque está de um lado ou de outro mas porque agora lhe chegam dados evidentes para actuar e antes esses dados e muitos meios de acesso e trabalho estavam bloqueados por um pacto de regime que a curta divisão do bolo fez abalar. “

  2. «o maior banco privado do país foi à falência ANTES do banqueiro-mor colocar em paraísos fiscais o seu pedaço»?
    Ou depois?

  3. Justiça era uma deusa romana que a cristandade apelida como pagã. A noção de justiça é algo externo à cultura de barbárie judaico-cristã. Os cristão conhecem a vontade de quem manda e não a noção de direito, que faz tábua rasa dessa distinção entre quem manda e quem obedece.

    Estado é a antítese do reino. A cristandade está familiarizada com o conceito de reino (propriedade privada de um poderoso) e estranha essa coisa laica que é o estado. Os cristãos são servos do reino do senhor. O deus judaico-cristão é um deus delinquente, fez um inferno para impor as suas vontades. Isto é, a base de legitimação é a capacidade de delinquência, e não o direito e menos ainda a razão. Os cristãos não estão familiarizados com essa coisa de punir delinquentes que são à imagem e semelhança do deus judaico-cristão. E é daí que vem não só a forma passiva como encaram os abusos, como até a ausência de nojo que os poderosos provocam a quem não é judaico-cristão.

    Ou seja, a horda cristã é a antítese cultural da civilização greco-romana. Não têm justiça e direito, têm a antítese: o poder e a vontade e os abusos de quem tem poder. Não tem a noção de estado, tem a noção de propriedade do poderoso. Não são cívicos, são anti cívicos, isto é, servos ou senhores.

    Portanto o que se observa em termos históricos, nesta segunda idade média, é a tentativa da barbárie judaico-cristã usar o que sobrou da civilização greco-romana, com os resultados óbvios. A barbárie judaico-cristã tem valores culturais diametralmente opostos à civilização greco-romana, e o resultado está à vista, nem a cristandade consegue voltar à primeira idade média (tempo dos cristãos) nem consegue praticar os conceitos que supostamente quer fazer vigorar.

    Uma piada desta segunda idade média (a idade média feirante) é o facto dos analfabetos chamarem de economistas a bárbaros germânicos (como Adam Smith e Marx). Como é que indivíduos de uma cultura pré-histórica (os germânicos supostamente saíram da pré-história no século IV), nómada, que não tem sequer a noção de casa (nos termos greco-romanos), podem versar sobre as regras da casa (economia)? Como é que os germânicos podem versar sobre um conceito que desconhecem e actividades que nunca tiveram?

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s